quinta-feira, 20 de outubro de 2011

(crítica - disco) Æthenor – En Form For Blå (2011; VHF, EUA)

























Não parece mero adereço a inclusão do nome dos músicos do Æthenor na capa de En Form for Blå. Nos discos anteriores, estas faziam alusão discreta ao “geometrismo” estilizado das capas de death metal, mas desta vez uma nuvem azul (Blå, em sueco) cobre o rosto levemente desfocado de uma mulher. Sua boca entreaberta faz supor uma certo estado de excitação e desconforto. Sobre esta imagem discreta, uma lista com o nome do grupo, do álbum e dos instrumentistas, em um procedimento muito semelhante ao que marcou os anos dourados do jazz americano. Este hábito possui um sentido que, me parece, pode ser estendido ao Æthenor: ele sublinha a identidade, a personalidade musical de cada um dos instrumentistas.

Gravado e editado em duas apresentações na casa de shows sueca Blå, En form for Blå se afigura como um salto extraordinário no pensamento musical da banda. A inclusão de Steve Noble, baterista que acompanhou Derek Bailey, e a permanência de Kristoffer Rygg, abriu a paleta de sons, antes de alguma forma comprometidas com formas do drone e do dark ambient, pela via do metal que tanto apraz O’Malley e marca seu trabalho. A bateria de Steve Noble, a profusão de timbragens e climas que ela emana, garantem o aspecto multifário das faixas, que eram antes batizadas por números, como movimentos de uma composição, mas agora possuem nomes e, de fato, parecem responder a questões diferentes.

“Jocasta” e “One Number Of Destiny In Ninety Nine” formam o primeiro bloco, as faixas mais longas, que tomam mais de cinquenta por cento do álbum. Repletas de reviravoltas, alternando a exploração de massas sonoras com texturas acidentadas, elas se caracterizam por um diálogo intenso entre todos os integrantes. Mas a intensidade toma ares exploratórios incomuns, quando nos vemos entre as cinco faixas finais. “Vyomagami Plume”, por exemplo, com seus teclados jazzísticos e a proliferação de desenhos rítmicos; o aspecto etéreo, quase gracioso, de “Dream Tassels”, além da aparente retomada das modulações características da primeira parte em “Something To Sleep Is Still”.

Nestas faixas, fica evidente a contribuição do diálogo entre Noble e Rygg, ao que parece, o trunfo do álbum, responsável por sua inclusão entre o que de melhor produziu este projeto aparentemente lateral, capitaneado por dois estetas do Metal, Sullivan e O’Malley. Mas a forma final, esta me parece de alguma forma distante do que seria comum esperar de seus nomes. Mas por que?

Talvez aí resida o parentesco mais próximo de En Form for Blå: o jazz como conceito, isto é, como criação de estruturas de improviso, de modulações improvisadas que, no entanto, é composto por habilidades individuais em franca relação. Os nomes na capa expõem a individualidade, mas o azul cobre tudo, unificando as partes num todo incrivelmente coerente. O que faz deste álbum uma das audições indispensáveis de 2011.

Bernardo Oliveira

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

(crítica - disco) Theo Parrish – Ugly Edits (2011; Ugly Edits, EUA)
























Não haveria um ano mais propício para a compilação dos “ugly edits” do DJ e produtor americano Theo Parrish. 2011 já nos brindou com a belíssima colaboração entre Max Loderbauer e Ricardo Villalobos, “recompondo” faixas do renomado catálogo da ECM. O excepcional álbum de PJ Harvey, Let England Shake, também se utiliza do expediente de citar gravações originais, inseridas no corpo do arranjo – como, por exemplo, o arranjo que Harvey fez para “Written On The Forehead”, que reproduz de forma criativa o sampler de “Blood and Fire”, do Niney the Observer. A lista é longa, mas vale notar que Nicolas Jaar, Dj Diamond, Burro Morto e Clams Casino se inscrevem no movimento de ampliação da noção e da utilização do sampler.

Vendidos e pirateados a peso de ouro mundo afora, os chamados “ugly edits” constituem um capítulo à parte nesta história. Primeiramente, pelo sopro de informalidade: cada um dos escassos e disputadíssimo exemplares vinham assinados pelas mãos do próprio Parrish, o que aumentava a aura do objeto. Em cada um deles, intervenções estético-cirúrgicas sobre clássicos assinados por Jill Scott, Sylvester, James Brown, Harold Melvin & The Bluenotes, Freddie Hubbard, Etta James, entre outros. Compilados, remixados e editados em CD, através do selo homônimo pelo qual lançou os vinis durante oito anos, Ugly Edits atesta a peculiaridade do trabalho deste que é um dos produtores musicais mais importantes dos últimos 20 anos.

Espero que o leitor não tome a expressão estético-cirúrgica como um artifício retórico. Pois me pareceu a metáfora perfeita para o procedimento utilizado por Parrish. Primeiramente, ele afirma que a palavra “ugly” (feio em inglês) significa que os “ugly edits” não serão gravados em alta fidelidade, não serão cortados com precisão, muito menos serão alinhados no 4/4 característico da vertente funk-soul-disco. Nas palavras do autor, trata-se uma reinterpretação, cujo método consiste em “pegar o disco, gravá-lo, equalizá-lo, cortar as partes e inseri-las no Akai MPC 2000.” E ele prossegue, elucidando seu método com a clarividência e a simplicidade de um mestre: “tenho toda a canção, quebrada e distribuída em sessões sobre os pads, e simplesmente aciono todos os trechos em conjunto, ao mesmo tempo.”

Como se cada uma dessas faixas fosse um cadáver, e com seu bisturi Parrish produzisse intervenções no corpo da obra, esquartejando seus membros para dar vida a outra composição. Sim, Parrish promove a “frankensteinização” de clássicos da disco music, equilibrando-se elegantemente entre a referência e a recriação, mantendo a faixa por longo tempo em sua integridade estrutural, tal como a dupla Loderbauer/Villalobos.

Através de Ugly Edits tomamos contato, não mais com as faixas avulsas que volta e meia apareciam através de blogs e redes P2P, mas com um corpus inteiriço, conceitualmente forte o suficiente para sustentar as duas horas e quarenta de audição. E não são poucos os momentos que compensam tamanha dedicação. A começar pelas repetições obsessivas no final da alegre “Love I Lost”, a recomposição com toques ambient em “Slowly Surely”, a sequenciação de texturas rítmicas do clássico “Got a Match”, os minutos finais de “Little Flower” e “Slick”. Destaque também para a orgia rítmica de “Shave Mister” e a estranhíssima versão para o funkão “Never Seen a Tree” – notem no início como Parrish se utiliza das estáticas do vinil com intenções "percussivas"...

Claro, John Oswald, Public Enemy, Avalanches e DJ Shadow permanecem pioneiros, mas o artista que se utiliza criativamente dos excertos de outra faixa, dispõem hoje de um campo realmente aberto de possibilidades, que escapam, sobretudo, à própria noção de “citação”. O refix, por exemplo, é apenas um capítulo desta série de fenômenos a meio caminho (e, às vezes, além) da citação e da recriação. Mas os "ugly edits" remontam a algo que fica entre uma coisa e outra: nem a experimentação selvagem dos primórdios, nem a volatilização dos métodos alusivos que marcam a música atual. Curto e grosso, escasso de elementos, essas faixas se destacam pela elegância do método e, sobretudo, pela generosidade do resultado.

Bernardo Oliveira

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Minicrônicas Discográficas #3





Esta semana, além dos discos eleitos para nossas minicrônicas, me aprofundei na audição de alguns trabalhos que possivelmente se transformarão em resenha no Matéria: a compilação genial dos “ugly edits” de Theo Parrish; o petardo do Ekoplekz, Intrusive Incidentalz; a colaboração de Akira Sakata com – adivinhem?! – Jim O'Rourke e o Chikamorachi, And that's the Story of Jazz...; o surpreendente Aftertime de Roly Porter; a poderosa coletânea do gênio malinês Sorry Bamba, lançada pelo selo Thrill Jockey; e o estranhíssimo Pan Tone, com Hauschka & Hildur Gudnadottir. 

Ainda não escutei o Tim Hecker novo, Dropped Pianos. Nem Pan Am Stories, do Rangers, nem Plus, do Luomo de Vladislav Delay, nem Space Cadet: Original Still Picture Score, do Kid Koala. Ainda me aproximo também da colaboração de Scanner com David Rothenberg, tentando entender se tomo o disco por uma faixa como o dub “As Air Moves In” ou por besteiras como “Compounding Daydream”… Por outro lado, tive uma grande decepção com o primeiro álbum do Blue Daisy, The Sunday Gift. Parece que há, entre os produtores ingleses, a tendência de encarar o "formato-álbum" com pretensão de seriedade, e de preencher esse requisito com melodias bobas e temas grandiloquentes… Aconteceu com James Blake e Rustie… Aliás, desapontamento geral com o novo single do Joker, a volta magriiinha de Andre 3000 e Ghost People, um tropeço considerável do produtor holandês Martyn.

Ah sim, escrevi crítica para a FACT sobre três álbuns que merecem destaque: a compilação dos remixes de The King of Limbs, intitulada TKOL 1234567, o Fabriclive 59, assinado pelo Four Tet de Kieran Hebden, e o novo (outro!) trabalho de Andy Stott, We Stay Together. Três trabalhos que variam da compilação à reinterpretação à criação, quase que de forma indistinta, precisamente uma das características marcantes deste ano de 2011...

Pole – Waldgeschichten (12”) (2011; Pole/Kompakt, Alemanha)
Após quatro anos de silêncio, o produtor alemão Stefan Betke, também conhecido pelo pseudônimo Pole, está volta com um 12” matador intitulado Waldgeschichten. Pole e Steingarten, de 2003 e 2007 respectivamente, concentravam-se em elaborar uma perspectiva mais palatável da combinação prodigiosa de glitches (erros de sistema convertidos em sons) com estrutura dub. Composto por três belíssimas faixas (“Wipfel”, “Wurzel” e “Wipfel Dub”), Waldgeschichten traz um trabalho novo e promissor, que se aproxima das levadas mais regulares do Rhythm & Sound, mas conservando a chiadeira que caractertizou seus três primeiros trabalhos – editados em conjunto no ano de 2008, resenhado aqui. Para escutar alto, muito alto…

Sei Miguel, Pedro Gomes – Turbina Anthem (2011; NoBusiness, Lituânia [Portugal])
Sei Miguel, veterano trumpetista francês, que viveu em São Paulo e se assentou em Portugal nos anos 80, se une ao guitarrista português Pedro Gomes para forjar um dos discos mais estranhos que escutei esse ano. Turbina Anthem é, precisamente, o que anuncia o título: uma série de hinos à cacofonia que a modernidade e seus apetrechos trouxeram para embalar nossas distopias mais caras. Porém, nas palavras do próprio Gomes, não se trata de “um disco gratuitamente freeform; é, aliás, obsessivo com melodia, frase, timbre e densidade.” Sim, estranho, mas gratificante para aqueles que adentram seu inóspito e intrigante universo.

Caldo de Piaba – Volume 3 (2011; s/g, Brasil)
Formado por Saulinho Machado na guitarra, Arthur Miúda no baixo, Eduardo Di Deus na bateria e João Gabriel na percussão, a banda acreana Caldo de Piaba chegou em maio deste ano ao terceiro volume de gravações, trazendo uma roupagem bastante peculiar de gêneros como a guitarrada, a lambada e o carimbó. Gravado em fevereiro deste ano nos estúdios de uma rádio em SP, o disco traz uma banda afiada, tocando os gêneros supracitados com pegada e andamento de rock’n’roll. O repertório mistura composições próprias (“Lambada Nova” e “Daimagem”), com a de grandes nomes da guitarrada como MestreVieira e Aldo Sena, além de uma cover empolgante de “I Want You”, dos Beatles. O álbum pode ser baixado aqui.

Fred McDowell - The Alan Lomax Recordings (2011; Mississippi Records, EUA)
“I Do Not Play No Rock 'N' Roll” é o título de um dos grandes discos de “Mississippi” Fred McDowell (1904-1972, Tennessee, EUA), uma das figuras ligadas ao blues mais geniais e controversas. Apesar de considerado entre os cantores de blues do Mississipi Delta, foi talvez um dos primeiros representantes do blues praticado ao norte, marcado pela semelhança evidente com o griot africano. Inclusive, o Tinariwen e os músicos malineses certamente se afiguram como uma entre tantas vertentes desta modalidade narrativa, distribuídas pelo mundo por força do colonialismo europeu.

Suas primeiras gravações de longo alcance foram produzidas pelo musicólogo americano Alan Lomax e pela musicista inglesa Shirley Collins. Mal comparando, a “descoberta” de McDowell corresponde na cultura americana ao aparecimento de Clementina de Jesus para nós brasileiros, isto é, uma espécie de testemunha ancestral das mudancas políticas, técnicas e culturais dos séculos XIX e XX. Gravado em Como, Mississippi, no ano de 1959, este registro se afigura como um dos mais importantes documentos sonoros do século passado.

Vários Artistas – Bridges (2011; Machinefabriek, Alemanha)
Ao prolífico Rutger Zuydervelt, mais conhecido como Machinefabriek, foi oferecida a oportunidade de criar a trilha-sonora para o trabalho do designer e fotógrafo holandês Gerco Hiddink. Hiddink desenvolveu uma série de colagens em espiral, criadas a partir de pedaços de fotografias tiradas de quatro pontes entre Sinderen e Nijmegen, na Holanda. Ao invés de aceitar, Zuydervelt visitou as pontes com a intenção de fazer gravações de campo, e propôs a quatro duplas de músicos e improvisadores que reagissem a essas gravações, munidos de seus respectivos instrumentos. São eles: Jim Denley & Espen Reinertsen; Burkhard Beins & Jon Mueller; Mats Gustafsson & Nate Wooley; Erik Carlsson & Steven Hess. O resultado pode ser irregular em alguns aspectos, mas vale não só pela proposta, como também por alguns momentos de simbiose entre os improvisadores e as gravações de campo – sobretudo na parceria entre Gustafsson e Wooley. Ouça aqui.

Bernardo Oliveira 

Ps.: Ao lado de uma dúzia de felizardos, presenciei ontem um dos melhores shows que vi esse ano. E olha que estamos falando de um ano que teve e terá de Stevie Wonder a Sonic Youth, de Vampire Weekend a Mulatu Astatke. Trata-se do carioca Chinese Cookie Poets, que apresentou novas faixas no estúdio Audio Rebel, no Rio de Janeiro. Em um dos momentos mais incríveis da apresentação, contaram com a participação do cantor Negro Léo, que com Marcos Lacerda, forma o A Pax. E, na boa, o cara encarnou todos os grandes exus da música em uma só performance! Sério! Vi ali o James Brown, o Fela Kuti e o Iggy Pop, tudo na mesma pessoa, acompanhado por uma das bandas mais avassaladoras do momento. Bota fé?

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

(crítica - disco) Akita/Gustafsson/O’Rourke – One Bird Two Bird (2010; eMego, Áustria [Japão])


Existiriam limites para a exploração sonora e, para além dela, o próprio gosto por explorar esses limites? A aparente contradição pode fornecer um parâmetro razoável para definir a associação que assina este álbum. Masami Akita, mais conhecido como Merzbow, lida direta e intensamente com a borda: como um operário dos ruídos que se esmera em milhares de artífícios, de modo a extrair sentido dos sons que não partilham do rótulo “música”, Akita é o maior e mais contundente exemplo de artista que tem gosto por esgarçar limites. Ele não é construtivo, não possui seguidores, não abre correntes: seu trabalho pode excitar, mas não empolga. Força bruta, pressão e depredação sonora: seu ofício é destruir sem destino, nem amanhã. O niilismo de Akita é político, mas não é “cultural”: seu trabalho é contracultural. Ao passo que o de seus companheiros, Mats Gustafsson e Jim O’Rourke, se encontra a meio caminho entre a diversas vertentes musicais e a utilização pontual de ruídos e sons “não-musicais”. É possível, porém, combinar essas duas prerrogativas aparentemente complementares, mas que no frigir dos ovos, se afiguram absolutamente distanciadas? Não se negocia com o noise, certo? Ele recobre a tudo como a noite recobre o dia. Enquanto os dois últimos podem criar mediações, dificilmente Merzbow será o tipo de autor que regulará seu trabalho com sonoridades mais acessíves, mesmo que estejam circunscritas ao raio sonoro do free-improv.

Mas em One Bird Two Bird o improvável acontece. Na verdade, já havia me surpreendido com a riqueza de Merzbient, na sensibilidade com que Akita traduziu o universo desafiante do noise para uma estrutura econômica, para uma sonoridade que incorpora outras possibilidades de “barulho”. Pois esta capacidade de produzir sons com economia, e de compor de forma mais espaçada, favorece o encontro com as particularidades dos dois grandes improvisadores que estão ao seu lado. Nas duas faixas, Merzbow não opta pelo excesso, mas pelo diálogo. Gustafsson e O’Rourke, cada um à sua maneira, promovem interações admiráveis com o arsenal de Akita. Em “Two Bird”, por exemplo, lá pelo nono minuto, Akita equaliza o volume de suas explosões para desenhar um momento de improvisação intensa, realizado pelo saxofone descontrolado de Gustafsson. Eles prosseguem em um crescendo, entretanto, sem que “a noite” paire sobre tudo. Pelo contrário, o que sobressai na improvisação do trio é a capacidade de tornar equânimes as intervenções improvisadas, criando diálogos que seriam impensáveis em se tratando da virulência sonora de Akita. Nos quarenta e poucos minutos de One Bird Two Bird, muitos são os momentos em que se percebe a coerência do trio.

Alguns poderão dizer que Merzbow foi como que domado pelo instinto de produção de O’Rourke, mas não é por aí: assim como em Merzbient, a radicalidade aqui reside na capacidade de mediar os volumes e fazer seus sons dialogarem. A intensidade fica resguardada, portanto, nas modulações e diversos momentos, e não na pressão e na saturação. Logo, não estamos diante somente de um exemplar raro ou de um momento brilhante de improvisação contemporânea. Mas frente a um outro momento da música barulhenta e asfixiante de Masami Akita – o que, diga-se de passagem, não é pouco.

Bernardo Oliveira

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

(crítica - disco) Vladislav Delay Quartet – s/t (2011; Honest Jon’s, Reino Unido [Finlândia])


As raias da improvisação parecem cada vez mais distantes de uma forma tradicional, um eixo sonoro que forneça um norte para a composição. Apesar de presente na grande maioria das manifestações musicais populares de todos os tempos, durante o século XX a improvisação foi explorada majoritariamente pelo jazz, o gênero que a abraçou como método e espírito.

E, no entanto, parece que hoje a forma foi descarnada dos maneirismos jazzísticos e incorporada a uma variedade de possibilidades, algumas beirando o inominável. Este ano, além do segundo trabalho do Moritz Von Oswald Trio, ainda tivemos a intrigante reformulação do Aethenor, a colaboração espetacular de Masami Akita com Jim O’Rourke e Mats Gustafsson e este registro poderoso do quarteto de Sasu Ripatti, sob a alcunha Vladislav Delay.

Não deixa de chamar atenção o fato de que as últimas empreitadas do músico finlandês tenham como elemento comum o trabalho de improvisação em conjunto. Porém, enganam-se aqueles que julgam apressadamente o Vladislav Delay Quartet à luz de sua participação no trio de Mortitz Von Oswald. A exceção da forma aberta, “jazzística”, com que pavimentam a composição, a sonoridade difere radicalmente, conservando-se apenas o elemento coletivo e improvisacional.

Emerge neste álbum uma concepção aberta, para além do ritmo, dos andamentos regulares e do colorido ocasionado pela síntese de elementos acústicos e eletrônicos. Aqui, é o noise, o barulho, o ruído, que fornece a direção. Neste percurso, sobressaem dois ambientes sonoros, unidos pelo caráter de improvisação livre.

Um primeiro, pronunciadamente rascante, compacto e volumoso, em pleno diálogo com o noise, como por exemplo na tensão industrial de “Hohtokivi” e na faixa de abertura, “Minus Degrees, Bare Feet, Tickles”. Outro, fragmentário, mais abstrato, espaçado e aberto à incursões minuciosas, como nas belíssimas “Santa Teresa” e “Das Abend”. Mas é na comunhão entre esses dois ambientes que este álbum alcança o seu ápice.

Me refiro à excepcional solução estética encontrada pelo quarteto na melhor faixa do trabalho, “Louhos”, uma combinação improvável de industrial, IDM, free-improv e jazz estrito sensu. Inclusive, podemos atribuir a tensão do crescendo que caracteriza a faixa ao equilíbrio perfeito entre as sonoridades compactas (provável cortesia de Vainio) e sinuosas (do sax soprano de Capece).

Em “Killing The Water Bed”, outro grande momento, este crescendo se apresenta de forma ainda mais acentuada, visto que, no início da faixa, a combinação da levada de prato de bateria com contrabaixo e saxofone aproxima a sonoridade consideravelmente do jazz tradicional, para culminar com uma pletora de ruídos, com ênfase na percussão diáfana de Ripatti.

O emprego de expressões como drone, IDM, noise, free-improv, etc, em busca de uma orientação, permite ao ouvinte tatear o espaço sonoro. Diante de um dos grandes exercícios de improvisação dos últimos anos, ele se encontra preso ao inominável, ao invisível, àquilo sobre o qual nada se pode dizer sem antes fruir. Portanto, Vladislav Delay Quartet convida o ouvinte a acompanhá-lo neste zigue-zague de possibilidades sonoras, aparentemente sem destino. Ao final, resta um zumbido no ouvido e uma sensação de uma experiência sonora sem precedentes.

Bernardo Oliveira

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Fire! with Jim O’Rourke – Unreleased? (2011; Rune Grammofon, Noruega [Suécia/Japão])


























Duas carreiras fascinantes, dispostas em um mesmo curso improvisado. Dois instrumentistas e experimentadores assumidos, fulcrando suas respectivas carreiras na incansável exploração dos confins da experiência sonora. De um lado, Jim O’Rourke, "um homem do Renascimento", multitalentoso, autor de uma das mais extensas e consistentes biografias da música atual. De outro, Mats Gustafsson, oriundo da peculiar cena jazzística norueguesa, que emprestar seu saxofone a muitas das sonoridades mais interessante do momento. Com o Fire!, um de seus muitos projetos, Gustafsson se uniu a O’Rourke para dois dias de improvisação em Tóquio, 2010. E o resultado, meus camaradas…

…não surpreende tanto se observarmos os últimos desenvolvimentos de Mats Gustafsson, Jim O’Rourke e, particularmente, do jazz nórdico. Nada mais apropriado do que, para fins de comparação, revisitar as colaborações anteriores, como os longínquos Parrot Fish Eye (o primeiro Gustafsson solo) e a obra-prima pontilhista Xylophonen Virtuosen, ou os mais recentes, como o acachapante One Bird Two Bird. Isto para verificar como Unreleased? inscreve e confirma O’Rourke nesta leva de álbuns irreverentes e poderosos, mais próximos de uma improvisação roqueira, psicodélica e “paródica”, do que propriamente jazzística – como no excelente álbum do Lean Left (com a colaboração dos guitarristas do Ex) e o último disco do The Thing, também com O’Rourke.

Em Unreleased? cabem alguns momentos que rememoram o tal disco do Lean Left, talvez pelo sax barítono timbrado com o grito rouco dos anos 50, uma certa inconsequência juvenil na condução do improviso… Mas há nas quatro faixas uma acentuada diversificação interna, como nas duas primeiras, “Are You Both Still Unreleased?” e “Please, I Am Released”, que constituem poderosos “crescendos”, justapondo a habilidade em criar texturas surpreendentes com sonoridades convencionais – como o sax barítono, o baixo marcado ou a bateria marcial e implacável.

Já “By Whom And Why Am I Previously Unreleased?” retoma alguns argumentos de colaborações anteriores, ao operar a partir dos elementos, e não das texturas, resultando em uma dinâmica de baixo volume e alta tensão. Mas o final me pareceu surpreendente, por conjugar os oito primeiros minutos de noise trabalhado, com mais nove minutos de um blues histérico. A coisa chega ao ponto de assemelhar-se a um doom metal, ou algo bem arrastado, pesado e barulhento. E Unreleased? termina quieto, com o saxofone arranhando seus últimos sopros e o contrabaixo intermitente, repetitivo e super grave – um dos destaques do disco. Uma audição vigorosa para quem gosta de jazz e de experiências com estrutura de improvisação, mas também para quem curte o hard rock viajandão dos anos 70.

Bernardo Oliveira

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

(crítica - disco) Ricardo Villalobos & Max Loderbauer – Re: ECM (2011; ECM Records, Alemanha)



Como na grande maioria das vezes recusei com veemência o trabalho excessivamente cerebral do selo alemão ECM, me flagrei meio perdido diante das inúmeras referências trabalhadas nesta colaboração entre dois nomes relevantes da eletrônica contemporânea, Ricardo Villalobos e Max Loderbauer. Em busca de pistas que me aliviassem a barra de ter de percorrer o abstracionismo de Miroslav Vitous, John Abercrombie e, mais recentemente, Christian Wallumrød Ensemble, detive-me sobre a capa verde escuro em busca de outras pistas. Na ausência de referências suficientes para empreender uma crítica do ponto de vista objetivo, me refugiei justamente na abstração da qual tentava fugir.

Reparei alguns borrões ainda mais verde escuros, além do risco branco, imperfeito, cortando o incomensurável espaço verde. Contando com a benevolência do leitor para o delírio que se segue, tais borrões pareciam dizer: se a arte pode manifestar uma dimensão crítica e, por outro lado, pode gerar a representação estocástica de sua existência enquanto fenômeno estético – desdobrando-se em outras obras e comentários – eis uma capa perfeitamente adequada para o álbum em questão. Ela indica visualmente o grau e a natureza da particularidade com que confluíram o trabalho de Villalobos, Loderbauer e do produtor do disco, o alemão Manfreid Eicher, fundador da ECM.

Entre tais nomes, nomes importantes da música contemporânea, há de se supor que existam abismos, pontes, conexões imprevisíveis, afinidades eletivas, formas diversas de criar e desenvolver procedimentos concernentes à criação musical. E, de fato, Re:ECM é um trabalho que dificilmente seria concebido por outros personagens que não os que estão aqui em jogo. Eicher, por motivos óbvios, por ser o mentor e timoneiro de uma utopia jazzística que no meu entender, já rendeu seus frutos mais suculentos. Villalobos corrobora o impressionismo minucioso da ECM, ele que timbrou o techno com sutilezas sonoras de modo a justificar brilhantemente o rótulo “microhouse”. Loderbauer, aparentemente como um catalisador de ideias, da mesma forma como faz no trio de Moritz Von Oswald.

Diante da excelência do trabalho, não tive outra opção se não buscar suas fontes – que, sim, importam. Mas vale frisar que, independente de qualquer referência, Re:ECM possui luz própria, encerrada em uma atmosfera idiossincrática, difícil de dominar à primeira vista. Assim, convém destacar que o disco não é exatamente um álbum de remixes. Artistas de épocas distintas e com um aporte variado foram “recriados”, isto é: retalhados, remixados, sampleados, “loopados”, reconstruídos, adicionados a outras composições. Em diversos momentos, os trechos são executados em sua perfeita unidade sonora, apenas salpicados por efeitos. Em outros, a dupla cria novas peças, absolutamente autônomas em relação à faixa original, e incorpora seus elementos, recontextualizando-os. Neste aspecto, temos um capítulo à parte. Pois se os limites da interpretação foram ultrapassados pelo recorte conceitual estabelecido pelos autores, o mesmo não se pode afirmar da sonoridade ECM. Esta se mantém preservada em seu pontilhismo cerebral, muitas vezes árduo e trabalhoso, que define o selo em seu caráter mais profundo.

Nas 17 faixas que compõem Re:ECM, são perceptíveis e evidentes suas características gerais. Mas percorrê-lo faixa a faixa, seguidas e repetidas vezes, mostra que nem tudo pode ser açambarcado pela visão geral. Por sua extensão e pretensão, o disco excede o conceito geral e chega a dialogar abertamente com a obra de Villalobos e Loderbauer. Como em “Resole”, do CD 2, recriação de uma faixa do russo Alexander Knayfel, na qual a sobreposição de vozes femininas cria o contraponto perfeito ao ritmo descompassado formado por bleeps e percussões.

Ou ainda, através da generosidade com que retiram John Abercrombie da pasmaceira de “Timeless” (de 1975), através dos timbres abrasivos de “Retimeless”. Duas “recriações” (ou “recontextualização”) da belíssima “Blop”, do Christian Wallumrød Ensemble encabeçam os dois discos: “Reblop” (do disco 1) e “Replob” (do disco 2) absorvem o aspecto onírico da harpa barroca de Giovanna Pessi, a primeira de forma mais propriamente jazzística – tensa e irregular –, a segunda dispondo de camas de teclados mais duradouras e meditativas.

Com o mesmo Wallmurød, a faixa que encerra o CD 2, “Redetach”, se inscreve nos momentos em que podemos escutar o que seria algo como o duo de Ricardo Villalobos. “Reblazhenstva”, é retirada da obra do mesmo Knaifel (de “Blazhenstva”, 2008); espantosa e fantasmagórica recriação de “Rekondakion”, de Arvo Pärt (de “Kondakion”, 1998);  “Reemergence”, uma forma mais robusta de interpretar a peça de Miroslav Vitous (de “Emergence”, 1986);  um caso raro em que as duas versões se equiparam, “Rensenada” recria a peça “Ensenada” (1974), o jazz afropsicodélico composto por Bennie Maupin.

Re:ECM traz uma longa sequência de momentos de música eletrônica composta e pensada sob critérios aparentemente rígidos, mas com liberdade de criação indicada na profusão de detalhes e adições. Porém, no aspecto geral, permite entrever um pouco mais. Não somente o trabalho de composição extraordinário, que buscou captar este espírito sem macaqueá-lo, mas também uma forma aditivada de trato com a referência, que não é cover, nem cut and paste, nem remix, nem sampler, nem loop, mas tudo isso junto, misturado e justaposto.

Mais uma vez os alemães se apropriam das técnicas do dub jamaicano – e seu conceito máximo, qual seja, usar o estúdio como instrumento musical – com caráter de invenção. Não só eles parecem extrapolar a mera proposta de revitalização do conceito ECM, como também inventaram uma ECM muito particular, tanto no tratamento conferido às composições, como na seleção das faixas. Um disco que pode ser amado, odiado, mal-compreendido ou simplesmente ignorado. Mas que promove uma modalidade de reinterpretação que servirá de referência não só para uma história da música em 2011, como também para a música eletrônica daqui para frente.

Bernardo Oliveira

sábado, 1 de outubro de 2011

Minicrônicas Discográficas 2

Conrad Schnitzler & Borngräber & Strüver – Con-Struct (2011; M=minimal, Alemanha) | Roedelius/Schneider – Stunden (2011; Bureau B, Alemanha)
O krautrock… Ahhh o krautrock!… Nascido no seio de uma sociedade ainda convalescente, o krautrock catalisou uma experiência libertária dentro da sociedade alemã, egressa de uma experiência política autoritária e traumática. Tão pungente e libertador foi o krautrock para alguns alemães, que essa força se traduziu em um leque de nuances artísticas as mais variadas, não só na música, como no cinema, nas artes plásticas, etc. Depois, o kraut foi “assaltado” por David Bowie, confundido com o rock progressivo inglês, sonegado nos livros de história do rock, e outras resistências que só vieram a aumentar sua força e poder de influência. Hoje, se olharmos o panorama como um todo (como?), veremos impassível sua influência no drone, no post-rock, no dubstep, e até na música brasileira e africana.

Isto para apresentar dois novos trabalhos de dois dos mais influentes nomes da cena krautrock. O primeiro é o conflituoso Con-Struct, parceria do saudoso Conrad Schnitzler, falecido este ano, com Christian Borngräber e Jens Strüver (que formam a dupla Borngräber & Strüver). O segundo é Stunden, parceria de Hans-Joachim Roedelius com Stefan Schneider, 50% da dupla berlinense To Rococo Rot. Enquanto Schnitzler (na minha modesta opinião, o grande nome do movimento) imprime um tom rascante e sombrio nas esculturas sonoras de Con-Struct, Roedelius e Schneider investem em delicadas texturas ambient, semelhante a Cendre, a obra-prima de Fennesz e Sakamoto.

Fanafody: A Collection Of Recordings And Photography From Madagasikara, Volume II (2011; Mississipi Records, EUA [Madagascar])
Colhidas ao longo das diversas viagens que fez para Madagascar, as gravações do arquivista canadense Charlie Brooks constituem um valioso testemunho da música que se faz hoje naquele país. Em 2010, o selo Mississipi Records editou os vinis Fanajana e Fihavanana, ambos dedicados ao registro da música do país, caracterizada pelo canto gutural e a utilização prodigiosa da rabeca. O volume dois, batizado Fanafody, foi lançado em julho deste ano, trazendo basicamente gravações de campo. A espontaneidade dos artistas garante a beleza profunda de faixas como “Ravoro III”, executada pelo cantor (cantora?) Tanka Eliasi, ou ainda o suingue intrincado de “Fahoriana Be”, por Guy Raberivelo. Simplesmente indispensável.

Blue Daisy – 3rd Degree EP (2011; Black Acre, Reino Unido)
Reza a lenda que o produtor inglês Kwesi Darko, mais conhecido como Blue Daisy, lançará seu primeiro álbum, The Sunday Gift, na semana que vem. O disco virá pela mesma Black Acre pela qual Darko editou seus excelentes trabalhos até então: o 10” Space Ex (2009), Strings Detached EP (2009) e a parceria com a cantora Anneka no Raindrops EP (2010). Lançado em maio deste ano, este 3rd Degree EP não acrescenta grandes inflexões ao trabalho do produtor: melodias imersas em um ambiente enevoado, cacofonia controlada entre o onírico e o urbano. Destaque para a batida letárgica de “Kill a DJ”.

Parahyba Art Ensemble – Ao Vivo - Festival MIMO (2011; s/g, Brasil)
Sinceramente, nunca tinha ouvido falar do Parahyba Art Ensemble. À primeira vista, julguei trata-se de um conjunto brasileiro, mas na verdade trata-se de um ensemble multinacional, capitaneado pelo guitarrista paraibano Chico Corrêa. Geralmente acompanhado de sua Electronic Band, inscrito no contexto do manguebeat e além, aqui Corrêa tece longas sessões de improvisação, acompanhado pelo baterista americano Gregg Mervine, o multiinstrumentista belga Henry Krutzen, o francês Didier Guigue nos sintetizadores e flauta baixo, O DJ Guirraiz, o trompetista alemão Burgo, o baixista Mateus Alves (que lança este mês o CD Mateus Alves - Música de câmara e orquestral) e o VJ Spencer. Baixe aqui.

VA – ModernismuseuM / Mmegaplekz (2011; Mordant Music, Reino Unido)
Um museu “moderno” soa como uma contradição: a experiência artística autofágica do século XX, “preservada” pela fixação no tempo produzida pelo museu. Este pensamento me veio com relação a esta coletânea de extras (remixes, faixas não-lançadas), anexada a uma mixtape assinada por Ekoplekz, na qual ocorre o mais improvável: trata-se de verdadeiras sobras, faixas medianas de artistas como Shackleton, Mordant Music e Vindicatrix. Se por um lado vale pela curiosidade, ao menos você pode ter a certeza de que este é o mais desinteressado caça-níquel de 2011.

Ricardo Villalobos, Max Loderbauer / Peverelist – Shangaan Shake (2011, Honest Jon's, Reino Unido/Alemanha [África do Sul])
Na ponta dos pés, insinua-se um movimento de revalorização do sapateado, seja através do shangaan sulafricano, do footwork de Chicago (que pode ser visto aqui e ouvido aqui), ou ainda dos “passinhos” no Rio de Janeiro. Para cada uma dessa joviais modalidades, uma sonoridade diferente, sempre em bpms altíssimos, sem os quais os jovens não conseguem desempenhar sua “podo-pirotecnia” – sim, porque em alguns momentos seus passos incendeiam o ambiente, como mostram as imagens.

Pois bem, o selo Honest Jon’s, responsável pela divulgação do shangaan, convidou produtores e djs para remixarem algumas faixas do principal nome desta cena: o Tshetsha Boys. Um desses 12” de remixes chama-se Shangaan Shake, e conta nada mais nada menos que com a dupla Ricardo Villalobos, Max Loderbauer (responsável pelo acachapante Re:Ecm) de um lado, e com dubstep-mais-dub-que-step de Peverelist, parceiro de Shackleton. O resultado vai de encontro à velocidade necessária para o leitor arriscar seus passinhos, mas pode tranquilamente embalar os movimentos corporais desconexos de balzaquianos desavisados.

Bernardo Oliveira