quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Melhores de 2011: Lista de Convidados e Lista Geral


Em um ano que foi tão prazeroso quanto angustiante para os amantes da música, pedimos a cada um dos nossos convidados que elencassem suas respectivas preferências discográficas. A tarefa nunca é simples, e convém ao “listador” que ele entre naquele estado de espírito entre a euforia e a angústia que caracteriza a paranóia listóloga. Vale notar que as listas são um bom canal de diálogo e comunicação, que informa, fomenta debates e promove a circulação de artistas e trabalhos. Porém, tal prática não é vista com bons olhos. Talvez pelo caráter ambíguo de toda lista, que se equilibra precariamente entre pretensões universais e subjetivas, mas também porque encaminha uma forma de auto-afirmação, de identificação, de auto-conhecimento e recenseamento cultural… Um fetiche, em suma, do qual não se deve esperar muita coisa, mas que perdura de forma renitente como uma das obsessões do “homem moderno”. Ao final da lista de convidados, os melhores discos do ano segundo os três redatores do Matéria, Thiago Miazzo, Antonio Marcos Pereira e Bernardo Oliveira.



Cadu Tenório (músico, Sobre a Máquina)

Discos
1 - Prurient - Bermuda Drain
2 - Tim Hecker - Ravedeath, 1972
3 - Julia Holter - Tragedy
4 - Radiohead - The King Of Limbs
5 - Tha Caretaker - An Empty Bliss Beyond This World
6 - Tape - Revelationes
7 - The Kills - Blood Pressure
8 - Jesu - Ascension
9 - SBTRKT - SBTRKT
10 - Aidan Baker - Plague of Fantasies

Faixas
1 - Prurient – “Palm Tree Corpse”
2 - Tim Hecker – “No Drums”
3 - Jesu – “Black Lies”
4 - The Kilimanjaro Darkjazz Ensemble – “Celladoor”
5 - Julia Holter – “Celebration”
6 - SBTRKT – “Hold On”
7 - SBTRKT – “Trials Of The Past”
8 - The Kills – “Future Starts Slow”
9 - Julia Holter – “Try to Make Yourself a Work of Art”
10 - Panda Bear – “You Can Count On Me”
11 - Thisquietarmy – “The Pacific Theater”


Rodrigo Brandão (músico, Mamelo Sound System/Ekundayo)

10 discos:
Beastie Boys - Hot Sauce Commitee Pt.2
Beans - End It All
Danger Mouse & Daniele Luppi - Rome
PJ Harvey - Let England Shake
Kiko Dinucci, Juçara Marçal & Thiago França - Metá-Metá
Shabazz Palaces - Black Up
Raekwon - Shaolin Vs. Wu-Tang
Matthew Shipp, High Priest, William Parker & Beans - Knives From Heaven
São Paulo Underground - Três Cabeças Loucuras
Jay-Z & Kanye West - Watch The Throne

20 músicas:
Beastie Boys – “Long Burn The Fire”
Beastie Boys + Santigold – “Don't Play No Game That I Can't Win”
Beans – “Superstar Destroyer”
Beans + Tunde Adebimpe of TV On The Radio – “Mellow You Out”
Raekwon – “Ferry Boat Killers”
Raekwon + Ghostface Killah & Jim Jones – “Rock'n'Roll”
Criolo – “Não Existe Amor Em SP”
Criolo – “Subirusdoistionzin”
Ogi – “Minha Sorte Mudou”
São Paulo Underground – “Just Lovin'”
São Paulo Underground  - “Lado Leste”
Jay-Z & Kanye West – “Otis”
Jay-Z & Kanye West – “Gotta Have It”
Doncesão + Elo Da Corrente – “Cego, Surdo & Mudo”
Mike Ladd – “My Kidz”
Shabazz Palaces – “Free Press And Curl”
Shabazz Palaces – “Youlogy”
The Roots – “Tip The Scale”
Kiko Dinucci, Juçara Marçal & Thiago França – “Vias de Fato”
Kiko Dinucci, Juçara Marçal & Thiago França – “Oba Iná”


Chris Calvet (designer, Arterial)

1) PJ Harvey – Let England Shake
2) Hype Williams – One Nation
3) Tom Waits – Bad As Me
4) Disappears – Guider
5) SBTRKT
6) Atlas Sound – Parallax
7) Nicolas Jaar – Space is Only Noise
8) Tim Hecker – Ravedeath 1972
9) Lou Reed e Metallica - Lulu
10) St. Vincent – Strange Mercy


Joca Vidal (DJ, agitador cultural, Phunk/Digital Dubs)

Rich Robinson - Through A Crooked Sun ("It's not Easy" e "I Don't Hear the Sound of You")
James Blake - James Blake ("The Wilhelm Scream" e "Limit to Your Love")
Eddie - Veraneio ("Veraneio" e "Ela Vai Dançar")
Mundo Livre S/A - Novas Lendas ("Constelação C.A.R.I.N.H.O.C.A" e "O Velho James Brouse")
Mayer Hawthorne - How do You do ("A Long Time" e "Dreaming")
Jamiroquai - Rock Dust Light Star ("Lifeline" e "Blue Skies")
Empresarios - Sabor Tropical ("Space Selecta" e "Happy Track")
Kraak and Smaak - Electric Hustle ("Built for Love" e "Dynamite")
Ogi - Crônicas da Cidade Cinza ("Premonição" e "Porque Meu Deus?")
BiD - Bambas2 ("Brasil" e "Happiness Is All In Your hands")


Túlio Brasil (jornalista, La Cumbuca)

Nacional
--> Discos:
1. Kassin - Sonhando Devagar
2. Bonifrate - Um Futuro Inteiro
3. Domenico - Cine Privê
4. Romulo Fróes - Um Labirinto Em Cada Pé
5. Metá Metá - Metá Metá
6. Gal Costa - Recanto 
7. Wado - Samba 808
8. Amabis - Memórias Luso Africanas
9. Marcelo Camelo - Toque Dela
10. Criolo - Nó Na Orelha
11. Fabio Góes - O Destino Vestido De Noiva
12. Passo Torto - Passo Torto
13. Bixiga 70 - Bixiga 70
14. São Paulo Underground - Três Cabeças Loucuras
15. Pipo Pegoraro - Taxi Imã
* EP do Silva; Acústico Sucateiro do Apanhador Só

--> Músicas:
1. Kassin – “Potássio”
2. Bonifrate – “Antena a mirar o coração de Júpiter”
3. Domenico – “Cine Privê”
4. Metá Metá – “Vias de Fato”
5. Romulo Fróes – “O Filho de Deus”
6. Gal Costa – “Autotune Autoerótico”
7. Criolo – “Subirusdoistiozin”
8. Kassin – “Calça de Ginástica”
9. Fabio Goes – “E o Amor que Não Cabe Mais”
10. Silva – “12 de Maio”
11. Wado – “Com a Ponta dos Dedos” (ft. Marcelo Camelo e Mallu)
12. Marcelo Camelo – “Ôô”
13. Karina Buhr – “Cara Palavra”
14. Amabis – “Ao Mar”
15. Nevilton – “Por um Triz”
* “Hortência”, Dorgas (previsão de lançamento em setembro/2012)

Internacional 
--> Discos:
1. Destroyer - Kaputt
2. Sondre Lerche - Sondre Lerche
3. James Blake - James Blake
4. tUnE yArDs – w h o k i l l
5. St. Vincent - Strange Mercy
6. The Caretaker – An empty bliss beyond this World
7. Metronomy - English Riviera
8. Colin Stetson - New History Warfare Vol. 2 Judges 
9. Wilco - The Whole Love
10. PJ Harvey - Let England Shake
11. Frank Ocean - Nostalgia, Ultra.
12. Bill Calahan - Apocalypse
13. CANT - Dreams Come True
14. Radiohead - The King of Limbs
15. Girls – Father, Son, Holy Ghost

--> Músicas:
1. Destroyer – “Kaputt”
2. Sondre Lerche – “Ricochet”
3. tUnE-yArDs – “Powa”
4. Radiohead – “Lotus Flower”
5. St. Vincent – “Cruel”
6. James Blake – “I Never Learnt To Share”
7. Metronomy – “The Look”
8. Wilco – “Art of Almost”
9. Toro Y Moi – “Still Sound”
10. Destroyer – “Poor in Love”
11. The Throne – “Otis”
12. CANT – “She Found a Way Out”
13. PJ Harvey – “The Words That Maketh Murder”
14. The Field – “Is This Power”
15. The Caretaker – “All You Are Going To Want To Do Is Get Back There”
*’Bay of Pigs', Destroyer [2009]

– 

Frederico Coelho (Escritor, professor, DJ, Phunk)

PJ Harvey – Let England Shake: um clássico instantâneo. Em um ano de turbulências e ocupações coletivas, ela sacou o clima tenso e fez um belo comentário poético para os nossos tempos. Além de estar cantando e compondo como nunca.

Nicolas Jaar – Space is only Noise: muito jovem e muito sagaz, o disco é a sequência de uma série de EPs que levam longe algumas bases tradicionais da música eletrônica. Assutadoramente talentoso. Respect total. 

Criolo – Nó na Orelha: tem que entrar porque o impacto foi completo, em todos os públicos. Ascendeu debates, atiçou ressentimentos, lotou shows, virou hype, confirmou o talento de um grupo de instrumentistas de São Paulo e apresentou finalmente ao país o talento do compositor e cantor Criolo. Um disco que será falado por muito tempo.

Kassin – Sonhando Devagar: no seu segundo solo, descolado dessa vez do + 2, Kassin acerta na banda e nos arranjos, explorando o que há de melhor no instrumental carioca da atualidade em sons que nos remetem ao universo psicodélico de João Donato e Marcos Valle.

Rabotnik: petardo de 2008 lançado agora, vale registrar pela pressão e coesão da banda nas execuções dos seus temas instrumentais.

Black Keys – El Camino: rock cru e arrastado, na veia. Mesmo com todo hype da banda, o som é certeiro. Disco difícil de parar de ouvir.

Gal Costa – Recanto: falar o que? Caetano compõe onze canções que refletem sobre o horizonte dos setenta anos, a perda do tempo, a solidão no Brasil de hoje, o escuro do mundo, em um álbum em que a produção devolve à cantora seu registro de voz confortável e instigante, além de um repertório de primeira. Esqueçam as “bases do Kassin” ou as “forçações eletrônicas” (que nada mais são do que a liberdade cristiva de uma outra geração sobre o som da cantora) e ouçam a volta de uma das nossas grandes vozes cantando um grande compositor.

Radiohead – The King of Limbs: outro disco que deve ser “defendido” de alguns fãs da própria banda. Um grande trabalho da grande banda de sua geração, ouvindo os sons de seu tempo e expandindo seu som no risco do novo. Discaço.

Björk – Biophilia: beleza pura. Irretocável, como sempre.

Bixiga 70 – Bixiga 70: excelente banda de São Paulo, com músicos de vários outros trabalhos e estilos. Dub e Afrobeat brasileiros na melhor banda dessa escola que ja ouvi por aqui. Produzido por Victor Rice, outro grande disco que ouvi bastante.

Gui Amabis – Memórias Luso/Africanas: belo trabalho de Amabis, mais um na cena paulista que fez um disco com participações de diversos parceiros. Uma espécie de obra conceitual com diversos sons das matrizes culturais brasileiras. Para ouvir várias vezes.

Romulo Fróes – Um labirinto em cada pé: o disco que detonou o ano da cena paulista. Grandes canções, belos arranjos, ideias refinadas, uma banda afiada e um cavaco de Rodrigo Campos pontuando e dobrando solos de guitarra. Outro que ouvi bastante e merece estar na lista de qualquer um dos melhores do ano.

Passo torto – Passo torto: projeto dos frenéticos Romulo Fróes, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci, um disco diferente do que costumamos ouvir por aí, baseado em arranjos de violões, cavacos, acústico, com uma pegada de samba paulista com certo ar de Gismonti, de Deodato, de Baden, de Edu Lobo... Som de primeiríssima qualidade. Vida longa ao projeto.

Adriana Calcanhoto – Micróbio do Samba: este disco foi pouco falado, não sei se pouco ouvido, mas acho ele importante para a música brasileira nesse ano. Calcanhoto faz de forma extremamente competente a esticada de corda do samba como formato tradicional. A lírica do malandro é revisitada como novos tempos e os arranjos são tensos, sem a alegria desabotoada do sambista, mantendo um clima contido e ao mesmo tempo de lirismo rasgado. Se incluí entre os melhores pelo mergulho e experimentação em um gênero que tem forte resistência para sair de seus limites clássicos.

Roots Manuva – 4erverevolution: Manuva sempre. O mesmo baile da pesada entre dubs, flows cavernosos e batidas hipnóticas para pistas de dança chapadas.

Domenico – Cine Privê: bela estréia solo de Domenico, com suas paisagens sonoras. Um disco que destoa do que se vê pela cena da música brasileira pop. E, fundamentalmente, o disco de um baterista, o que é sempre bom.

BID – Bambas dois: trabalho transnacional despretensioso que une reggae jamaicano e forró com momentos brilhantes quando a fórmula funciona lindamente. Ouvir Dominguinhos solando em um roots reggae cantado como um perfeito xote por um dos filhos de Marley (Ky-Mani) já valeria o disco. Mas há outros bons momentos em um disco que pode deixar rolar inteiro no fim de semana em casa, na merecida lombra ensolarada de todo trabalhador.

Andy Stot – Passed me by: Sinistro. Grave. Perturbador. Sensacional.

The Roots – Undun: a banda de rap que é realmente uma banda vai além em um disco conceitual – a historia de Undun – e incorpora no limite do seu som orgânico baseado na bateria de Questlove, cordas, orquestras e belos momentos cinematográficos. Para quem curte o som da banda da Filadélfia, discaço.

Gil Scott-Heron & Jamie XX – We're New Here: pode um trabalho de remix deixar o disco original melhor do que era? Pode. Esse é o caso no disco de Jamie XX remixando o póstumo de Heron. Pode ouvir inteiro, sem nem pensar em mudar a faixa ou por no shuffle. Vale cada audição.


Lucio Branco (DJ, produtor, Soul, Baby Soul/Makula/Soul de Santa)

Discos (10)
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – The 1st Album
Orchestre Poly-Rythmo – Cotonou Club
Ebo Taylor – Life Stories (coletânea)
Nigeria 70 “Sweet Times”: Afro-Funk, Highlife & Juju from 1970’s Lagos (coletânea)
El Rego – El Rego (coletânea)
Bambara Mystic Soul – The Raw Sound of Burkina Faso 1974-79 (coletânea)
Tinariwen – Tassili
Tom Waits – Bad As Me
Bixiga 70 – Bixiga 70
Lou Reed & Metallica – Lulu

Faixas (20)
“Zon Dede” – El Rego (El Rego [coletânea])
“Dead Flowers” – Anthony Joseph & The Spasm Band (Sticky Soul Fingers – A Rolling Stones Tribute [coletânea])
“Get Lost” – Tom Waits (Bad As Me)
“Sekou Amadou” – Sorry Bamba (Sorry Bamba – Volume One 1970-1979, Kanaga Orchestra Of Mopti, Regional Orchestra Of Mopti [coletânea])
“Walla Ila” – Tinariwen (Tassili)
“Kinringjingbin” – Dr. Victor Olaiya’s International All-Stars (Nigeria 70 “Sweet Times”: Afro-Funk, Highlife & Juju from 1970’s Lagos [coletânea])
“Tribute to Don Drummond” – Rico (Jamaican Funk Experience [coletânea])
“Desengano da vista” – Bixiga 70 (Bixiga 70)
“Ou C’est Lui Ou C’est Moi” – Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou (The 1st Album)
“Boogie On” – Rob (Funky Rob Way [coletânea])
“Hera” – Owiny Sigoma Band (Owiny Sigoma Band)
“Victory” – Ebo Taylor (Life Stories [coletânea])
“You Can Run” – Seun Kuti (From Africa With Fury: Rise)
“Oye Ka Bara Kingan” – Amadou Ballake Et Super Volta (Bambara Mystic Soul – The Raw Sound of Burkina Faso 1974-79 [coletânea])
“Iced Honey” – Lou Reed & Metallica (Lulu)
“No Time For Dreaming” – Charles Bradley (No Time For Dreaming)
“Mendel (I Don’t Know)” – Omar Souleyman (Haflat Gharbia)
“Eltsuhg Ibal Lasiti” – The Daktaris (The World Of Daptone Records [coletânea])
“More Mess On My Thing” – The Poets Of Rythm (The World Of Daptone Records [coletânea])
“Radio Kabul” – Express Brass Band (Contemporary Afrobeat [coletânea])


Gabriel Guerra (músico, Dorgas)

ALBUNS (ranking):
1. Cavalier – A Million Horses
2. Junior Boys – It’s All True
3. Monica Salmaso – Alma Lirica Brasileira
4. Tim Hecker – Ravedeath, 1972
5. St. Vincent - Strange Mercy
6. Kleiton & Kleidir – Par Ou Impar?
7. Battles – Gloss Drop
8. V/A – 10 Years of Secretsundaze
9. Larry Carlton – Larry Carlton Plays The Sound Of Philadelphia
10. James Blake – James Blake

MUSICAS (ordem alfabética):
Anton Zap – “Water”
Arkist – “Rendezvous”
BADBADNOTGOOD – “Rotten Decay”
Benedikt Frey – “Untitled 3”
Bill Callahan – “America!”
Cavalier – “Uzunyayla (Hallucinatory Narcosis)”
Cavalier – “Lipizzan”
Dominant Legs – “Hoop Of Love”
Future Islands – “Before The Bridge”
John Heckle – “What Once Was”
Loungetude46 – “Brasileira”
Kevin McPhee – “Sleep”
Monica Salmaso – “Noite”
Nicholas – “Talking About Love”
No Regular Play – “Serious Heat (Art Department Remix)”
Sobre A Maquina – “Progresso”
St. Vincent – “Surgeon”
Two Armadillos – “Warriors Return” (Original Mix)
Ze Renato – “Água Pra Que?”




Renato Godoy (músico, Chinese Cookie Poets)

1 - Mombu - Mombu
2 - Amon Tobin - ISAM
3 - Domenico - Cine prive
4 - Dorgas - Grangongon
5 - Connan Mockassin - Forever Dolphin Love
6 - Thurston moore - Demolished Thoughts
7 - Tom Waits - Bad As Me 
8 - Kassin - Sonhando devagar
9 - Sobre a Máquina – Areia
10 – Ava Rocha – Diurno


Gabriel Mayall (músico, Do Amor/Los Hermanos)
10 discos
White Denim – D
Domenico Lancelotti – Cine Privê
Bonifrate – Um futuro inteiro
Burzum – Fallen
Karina Buhr – Longe de Onde
Thurston Moore – Demolished Thoughts

20 canções
“Cidadezinha Qualquer”....................Rubinho Jacobina
“Marco Zero”....................Nina Becker
“Benediction”....................Thurston Moore
“Marcha Lúbrica”....................Rubinho Jacobina


Chico Dub (DJ, Produtor, Dancing Cheetah/Novas Frequências)

20 melhores faixas


10 melhores discos

10 - Legowelt – The Teac Life (Independente)
9 - Patten – GLAQJO XAACSSO (No Pain In Pop)
8 - Nicolas Jaar – Space Is Only Noise (Circus Company)
7 - Machinedrum – Room(s) (Planet Mu)
6 - Ducktails – III: Arcade Dynamics (Woodsist)
5 - The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This Word (History Always
Favours The Winners)
4 - Andy Stott – Passed Me By (Modern Love)
3 - Africa Hitech – 93 Million Miles (Warp)
2 - Peaking Lights – 936 (Not Not Fun/ Weird World)
1 - Tim Hecker – Ravedeath, 1972 (Kranky)


Yugo (DJ, Os Ritmos Digitais/PartyBusters)

Top 12 Discos
Beyoncé - 4
SBTRKT - SBTRKT
Katy B - On A Mission
Adele - 21
Toro Y Moi - Underneath The Pine
St. Vincent - Strange Mercy
Crazy P - When We On
The Weeknd - House Of Balloons
New Look - New Look
Nicolas Jaar - Space Is Only Noise
Tiger & Woods - Through The Green
Girls - Father, Son, Holy Ghost

Top 20 Tracks

SBTRKT – “Pharoahs”
Adele – “Rolling In The Deep”
Beyoncé – “Rather Die Young”
Katy B – “Movement”
New Look – “Janet”
St. Vincent – “Cruel”
Tiger & Woods – “Curb My Heart”
Jay-Z & Kanye West – “Niggas In Paris”
James Blake – “The Wilhelm Scream”
SILVA – “Imergir”
Jessica 6 – “Prisoner Of Love”
Chris Brown (ft. Lil Wayne, Busta Rhymes) – “Look At Me Now”
Toro Y Moi – “New Beat”
Holy Ghost! ft. Michael McDonald- “Some Children”
The Weeknd – “Glass Table Girls”
Beni – “It's A Bubble”
Kelly Rowland – “Motivation”
Frank Ocean – “Novacane”
Neon Indian – “Polish Girl”
Todd Terje – “Ragysh”


Zé McGill (músico, DJ, escritor, Makula/SereS)

discos 2011:
Bad as Me – Tom Waits
Tassili – Tinariwen
From Africa with fury: Rise – Seun Kuti
Angles – The Strokes
Cotonou Club – Orchestre Poly-Rythmo
Nó na orelha – Criolo
Africa for Africa – Femi Kuti
In the grace of your love – The Rapture
Hot sauce committee Pt. 2 – Beastie Boys
Veraneio – Eddie

músicas 2011:

“You can run” – Seun Kuti
“Face to the highway” – Tom Waits
“Macchu Picchu” – The Strokes
“Asuf D Alwa” – Tinariwen
“Chicago” – Tom Waits
“Ne te fache pas” - Orchestre Poly-Rythmo
“Bogotá” – Criolo
“How deep is your love” – The Rapture
“Taken for a fool” – The Strokes
“Tenho que seguir” – Momo
“Neguinho” – Gal Costa
“Nobody beg you” – Femi Kuti
“Tema de Malaika” – Bixiga 70
“Veraneio” – Eddie
“Goodbye Hooray” – Red Hot Chili Peppers
“Let England shake” – PJ Harvey
“Who am I” – Gang of four
“Make some noise” – Beastie Boys
“Federal Funding” – Cake
“Lonely boy” – The Black Keys


Diego Albuquerque (biólogo, blog Hominis Canidae)


10 discos

São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras
Lupe de Lupe - Recreio
Sobre a Máquina – Areia
Constantina – Haveno
Passo Torto – Passo Torto
ruído/mm - Introdução à cortina do sótão
Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França - Metá Metá
Satanique Samba Trio - Bad Trip Simulator #1
Ekundayo - Ekundayo
MarginalS - Disco sem nome

E 20 musicas, mas nao existe uma ordem de preferencia...

01. ruido/mm – “Valsa dos Desertores”
02. Cícero – “Tempo de Pipa”
03. Hierofante Púrpura – “Rosa Frígida”
04. Kassin – “Calça de Ginástica”
05. My Midi Valentine – “Hammer”
06. Test – “Ele Morreu Sem Saber o Porque”
07. Team.Radio – “French Doll”
08. Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França – “Vias de Fato”
09. Sin Ayuda – “Wednesday, Thursday Lie”
10. Karina Buhr – “Não Me Ame Tanto”
11. Romulo Froes – “Muro”
12. Constantina – “Azul marinho”
13. Sobre a Maquina – “Barca”
14. Jair Naves – “Um passo por vez”
15. Criolo – “Não existe amor em SP”
16. Bixiga 70 – “Luz Vermelha”
17. Marcelo Camelo – “Acostumar”
18. Domenico – “Cine Privê”
19. SILVA – “Cansei”
20. Vanguart – “Se Tiver Que Ser Na Bala, Vai”


Léo Monteiro (músico, Duplexx)

01) Thurston Moore - "Demolished Thoughts" (Matador) - Músicas: "Circulations", "Space".
02) Peaking Lights - "936" (Not Fun Records) - Músicas: "Amazing and Wonderful", "All the Sun that Shines".
03) Gal Costa - "Recanto" (Universal) - Músicas: "Madre Deus", "Tudo Dói".
04) Enablers "Blow Realms and Stalled Explosions" (Lancashire and Somerset) - Músicas: "Patton", "Cliff".
05) V.A. - "Sonig Boxset Thing" (Sonig) - Artistas e Músicas: Nathan Michel - "A to B", Uské Orchestra - "Pal Pel". (essa caixa é maravilhosa!!!!!!!!)
06) Tune Yards - "Whokill" (4aD) - Músicas: "Bizness", "Killa".
07) Rabotnik - "Rabotnik" (Bolacha Discos) - Músicas: "Submarino", "Dínamo".
08) Maruosa - "Extreme!!!!!" (Renda) - Músicas: "Monsters High!!!", "ACA".
09) Dirty Beaches - "Badlands" (Zoo Music) - Músicas: "Speedway King", "Horses".
10) Ela Orleans - "Neo Pi-R" (Clandestine Records) - Músicas: "Walkingman", "Apparatus".

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Lista Geral (Bernardo Oliveira, Thiago Miazzo e Antonio Marcos)

1.
Radiohead – The King Of Limbs

2.
Julianna Barwick – The Magic Place
Kode9 and the Spaceape – Black Sun
Panda Bear – Tomboy
Pete Swanson – Man with potential
Ricardo Villalobos & Max Loderbauer – Re: ECM
The Caretaker – An Empty Bliss Beyond this World
Andy Stott – Passed me By

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Melhores de 2011, por Antonio Marcos Pereira

Eu, que tantas vezes malhei as listas de dez mais que lia, acusando seus autores de irremediáveis pecados de grotesca omissão e rematada incompetência na hora de ajuizar o que importa no presente, e tantas vezes refiz as listas alheias em mesa de bar, apresentando argumentos de toda ordem para me justificar, eu, que tudo isso já fiz, agora provo de meu próprio veneno, pois posso dizer com conhecimento de causa que dá um trabalho do cão fazer isso. 

Seu editor lhe pede uma lista de melhores discos e melhores faixas, você pensa que é barbada, você ouviu disco pacas lançados esse ano, vários formidáveis: sua única preocupação é que a lista deve fazer algum sentido, deve dizer algo que seja mais que a coleção de itens, deve expor um lugar de observação. Mas isso não é fácil de fazer e, em particular, não é possível evitar o deslize, o esquecimento, a omissão. Borges disse com propriedade que em qualquer antologia o que se nota antes de mais nada é que falta nelas – e ele também observou que a organização de bibliotecas é um exercício modesto da arte da crítica. Assim, me escorando em Borges, avisando de saída que a omissão é esperada, apresento esses meus dez mais do ano aqui com a consciência tranquila, sabendo que todos são discos que achei o bicho, todos me interessaram, me perturbaram, me fizeram desejar ouvir mais. E o lucro a posteriori para o crítico foi que, depois de feita a lista, de mil tentativas e ajustes, tira esse e põe aquele, ao chegar ao resultado final vejo que não foi o que eu achava que seria – e, justamente por isso, saiu melhor que a encomenda.

10 Discos

Dirty Beaches, Badlands

O melhor disco que David Lynch poderia fazer, e que põe no bolso ao mesmo tempo Julee Cruise, Chris Isaak e as próprias tentativas manqué de Lynch como “músico” (sobre as quais comento mais adiante). Disco retro sem nostalgia, é Elvis, punk, e noise e mais uma pimenta cabulosa que nem sei identificar: o bicho, o china mandou bem pacas. Provavelmente o disco que mais ouvi no ano. 

The Caretaker, An Empty Bliss Beyond this World

Meu favorito desse moniker do Leyland Kirby, vintage pra calar quem se diz vintage: é um episódio de Boardwalk Empire com o uso de estupefacientes de efeito moderado porém duradouro. Formidável, faz parecer que os discos anteriores são ensaios pro ajuste perfeito de propriedades desse aqui. Show de bola.

Pete Swanson, Man with potential

Resenhei, e não há mais a dizer, salvo talvez reiterar que Swanson chuta bundas.

Grouper, Alien Observer

Fiquei na dúvida entre esse e o da Barwick, que coloco no mesmo balaio. Mas, no final, Liz Harris levou a melhor: mais sinistro, menos new-agey. Logo, pra mim, melhor. Música de assombração pra quem gosta de um clima Família Addams 2.0, mas tem medo de ouvir Merzbow de noite.

The Black Keys, El Camino

Ouvi esse disco duas vezes e já estava cantando junto: quando eu vou me queixar de uma coisa dessas? Quem falou mal esperava o quê? Influências de Ligeti? Uso de afinações microtonais? A praia é essa, e o disco cumpre o que promete. Será, provavelmente, logo esquecido, e é bom que seja assim, pois não se pode lembrar de tudo. Mas não vejo a hora de ir no show e cantar junto com Tio Auerbach e mais uns cinco mil eufóricos o refrão de “Lonely Boy”

Nicolas Jaar, Space is only noise

Filho” de Ricardo Villalobos, Jaar faz jus à dinastia, honra a dinastia mostrando a semelhança de família mas também inventando o babado dele. Que não funciona pra dançar pouco me importa: boa parte do que o Villalobos faz também não funciona, a não ser que os aditivos químicos sejam muito caprichados mesmo (mas com os devidos aditivos há quem dance até ouvindo Ivete Sangalo). O disco me dá a impressão simultânea de que já ouvi tudo antes, mas há uma aditivada geral produzida com muita tranquilidade, sem qualquer sofreguidão ou desejo de provar que faz xixi mais longe. Isso poderia ser trivial, mas esse sacana tem 21 anos? Putzgrila. Vida longa e próspera pra esse filadaputa.

Andy Stott, Passed me By

Sinistro, podraço, perturbador: em um ano sem Burial (salvo essas palhinhas que rolaram aí), foi uma dádiva. Gostei um pouco mais desse que do We stay together, mas essa comparação é irrelevante e frau: os dois são excelentes, ouça os dois.

Shabazz Palaces, Black Up

Onde se prova que na cultura também pode funcionar como na natureza, a la Lavoisier: que do monte de esterco dos Digable Planets isso possa ter surgido mais de dez anos depois é, realmente, um negócio que dá esperança. “Recollections of the wrath” é um bom exemplo, pois tem um negócio ali que é Digable Planets – mas, por essas coisas mágicas e inexplicáveis que a gente resume falando de “talento” e “arte”, é também muito mais. Show de bola.

Panda Bear, Tomboy

OOPS! HE DID IT AGAIN! 

Omar S, It can be done but only I can do it

Que esse disco não tenha tido o menor ibope é prova de que, desgraçadamente, confinaram o techno a um nicho e esse nicho foi colonizado por Djs feitos de baba e com forma de smurf. Aqui talvez se apresente uma evidência de que um jeito de fazer música associado inextricavelmente à peculiaridades de Detroit ainda existe, e ainda é fértil e relevante.  


10 Menções Honrosas: 

David Lynch, Crazy Clown Time

Disco horrendo, que mostra que se pode ser muito relevante em um campo da arte e um néscio em outro, e que nos leva a celebrar mais ainda o efeito de Lynch como produtor de cenas cujo magnetismo foi fundamental para pessoas de minha geração – e que resultou em pérolas como o formidável Badlands, do Dirty Beaches.

The Field, Looping state of mind

É mais do mesmo, mas já não é mais o mesmo – e isso, nesse caso, foi bom. 

Psilosamples, Homem do Rá Sound Tracks

Zé Rolê, discretamente, mas com muita alegria e nenhuma pretensão, fez o único disco brasileiro que ouvi também com alegria, e sem nenhuma justificativa a não ser que a música é bacana. Good vibes, low profile, show de bola.


Radiohead, The King of Limbs

Eu tinha esquecido que esse disco era desse ano, e fui lembrado pelas outras listas que estão rolando aí e que já li. Disco frau, mas que teve o efeito positivo de, pelo contraste, mostrar como discos anteriores da banda são o bicho mesmo. Poderia aventar que o disco marca a virada para o perigeu, mas isso só o tempo dirá.

Tim Hecker, Dropped Piano 

Gostei bem mais desse que do Ravedeath 1972 – a razão é misteriosa pra mim também, mas talvez algo se esclareça se pensarmos que o disco anterior de Hecker que mais ouvi é o low profile e intimista Radio Amor.

Julianna Barwick, The Magic Place

O que me leva a gostar desse disco é exatamente o mesmo que me leva a cansar dele: é Enya, com alguma respeitabilidade adicionada. Isso não é trivial, o disco é bom pra se ouvir enquanto se faz outra coisa – ou seja, é esquecível, e isso às vezes é tudo o que se quer.

Kate Bush, 50 words for snow

Tia Kate, ainda em plena forma: faixas longuíssimas, mas porque assim deve ser; uso comedido de recursos, porque assim deve ser dessa vez; voz justíssima, porque assim deve ser. A insuportável Joanna Newson teria algo a aprender aqui.

Kanye e Jay-Z, Watch the throne

Me diverti muitíssimo com esse disco: fazer o que eles fazem com um sample de Nina Simone, por si só já merece aplauso. Mas, além disso, eles fazem bem – e devem ter se divertido fazendo. O ponto é polêmico, mas julgo esse disco melhor que os trabalhos mais recentes de cada um dos autores.   

Ricardo Villalobos & Max Loderbauer, Re: ECM

Não é o caso de dizer o que se disse quando o Madlib teve carta branca no arquivo da Blue Note (algo como “Assim fica fácil”): isso aqui reinventa o catálogo da ECM, não faz a menor concessão a melodias ligeiras ou ao newageismo latente em várias produções de Eicher. É um disco que honra seu ilustre predecessor, Selected Ambient Works, Vol II, de Aphex Twin – e isso não é pouco.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Melhores de 2011, por Bernardo Oliveira

















Venho repetindo este pequeno diálogo que travei com um amigo. Em tom de desabafo, ele se lamentava por não conseguir acompanhar a quantidade de informação por segundo, que sobrepuja até mesmo a personalidade mais dedicada. “Não consigo acompanhar tudo o que acontece hoje”, é o que ele diz, e eu completo: “Que bom! Você é saudável”. É humanamente impossível acompanhar a produção artística contemporânea sem traçar recortes pessoais e intransferíveis, sem escolher dentre um número irremediavelmente limitado de experiências, aquelas que mais impressionaram o gosto e a consciência do ouvinte.

Assim, meu balanço de fim de ano é mais a exposição de algumas ideias e recortes a respeito da produção que emergiu em 2011 do que um recenseamento absoluto. É produto do gosto particular, mas não se esgota nele. Também não anuncio boas novas, nem crises insolúveis: apenas trago à baila algumas características de 2011 que, naturalmente, são produto do grande quiprocó que se transformou a produção, difusão e fruição da arte e, particularmente, da música.

– Sendo assim, 2011 se caracterizou pela abundância. Advindos sobretudo da Europa e dos EUA, uma pá de artistas ignorou o compasso “um-disco-por-ano”. Como exemplo, tomamos o último investimento de Leyland Kirby, o selo History Always Favours the Winners, pelo qual foram lançados os quatro volumes da série Intrigue & Stuff; os dez lançamento de Jim O’Rourke entre colaborações e compilações de faixas antigas; os habitués Merzbow, Dominick Fernow e William Parker, entre outros. Mesmo em um registro menos abundante, mas ainda assim curioso, artistas como Radiohead, FaltyDL, Zomby, lançaram, além dos tradicionais EPs, remixes, singles, lançamentos digitais. No Brasil, além do forró, do brega e do tecnobrega, pioneiros na produtividade insubmissa aos padrões do grande mercado, esta tendência se mostrou abertamente em São Paulo, através de uma turma que se produziu pelo menos meia dúzia de trabalhos relevantes. Me refiro à Romulo Fróes, Marcelo Cabral, Kiko Dinucci, entre outros, através dos discos de Metá Metá, MarginalS, Passo Torto, Criolo e do próprio Romulo Fróes.

Porém, se 2011 reafirmou a tendência de alteração do padrão de produção, difusão e formato que se delineou nos últimos anos, não foi somente por obra das condições técnicas. Parece que as condições técnicas desreprimiram o ímpero criativo, eximindo o artista da obrigação de suprir as necessidades do “público consumidor”, mas isso também se deu pela própria inclinação do autor em produzir para além de uma dinâmica que se consolidou no período de ouro da indústria fonográfica.

2011 se caracterizou pela diversificação da produção, tanto em relação a contextos determinados, como também no que diz respeito às interseções culturais. Observamos a volatilização radical dos gêneros, mesmo quando se trata de reiterar escolhas sonoras datadas. Por exemplo, grandes nomes da música africana acertaram, como Ebo Taylor, enquanto outros erraram feio, como o Manu Dibango de Ballad Emotion. Isto para além do fato de que alguns desses discos poderiam ter saído da década de 70 ou 80 (“retromania”?). Ao mesmo tempo, a releitura poderosa do afrobeat criada por Seun Kuti, até os novos ritmos como o shangaan, o bubu o kuduro, etc, relativzaram o mesmo cenário, criando aberturas imprevistas, como a onda afrobeat que ainda repercute pela Europa e os EUA. No Brasil não foi diferente, com a aparição de outras tinturas instrumentais com o recifense Burro Morto e o surpreendente grupo carioca Sobre a Máquina, e o enfoque glam sobre o tecnobrega empregado pela Banda Uó e a Gang do Eletro.





















Esses exemplos somam-se a outros para demonstrar que os interesses se apresentam de forma descontínua. Das estranhezas cariocas, convém destacar o Dorgas, o já citado Sobre a Máquina, mas também Chinese Cookie Poets, Kassin, Domenico, a consolidação da venue Plano B, na Lapa e do Audio Rebel, como pólos de produção independente e experimental (no qual se destacam o evento Quintavant). Esse panorama demonstra que a diversificação sonora atinge até mesmo locais pouco dado a experimentações, como o Rio…

– Das diversificações externas, isto é, daquelas que nutrem um mesmo contexto com a contribuição de outros ritmos e sonoridades, um disco de “música eletrônica” chamou a atencão: Re:ECM, da dupla Ricardo Villalobos e Max Loderbauer. Propondo algo como “novas contextualizações para os espaços sonoros” criados por artistas do célebre selo de improvisação e experimentação ECM, RE:ECM indica o interesse na exploração de outras possibilidades de releitura. Ao lado de “reworks” e “revoices”, presentes nas remixagens de faixas do Radiohead e do King Midas Sound, entre outros, pudemos observar também PJ Harvey e Burro Morto utilizando samplers na íntegra sobre a estrutura de composição.

– Das diversificações internas, isto é, para além da possibilidade de “releitura” de obras pré-existentes, podemos também contar artistas que buscaram criar releituras dentro dos próprios gêneros, como o reggae/dub extremamente originais elaborados por Duppy Gun Productions (Cameron Stallones e M. Geddes Gengras, no sensacional 12” “Multiply/Earth”), Stefan Betke, mais conhecido como Pole em “Waldgeschichten” 1 e 2, e no delírio analógico rasgado criado por Ekoplekz em Memowrekz. Esta liberdade radical para com os gêneros, bem como a possibilidade de cogitarmos seu esfacelamento como uma espécie de procedimento conceitual, se ampliou consideravelmente em 2011.

– O “rap de quarto” que se consolidou em 2011 através de nomes como Clams Casino, Emicida, OFWGKTA etc., marca uma terceira característica do ano: o deslocamento do contexto de produção, e não me refiro somente em relação à grande indústria. Mesmo se considerarmos os home studios, houve um considerável redução do apetrecho técnico e consequente guinada para os “room studios” – em uma epifania desqualificada, também cogito os “bathroom studios”, onde a voz pode ser gravada com mais qualidade… 

Brincadeiras à parte, vale perguntar pelo impacto de uma produção musical completamente amadora, no sentido de que não faz jus nem às condições antes consideradas mínimas para gravar e mixar, nem às exigências do grande mercado, tanto estéticas quanto logísticas (distribuição) e práticas (produção). Boa parte da relevância de um dos selos mais prolíficos do ano, o Not Not Fun, bem como do trabalho de Hype Williams e Run DMT, é tornar pop e palatável a sonoridade de ferro-velho, abafada, analógica, deteriorada, decorrente tanto da utilização de equipamentos analógicos, como também do emprego de técnicas de gravação que combinam procedimentos rudimentares com alta tecnologia.
















Ressoam nessa questão, o aparecimento das tias da música eletrônica experimental, Ursula Bogner e Daphne Oram, bem como o White Noise, comandado por Delia Derbyshire. De alguma forma, a revalorização desse trabalho pioneiro evoca as condições abertas e experimentais de que gozaram essas artistas durante um período que compreende as décadas de 50 e 80, em contraste com a situação contemporânea, na qual as mais diversas configurações técnicas se tornam possíveis. 

Há um cenário se delineando que manifesta nuances imprevisíveis, mas vale notar que: a) produz-se com qualidade técnica e estética no âmbito amador; b) distribui-se com eficácia no âmbito das redes; c) mas, como afirma Leyland Kirby na revista Wire de Janeiro de 2012, “encontrar um público e se conectar com ele está cada vez mais difícil.” Por outro lado, produzir no âmbito particularíssimo dos quartos ou na independência dos selos, leva à experiências sonoras igualmente imprevistas. Apesar da quantidade massacrante de arquivos comprimidos que fazem parte da nossa vida, nunca se deu tanta bola para a retomada de processos analógicos e outras sonoridades que só agora puderam emergir democraticamente.

E o samba, hein?

– Por fim, se observa a familiariade remota, que se deu de forma bastante acentuada em 2011. Explico: “Consiste no fato de contrairmos familiaridade com manifestações culturais absolutamente distantes das nossas. Evidentemente que não me refiro somente à música feita em 2011, mas a uma forma específica com a qual escutamos a música de todos os tempos e lugares, segundo as técnicas de gravação, reprodução e distribuição disponíveis na praça” (citado daqui). Em outras palavras, a difusão em rede permite a visualização e familiarização com extratos culturais que antes eram apenas identificadas sob a chancela do “outro”. Não que o suposto abismo que separa ocidente e oriente tenha se apagado, mas não me parece irrelevante o fato de que tenha se reduzido consideravelmente. 

Nesse sentido, um caso interessante (e difícil) é o do Mali: como dar conta de um manancial que inclui nomes como o de Sidi Touré, Vieux Farka, Tinariwen, Boubacar Traoré, Bombino e Oumou Sangaré (que fez talvez o maior show do ano, pelo menos no Rio) sem ter um pano de fundo histórico e experiencial consistente? Pois bem, a questão da familiaridade sonora já foi resolvida pelo advento dos selos dedicados à música africana e pelo MP3, e a música do Mali está longe de ser algo alienígena, como era no início da década passada. E no entanto, como bem observou nosso colunista Lucio Branco, ainda ouvimos os gritos mal-educados de fãs da Macy Gray durante o show do sensacional Tinariwen… 

















Dito isto, apresento 20 discos e 40 faixas de 2011, com toda aquela dúvida pertinente de quem deseja permanecer saudável diante do turbilhão. Isso não implica, de forma alguma, em virar as costas para a grande onda, mas surfá-la na medida do possível. E do aprazível… Talvez alguns álbuns e faixas não devessem entrar, como o deslumbrante Recanto, de Gal Costa ou Três Cabeças Loucuras, a guinada espetacular do São Paulo Underground (comparável à do Æthenor), por conta das poucas audições. Mas como resistir diante de momentos tão diferentes de tudo o que se faz hoje em território nacional. Consciente de que pelo menos 50% dessa lista poderia ser substituída por outros títulos tão ou mais representativos, e que o modo "esquecimento saudável" está acionado, adiciono, pelo menos em relação aos álbuns, uma lista complementar – e incluo compilações e relançamentos. 


































20 Discos (os dez primeiros, em ordem)
Eliane Radigue – Transamorem, Transmortem
São Paulo Underground – Três Cabeças Loucuras 
Gal Costa – Recanto 

E mais:
King Midas Sound – Without You, Peaking Lights – 936, Micachu & The Shapes – Chopped & ScrewedPrefuse 73 – The Only She Chapters, Orchestre Poly-Rythmo – Cotonu Club, Colin Stetson – New History Warfare Vol. 2: Judges, Thruston Moore – Demolished Thoughts, Akron/Family – s/t II: The Cosmic Birth and Journey of Shinju TNT, Meredith Monk – Songs Of Ascension, Joe McPhee & Chris Corsano – Under a Double Moon, Kiko Dinucci, Juçara Marçal, Thiago França – Metá Metá, Nicolas Jaar – Space Is Only Noise, Seefeel – Seefeel, DeepChord Hash–Bar Loops, Hecker Speculative Solution, Kate Bush – 50 Words for Snow, Satanique Samba Trio – Bad Trip Simulator #1, Tom Waits – Bad as Me, Sonic Youth – Simon Werner a Disparu, Red Noise - Red Noise, FaltyDL – You Stand Uncertain, Julia Holter – Tragedy, Bombino – Agadez, Conrad Schnitzler & Borngräber & Strüver – Con–Struct, Fire! With Jim O'Rourke – Unreleased?, Shabazz Palaces – Black Up, Burro Morto – Baptista virou máquina, Death Grips – Exmilitary , Grutronic And Evan Parker – Together In Zero Space, 2562 – Fever, Vladislav delay quartet – Vladislav Delay Quartet, Leyland Kirby – Intrigue & Stuff (Vol. 1), Aube – Variable Ambit, Anne–James Chaton – Événements 09, Panda Bear – Tomboy, Andy Stott – We Stay Together, Peter Evans Quintet – Ghosts, Ekundayo, Hype Williams – One Nation, Liturgy – Aesthethica, Daniel Menche & Anla Courtis – Yaguá Ovy, Black Pus – Primordial Pus, Zomby – Dedication, Tinariwen – Tassili, Radiohead – TKOL RMX 1234567, Ekoplekz - Memowrekz, Rene Hell – The Terminal Symphony, Sobre a Máquina – Areia, Reinhold Friedl – Inside Piano, Tyler, The Creator – Goblin, Sun Araw – Ancient Romans, Soema Montenegro – Pasionaria, Africa Hitech – 93 Million Miles, Chris Watson – El Tren Fantasma, Earth – Angels of Darkness, Demons of Light 1, Prurient – Bermuda Drain, Arrington De Dionyso Suara Naga, Demdike Stare – Tryptich, Africa Hitech 93 Million Miles, Akira Sakata & Jim O'Rourke with Chikamorachi – And that's the Story of Jazz..., Nate Young – Stay Asleep, Bellows – Handcut, Cyclo. – Id, Brian Eno – Drums Between The Bells , Caldo de Piaba Volume 3, Charalambides – Exile, Chinese Cookie Poets – Dragonfly Catchers and Yellow Dog EP, Clams Casino Rainforest EP, CoH – IIRON, Fennesz – Seven Stars, Leykand Kirby – Eager to tear apart the stars, Cut Hands – Cut Hands, Gui Borato – III, Omar Souleyman – Haflat Garbia – The Western Concerts, Kassin – Sonhando Devagar, Blu – NoYork!, Four Tet – FabricLive 59.




40 Faixas (sem ordem)

“Far Out” – Pete Swanson (ouça "Misery Beat")
“E.F.M–M in concert” – Satanique Samba Trio (assista)
“Artianat” – Sidi Touré (ouça "Bon Koum")

Uma faixa antiga, mas que só apareceu agora: "Gambari" – Sorry Bamba




























Coletâneas e Relançamentos
Orchestre Poly-Rythmo de Cotonou – The 1st Album
Rob – Funky Rob Way
El Rego – El Rego
Erkin Koray – Meçhul: Singles & Rarites
John Fahey – Your Past Comes Back to Haunt You
Vários – Bangs And Works Vol 2: The Best Of Chicago Footwork.
This Mortal Coil – This Mortal Coil (Box Set)
Beach Boys – The Smile Sessions
Jürgen Müller – Science of the Sea
Nahawa Doumbia – La Grande Cantatrice malienne
This May Be My Last Time Singing: Raw African-American Gospel on 45 RPM 1957-1982
Black Truth Rhythm Band – Ifetayo
Ursula Bogner – Sonne = Blackbox

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Melhores de 2011, por Thiago Miazzo

O ano de 2011 foi bom, musicalmente falando. Pode não ter sido o melhor ano para Amy Winehouse, nem para Osama Bin Laden. A mina mais porra-louca do pop morreu, e o terrorista mais procurado do mundo, também. Já era, "Washington Buries Al-Qaeda Leader at Sea", como declarou Dominick Fernow. Não foi um ano bom para as pessoas que viviam nos arredores da usina de Fukushima, nem para o Euro. O pessoal de Grécia, EUA, Espanha e Itália - além dos camaradas que tomaram as ruas na Primavera Árabe - tiveram pouco tempo pra relaxar e ouvir música.  Pensando neles (e em todos que, por qualquer motivo, não tiveram tempo pra acompanhar a música ao longo do ano) tentei fazer essa lista da forma mais abrangente possível. Inclui o Post-punk intenso da molecada do Iceage, o Power Electronics truculento do Alberich e alguns daqueles discos que "não podem ficar de fora", como é o caso do Bon Iver e do The King of Limbs (com o qual muita gente só teve contato através das paródias do clipe de "Lotus Flower"). É uma lista como qualquer outra, vulnerável a uma série de críticas e apontamentos. São vinte discos e quarenta músicas. Muita gente ficou de fora, mas se você quer correr atrás do tempo perdido e garimpar os lançamentos de 2011, pode começar por aqui:

01) Prurient - Bermuda Drain
02) Julia Holter - Tragedy
03) Panda Bear - Tomboy 
04) Tim Hecker - Ravedeath 1972
05) Jesu - Ascension
06) Earth - Angels of Darkness, Demons of Light I
07) James Ferraro - Far Side Virtual
08) Iceage - The New Brigade
09) Sobre a Máquina - Areia
10) Bon Iver - Bon Iver



11) Radiohead - King of Limbs
12) Six Organs of Admittance - Asleep On The Floodplainx'
13) How to Dress Well - Just Once
14) Thurston Moore - Demolished Throughts
15) Kode9 & The Spaceape - Black Sun
16) The Raveonettes – Raven in the Grave
17) Raspberry Bulbs - Nature Tries Again
18) Cold Cave - Cherish the Light Years
19) Alberich - Psychology of Love
20) Julianna Barwick - The Magic Place

E as quarenta melhores músicas do ano, em ordem alfabética:

01) Alberich - Psychology of Love
02) Ajapai - Detected
03) Battles - Futura
04) Björk - Crystalline
05) Bon Iver - Holoscene
06) Boy Friend - The False Cross
07) Burial - Stolen Dog
08) Deep Magic - Minds in Lucidity I
09) Dorgas - Loxhanxha
10) Dylan Ettinger - Endeavor
11) Earth - Descendent to the Zenith
12) Earth - Old Black
13) How to Dress Well - Suicide Dream 2
14) Iceage - Broken Bone
15) Inverness - Winter Lemonade
16) James Ferraro - Earth Minutes
17) Jennifer Lo-fi - Troffea
18) Jesu - Black Lies
19) Jesu - King of Kings
20) Julia Holter -  Celebration
21) Julia Holter - Goddess Eyes

22) Julianna Barwick - White Flag
23) Kode9 & The Spaceape - Black Sun (Partial Eclipse Mix)
24) M.Geddes Gengras - Splashing Into Mine
25) Panda Bear - Tomboy
26) Panda Bear – Alsatian Darn
27) Prurient - Palm Tree Corpse
28) Prurient - Let's Make a Slave
29) Radiohead - Lotus Flower (Jacques Greene RMX)
30) Raspberry Bulbs - What it is Between us
31) SBTRKT - Hold On
32) Six Organs of Admittance - Light of the Light
33) Sobre a Máquina - Lingua Negra
34) Sobre a Máquina - Barca
35) Tim Hecker - Analog Paralysis, 1978
36) Tim Hecker - No Drums
37) Thurston Moore - Day Dreamy
38) Vatican Shadow -  USS Carl Vinson Night Tide Funeral
39) Wind in Willows - Elephant Dreams
40) Xander Harris - Tanned Skin Glass

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Minicrônicas Discográficas #4

Esta minicrônica, a de número quatro, marca a chegada ao Matéria de dois novos colaboradores. Além dos textos de Lucio Branco (que nos brindou recentemente com o GENIAL Sorry Bamba) e de Bernardo Oliveira, esse que vos fala, o Matéria contará com os textos de Thiago Miazzo e Antonio Marcos Pereira. Miazzo é de São Paulo, estreou escrevendo sobre Just Once, o ep “acústico” do How To Dress Well, e esta semana se dedicou a um dos discos mais celebrados do ano: Bermuda Drain, do Prurient. Antonio Marcos é de Salvador, nos trouxe Man With Potential, o último rebento de Pete Swanson (ex-Yellow Swans) e uma crônica memorialista sobre Sapphie, do guitarrista britânico Richard Youngs. A julgar pela seleção de álbuns e artistas, os novos autores chegam para somar, de modo que a proposta do Matéria continua de pé: música e adjacências (siga-nos no Twitter, @MateriaBlog).


Três notas:

- Em dezembro, o Rio de Janeiro foi palco do Festival Novas Frequências, produzido pelo Chico Dub e que aconteceu no Oi Futuro Ipanema, com apoio da FACT Magazine PT. O festival trouxe à cidade um time peso pesado de música eletrônica híbrida, com enfoque em novos gêneros e tendência sonoras. Por conta do festival, tivemos a oportunidade de escutar os graves de Andy Stott ao vivo, as viagens canábicas de Sun Araw, o cubismo digital de Murcof e o surpreendente Com Truise mostrando que é mais do que um trocadilho histriônico. No lugar de Mark Mcguire, cancelado por questões de visto, duas escalações nacionais: o brasiliense Pazes e o mineiro Psilosamples. Com o envolvimento da FACT, tiver a oportunidade de entrevistar o Cameron Stallones (Sun Araw) e o Fernando Corona (Murcof), e ainda tem uma do Andy Stott na rebarba, vamos ver se rola…

- Ontem chegaram notícias sobre o racha na Abrafin, durante o congresso Fora do Eixo. Treze festivais, entre eles o Goiânia Noise Festival e o Abril Pro Rock, alegam “que não se sentem à vontade com o atual estado de coisas”, sugerindo relações problemáticas entre a entidade e o circuito/rede de trabalho Fora do Eixo. Gustavo Mini, do blog Conector, compilou parte dos artigos de uma polêmica que já se arrasta há alguns meses, mas possui raízes profundas na cultura que orienta a produção musical brasileira. Na sequência, a entrevista do China, a resposta do Bruno Kayapy, do Macaco Bong, e a polêmica Elma/Mombojó/Studio SP. Evito me posicionar nesse debate, porque percebo que ambos erram e acertam, mas um detalhe deve ser observado: a salutar, ainda que por vezes destemperada, inclinação para o debate. Que isso aconteça em âmbito nacional, com a contribuição decisiva de capitais como Cuiabá já me parece digno de nota. 

- Para finalizar, textos sobre Without You, coletâneas de reworks e revoices do King Midas Sound, o último de Gui Boratto, dois dos discos mais importantes do ano, os geniais patten: GLAQJO XAACSSO e Pinch & Shackleton, a volta de Tom Waits, com Bad As Me e um álbum que já foi minicrônica, mas sobre o qual escrevi mais longamente: Omar Souleyman, Haflat Gharbia – The Western Concert. De resto, escutando o maravilhoso disco do São Paulo Underground, do Satanique Samba Trio, Anomia, mais um EP surpreendente do trio carioca Sobre A Máquina, a Kate Bush renovada de 50 words for Snow, o disco alienígena de Julia Holter, Teebs, Dimlite, Meredith Monk, a última loucura de Weasel Walter, Electric Fruit, o volume 2 da série Bangs & Works, dedicado ao juke, a impressionante (tripla!) coletânea This May Be My Last Time Singing, parceria do selo americano Tompkins Square com o colecionador Mike McGonigal, o bandcamp do trabalho solo de Nick Zammuto (do The Books), mais novidades surpreendentes do Pole, Oval novo (ainda não escutei direito, mas parece mais uma loucura), Gal reinventando-se (deixando-se reinventar) por Caetano, Kassin, Moreno Veloso, Rabotnik… 

Semana que vem, hora de botar a listomania reprimida para fora: melhores do ano, lista dos críticos e convidados. Aguardem!


Rrose x Bob Ostertag – Motormouth Variations (2011; Sandwell District, Reino Unido)
“Pense Seurat e pense impressionista”: o pontilhismo é uma declaração de guerra à firmeza apolínea do traço, da linha reta. Filho dileto do impressionismo, constitui o tipo de técnica que favorece à poética por transfiguração, como Joyce, como Stravinsky… Este álbum, que combina o talento do anônimo Rrose com o veterano Bob Ostertag, parece se orientar rigorosamente pelos preceitos pontilhistas: os timbres esfarelados que Ostertag destilou em seu Motormouth, de 2011, servem como peça num quebra-cabeça rítmico dos mais intrigantes deste ano. São oito faixas, duas assinadas por Ostertag, as restantes por Rrose. O pontilhismo de Ostertag é mais radical, seco, enquanto o de Rrose é mais abstrato, e se desenvolve através de formas menos rígidas. Vale notar que Rrose lançou mais dois 12” pelo selo Sandwell District, “Merchant Of Salt” e “Primary Evidence”, infelizmente menos interessantes que Motormouth Variations.

Liturgy – Aesthethica (2011; Thrill Jockey, EUA)
Liturgy é a banda do guitarrista e compositor Hunter Hunt Hendrix, com seus chapas Tyler Dusenbury (baixo), Greg Fox (bateria) e Bernard Gann (guitarra). Segundo Hendrix, o Liturgy é uma experiência de “black metal transcendental”, expressão cujo significado ele tentou explicar no paper acadêmico homônimo (“Black Metal é o metal no modo Sacrifício”), e que em virtude de sua concepção arrojada, vem atraindo críticas negativas por parte dos especialistas do gênero. A julgar por este belo álbum que é Aesthethica, trata-se da implantação de timbres e harmonias que não são propriamente do universo do gênero, como exemplifica o Bathory e o Immortal. Para além dos ritmos velozes e texturas concentradas, o Liturgy confere uma forma mais solta às composições, incluindo viradas de bateria, convenções minimalistas, harmonias oitavadas e timbragem diferenciada – na caixa de “Generation”, por exemplo, ou na introdução intrigante de “High Gold” (aqui em ótima versão ao vivo, pois não encontrei a versão do disco com a introdução).

Erkin Koray - Meçhul: Singles & Rarities (2011; Sublime Frequencies, EUA [Turquia])
Desde a década de 50, quando fazia imitações de Fats Dominos e Elvis Presley, Erkin Koray é o grande nome do rock turco. Líder não de uma geração, mas de pelo menos quatro gerações do rock turco, Koray teve influência sobre outros expoentes relevantes da música turca, como o Mogollar e Selda Bagcan (sampleada à beça). Sua vasta contribuição compreende o psych rock dos anos 60, o rock progressivo dos anos 70, cobrindo praticamente 50 anos de atividade. Este ano, após o lançamento em 2006 de uma coletânea pelo selo World Psychedelia Ltd., a Sublime Frequencies editou uma saborisíssima compilação de singles e raridades. Faixas como “Cümbür Cemaat” e “Had Hadi Ordan” trazem melodias engenhosas e cativantes, que demonstram o talento de Koray em mesclar o cancioneiro com trejeitos ocidentais aos arabescos melódicos da música turca.
Ps.: consta que além de músico, compositor, etc., Koray criou a baglama.

S.T.A.B. Electronics – The Non Alliant I (2011; Unsound Recordings, Reino Unido)
Que a música Industrial é um gênero que trabalha o lado mais escroto do ser humano, todo mundo sabe, mas poucos são capazes de lapidar a perversão do homem e transformá-la em arte, destacando-se dos demais artistas. Junte o fascínio pela morte, presente nos trabalhos do Atrax Morgue, com a perversão sexual do Whitehouse e você vai ter uma idéia do que esperar de The Non Alliant I, um disco de Power Electronics que te dá medo de sair de casa, que te faz conferir cinco vezes se a porta está trancada antes de dormir, um disco que te deixa com receio de conhecer novas pessoas.

Vatican Shadow – Washington Buries Al-Qaeda Leader at Sea  (2011; Hospital Productions, EUA)
O ano de 2011 foi produtivo para Dominick Fernow – só com o Vatican Shadow foram lançados seis álbuns, entre eles o excelente Washington Buries Al-Qaeda Leader at Sea. O álbum – dividido em três fitas cassettes - tem cara de documentário e apresenta um Minimal Synth com pitadas de Dark Ambient, apostando em sintetizadores sombrios e passagens hipnóticas, acompanhados por uma bateria minimal.

Cold Body Radiation – Deer Twilight (2011; Dusktone, Holanda)
Pouco se sabe a respeito do misterioso M., único membro do Cold Body Radiation, exceto o fato de ser originário da Holanda e fazer música com uma forte inspiração nos últimos trabalhos do Alcest, Les Discrets e toda a cena francesa envolvida com o chamado Post-Black Metal. Deer Twilight, o segundo álbum do CBR, mistura a atmosfera flutuante típica do Post-Rock, a parede de ruídos e os vocais borrados do Shoegaze, flertando sutilmente com o Black Metal ao longo das sete faixas do disco.

Bernardo Oliveira e Thiago Miazzo