quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

(ensaio) A Ofensiva Cultural: Compartilhamento de Arquivos, Audiofilia e Capitalismo (parte II)






















I. Crise do Formato

Na primeira parte busquei identificar a modulação do valor da mercadoria, particularmente no que diz respeito ao compartilhamento online de arquivos digitais, que se apresenta sob o seguinte paradoxo: a mercadoria “tornou-se maleável em relação à cultura local, em desacordo com regras impostas pela linguagem universalizante do mercado.” A fricção entre universalidade abstrata do deusmercado (com a moral em baixa…) e o turbilhão libidinal proveniente das diversas culturas, implodiu a própria noção de mercadoria. EMI? Som Livre? Contrato? “Advanced”? Charts, jabáculês e demais dispositivos de manipulação? E o que restou disso tudo, se não a própria música

Otimismo? Talvez. No entanto, não importa que você seja um otimista ou um pessimista, um cínico ou um militante, pois com relação a esse assunto estamos implicados em um futuro que coabita o presente e se debate com o passado, para o qual se buscam respostas que nunca virão de forma ampla e definitiva. A respeito de um tema que anda em voga, a autoria, percebe-se que um campo de batalha marcado por questões insolúveis e disputas vacilantes, alvejado  diariamente de forma implacável por situações com um alto grau de ineditismo. Neste contexto, alguns veem um prejuízo irreversível para as noções de obra e autoria, com o agravante de que, para o autor propriamente dito (o compositor, o escritor, o roteirista), a vida nunca foi fácil...

Não obstante, a defesa da autoria aderiu ao liberalismo como mais uma tentativa de naturalização do capitalismo, devidamente acompanhada pela força policial e o serviço secreto. Porém, dificilmente se pode ignorar as objeções pertinentes de Bernardo Carvalho, um dos poucos a fazer um defesa da autoria de forma a extrair consequências plausíveis de um futuro que já está aqui, mas que não equacionamos devidamente. E, em sentido oposto, Hermano Vianna contribuiu para desconstruir a universalidade aparente do direito autoral, descentralizando o sentido vigente da expressão, citando um ensaio do antropólogo Alexandre Nodari, que expõe a relação conflituosa entre a posse e propriedade.

Nesse debate, porém, a discussão acerca da relação ambígua do autor com o valor-mercadoria ficou de fora. Flexibilizando ou conservando os direitos autorais, ainda assim conserva-se, de ambos os lados, uma forma de se escutar a música gravada. Assim, convém sublinhar a aderência imediata do autor à mercadoria universal, sob a forma de um modelo específico de apresentação: o formato, não o contrato. Independente da internet e do "contrato", o autor pereceria no sistema montado pelas grandes empresas na medida em que a petrificação do formato já lhe prejudicaria – antes da internet, compactos, singles e outros formatos menores, adequados para autores menos conhecidos, já eram coisa rara no Brasil... Portanto, não é a ausência de leis ou o seu descumprimento que prejudica os autores e a indústria, muito menos a flexibilização das relações comerciais, mas a cumplicidade cínica entre autores, indústria e uma noção comum do que vem a ser a “forma-mercadoria”. É o apego oportunista à mercadoria clássica, fundada sobre a noção de propriedade e apresentação material, o elemento cambiante que joga todo esse universo em uma crise sem precedentes.


II. Autoria/Audiofilias

Em contraponto a esta guerra, um grupo de jornalistas e pensadores insistem em defender o legado histórico e político do capitalismo anglo-saxão sob a perspectiva de elementos que são mais produto de um desenvolvimento ulterior do que propriamente o centro do universo. Me refiro à cultura audiófila anglo-saxã, que submete a vivacidade desses conflitos à prerrogativas técnicas e culturais, sedimentadas sobre o termo "audiofilia". Por isso gostaria de me ater a um exemplo determinado, no sentido de demonstrar ao leitor de que forma a maleabilidade dos formatos, da estética, das trocas culturais, políticas e econômicas, pode criar as condições para que eclodam soluções singulares, de maneira a repercutir no modo como as pessoas avaliam sua relação com a arte e seus respectivos suportes.

No caso da música, essa questão ressoa de forma particular, mais do que no cinema e nas demais artes. Não só porque os sons estranhos, ocasionados por dificuldades técnicas de amplificação e reprodução, podem ser incorporadas à concepção musical, como no caso do Konono N.1 – na medida em que o timbre estridente das kalimbas do grupo congolês é resultado da experiência "mal-sucedida" de amplificação. Mas porque indica que o contexo audiófilo comporta toda sorte de experiências, respaldando-se nas respectivas formas de se escutar e reproduzir a música.

Muitas vezes os processos de registro e reprodução são marcados pelo desequilíbrio, reproduzindo sonoridades sujas, fora de rotação, degeneradas, mixadas em tecnologias arcaicas, marcadas pela vulnerabilidade material do suporte diante dos maus tratos, entre outras características. Mas, ao mesmo tempo, encerram valores específicos que indicam outros modos de escuta. De tal forma que vale perguntar: diante da desconfiguração do formato na interação entre cultura digital e cultura online (pois elas não são correspondentes!), é possível cogitar a audiofilia como um campo de disputa? O que pode a apropriação criativa da tecnologia intermediária contra a grande indústria que sustenta a cultura audiófila ocidental, responsável pela aceleração do processo de produção tecnológica?




III. Encontrar uma arma...


No final do ano passado, correu à boca pequena o primeiro volume de uma compilação chamada Music from Saharan Cellphones Vol. 1, editado através do blog Sahelsounds. O americano Christopher Kirkley, responsável pelo blog, viajou para a Mauritânia e coletou MP3 extraídos de cartões de memória de telefones celulares, vendidos e trocados em feiras populares. Nessas localidades, na falta de computadores pessoais e internet banda larga, os celulares servem como suporte para armazenamento de dados e troca de informação digital. Através de conexões bluetooth, a troca de MP3 é intensa, o que incrementa a divulgação de um farto e precioso material musical oriundo da África Ocidental, como também nos traz mais um contra-exemplo de como a necessidade – a “escassez”, como escreveu Mark Richardson em artigo para a Pitchfork – pode fundar formas pregnantes de relação com a mercadoria. Este contexto propicia o amplo e irrestrito intercâmbio sonoro, fundado sobre outras bases de negociação política, estética e comercial.

Estética porque essa música, anteriormente escondida em condições extremas em lojas e espaços de armazenamento “presencial”, retornou à circulação com um raio de alcance bem maior, que extrapola o contexto africano. Os resultados da confluência de ritmos e estilos ainda serão medidos conforme a música influenciar o resto do mundo, tal como ocorreu com artistas americanos e ingleses, como Vampire Weekend, Franz Ferdinand ou Damon Albarn. Music from Saharan Cellphones Vol. 2 trouxe mais uma seleção de faixas da Mauritânia, a leste de Shinqit, mas não se sabia ao certo se havia uma procedência musical determinada, falha agravada pela ausência de informação nos pentes de memória, mas suprida parcialmente por trocas de informação pelo Facebook entre Kirkley e amigos.




O evento aparente traz consigo um conjunto de situações peculiares, comparado ao tipo de relação que o mundo ocidental desenvolvido mantém com a mercadoria. Alguns elementos que constituem o fenômeno são:
a) troca de arquivos sonoros através de conexão bluetooth, armazenados em cartões de memória para celulares;
b) conteúdo diversificado, na maioria contendo música da África Ocidental – afrobeat, salsa de Dakar, Highlife, Funana do Cabo Verde, Mbalax do Senegal, blues tamasheq, sintetizadores africanos como na excelente “Autotune”, do Níger, etc.
c) Faixas sem nome; disposição das faixas desvinculadas de álbuns e demais formatos consolidados nos grandes mercados;
d) resolução sonora relativa, embora muitas vezes haja uma variação considerável no resultado da digitalização de fitas cassetes e elepês.

Christopher Kirkley


Em cada um dos cartões de memória trocado nas feiras da Mauritânia e do Mali, podemos acessar uma avalanche sonora, mas Kirkley fez uma seleção particular para os dois volumes de Music from Saharan Cellphones. Para cada uma das faixas que integram a coletânea, pode-se supor uma imensa e longeva cadeia produtiva que perfaz este processo:

a) Os músicos e técnicos que realizaram a gravação;
b) Os profissionais que fizeram a arte gráfica, prensagem e distribuição;
c) A venda, a loja, os funcionários;
d) A sucessão de percalços que levam os álbuns a percorrerem um verdadeiro calvário até parar em alguma coleção europeia ou em um cartão de memória, tal como o balão vermelho de Hou Hsiao-hsien (para uma história dos objetos…) – ou, ainda, na coleção empoeirada de Ahmed Vall, dono da loja Saphire D'Or.
e) Convém destacar o trabalho de Kirkley, que viaja para os países da África Ocidental compilando músicas e registrando práticas artísticas e comerciais.
f) O Megaupload demais serviços de armazenamento de dados, que possibilitam a disseminação dos arquivos.
g) E os serviços de internet pelo mundo inteiro – o que em certa medida decide pela economia de downloads em cada região do planeta.


















Pois, seguindo essas pistas, evitando situá-las à contraluz do valor-mercadoria, chegamos a uma cultura audiófila diferente em relação a que é preconizada pela perspectiva anglo-saxã. Não somente uma outra perspectiva “musical” (melômana), mas uma outra perspectiva “audiófila”. Nem uma perspectiva evolutiva, nem uma perspectiva exótica, mas a própria perspectiva, imanente e insubstituível. O prazer, a fruição, a religiosidade, o mercado, a miséria, e uma tradição musical antiga e multifacetada, somadas às condições políticas, técno-tecnológicas e históricas, resultam em uma fragmentação radical da perspectiva audiófila, compartilhada por uma variedade de segmentos.

Esta fragmentação contrasta com a submissão ao valor-mercadoria convencional, prescrita pelos ideólogos do desenvolvimento, a respeito dos quais os povos africanos devem ter as piores opiniões. Se por um lado, o colonialismo ressoa na cultura africana sob a forma do ressentimento e do prejuízo psicológico ("O mais grave é que a miséria material se transformou em miséria afetiva e psicológica", como afirma Célestin Monga), não se pode negar a forma extremamente criativa com que a África Ocidental vem criando suas "linhas de fuga".

Com este argumento, não pretendo desvalorizar a reflexão a respeito das perdas de frequências, fidelidade, etc, ocasionadas pelo hábito de se escutar música no computador. Mas existem ganhos que não são passíveis de uma avaliação puramente técnica. Por este motivo a audiofilia não deve ser abordada como um conceito absoluto, meramente técnico ou histórico, uma tendência geek que valeria por si só. Antes, convém apreciá-la como uma noção antropológica, que comporta muitas possibilidades de relação com a escuta. É uma tendência da escuta – das muitas escutas possíveis – ambientar-se no seu universo sonoro específico e contingente, tanto no que diz respeito às demandas estéticas, quanto nas relações possíveis com o formato, o suporte, a resolução e o tipo de aparelho que opera a execução das faixas. A virtude aqui consiste em encontrar um conjunto de soluções culturais e ambientar-se nele de forma positiva, a despeito da precariedade técnica e da miséria. 

A "burguesia assalariada" não compreendeu que no capitalismo contemporâneo, o “lucro virou renda”, ocasionando a sobrecodificação desproporcional da mercadoria. E, no entanto, há uma contrapartida evidente em relação a esse tipo de apropriação, mesmo que ainda emerja sob o signo de uma nova hegemonia da comunicação, capitaneada pelo Google e o Facebook. A despeito de toda a polêmica a respeito da política de privacidade duvidosa dessas empresas, há que se reconhecer que ao menos promovem uma dinâmica cognitiva mais estimulante e abertas às linhas de fuga. Traçar uma linha de fuga corresponde a “produzir algo real, criar vida, encontrar uma arma”, e não se perder no imaginário... São exemplos de como a própria ausência de uma regulação mais rígida pode gerar situações alternativas (e factíveis) às que são hoje oferecidas pela grande indústria.

Bernardo Oliveira

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #12


                                                                            O Assunto é CinemaO Assunto é Cinema            CinemaO Assunto é CinemaO                           é CinemaO Assunto é CinemaO Assunto é CinemaO Assunto é                             O Assunto é Cinema






DJ Rashad - Shoot me from Ashes57 on Vimeo.







Pixelord - Keramika from A Sky on Vimeo.



Machinedrum – Nastyfuckk EP (2012; LuckyMe, Reino Unido [EUA])

De alguma forma, pressinto que estamos perdendo a compostura com Travis Stewart. Mesmo as aspirações comerciais embutidas no seu EP anterior, SXLND EP, se destacaram pela extrema elegância de suas batidas, pela forma arrojada e peculiar com a qual ele cria as repetições tão comuns hoje em dia. Agora surgiu repentinamente o EP Nastyfuckk, uma espécie de retorno glorioso ao flerte com o juke, que marcou Room(s). A faixa título já valeria o trabalho, mas devo destacar também as duas releituras do EP: a faixa produzida por Badawi, “No Schnitzel”, e o remix dub feito pelo produtor russo Pixelord (Gultskra Artikler) para “What U Wanted 2 Feel”. Especializado em glitches e demais sonoridades abrasivas, Pixelord revira a forma pop da faixa, transformando-a em um dubstep de primeira hora.


Raime – Hennail (2012; Blackest Ever Black, Reino Unido)

Formado pela dupla inglesa Joe Andrews e Tom Halstead, o Raime lançou dois EPs em 2010, e este Hennail no final de 2011. Só agora, o EP recebe uma edição digital pelo novo selo, o Blackest Ever Black, o que de alguma forma comprime excessivamente os graves e texturas repletas de percussões, que caracterizam seu trabalho. Ambientadas em uma seara obscura, as duas faixas de Hennail se equilibram entre a darkwave e o dubtechno, mas apontando para uma estética árida, com ênfase nos elementos percussivos – o que faz lembrar um pouco o trabalho de Shackleton. De qualquer forma, trata-se de um EP em andamento lento, mas bastante vigoroso, que se escuta com prazer.


Shed – The Praetorian / RQ-170 (2012; Fifty Weapons, Reino Unido [Alemanha])

Com toda sinceridade, não seu como encaixar o trabalho do alemão René Pawlowitz nos rótulos disponíveis na praça. Mas, claro, sempre dá – mesmo que o próprio artista pague o prejuízo. Seu álbum de 2010, The Traveller, por exemplo: podemos atribuir-lhe um conteúdo techno? Ou vale abrigá-lo sob o imenso guarda-chuva do “experimental”? Mesmo que essa última denominação crie uma série de problemas, não vejo outra forma de classificar seu trabalho. O remix de “Little By Little” do Radiohead já apontava para ritmos e timbres idiossincráticos, mas a dobradinha “The Praetorian/RQ-170” confirma a tendência em articular uma estrutura techno convencional com sons especificamente delicados e texturas econômicas. A faixa-título, exemplar nesse sentido, traz uma batida lenta cercada pela percussão granulada, que aos poucos é tomada por um sintetizador meio escondido... Tudo condensado em uma mixagem cujos volumes parecem delicadamente controlados, resultando num trabalho admiravelmente bem construído.



Carlos Giffoni – Evidence (2012; Software Records, EUA [Venezuela])

O leitor que conhece o trabalho do venezuelano Carlos Giffoni, afeito a colaborações experimentais como Jim O’Rourke, Merzbow, entre outros, talvez tome um susto diante dos primeiros minutos de Evidence. Teria ele se convertido à progressiva mediocrização que alguns artistas estão promovendo dos timbres e particularidades da eletrônica inglesa pós-dubstep e da reabilitação dos sintetizadores? A tentação é grande, dada à absorção popular de artistas como James Blake, SBTRKT, The Weeknd e a nova sensação, Skrillex. Felizmente não é nada disso, pois Evidence traz, em sua faixa-título, uma parceria exitosa entre Giffoni e Laurel Halo, centrada basicamente sobre a utilização de sintetizadores analógicos e manipulação de tapes. Antes de confirmar uma guinada comercial, o piano cancioneiro e a voz monótona indicam o caráter idiossincrático da empreitada, na medida em que será inevitavelmente misturada às texturas expressivas dos sintetizadores. Uma experiência muito particular dentro da obra de Giffoni, que merece a atenção daqueles que admiram seu trabalho.


Georgia Anne Muldrow & Madlib – Seeds (2012; SomeOthaShip Connect, EUA)

Georgia Anne Muldrow é uma das artistas americanas mais impressionantes surgidas na última década. Ela não tem as múltiplas habilidades de Janelle Monáe, nem a graça cativante de Azealia Banks, nem o poder de fogo de Beyoncé e M.I.A. Ela é oriunda do contexto Stones Throw, o que implica em uma sonoridade mais experimental. Seu primeiro álbum, Olesi (Fragments of an Earth), contém uma série de experiências harmônicas e melódicas que misturam vigorosamente a sofisticação melódica do jazz e do soul com o balanço do funk e do hip hop, produzindo algumas peças geniais, como “Nowadayz”, “Wrong Way” e “Blackman”. Neste 7”, Muldrow se reúne com seu mestre Madlib para criar uma das faixas mais saborosas do ano. “Seeds” conta com uma profusão de samplers, com destaque para a melodia de piano em escala descendente e sua voz, que continua lindíssima.

Ouça “Seeds”.

Bernardo Oliveira

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Mater Suspiria Vision - Il Labirinto del Sesso EP  (2012; Phantasma Disques, Reino Unido)
Dias antes do lançamento oficial do aguardado Inverted Triangle III, o Mater Suspiria Vision botou pra jogo dois EPs digitais, contendo faixas que estarão inclusas no álbum. Il Labirinto Del Sesso EP, lançado em 26 de janeiro, traz cinco faixas, sendo três delas remixes da faixa-título. Synths e drum machines estão presentes em Il Labirinto Del Sesso, mas a música eletrônica não é o ponto principal do MSV: o cinema, em especial o gênero Giallo, é a principal influência do coletivo. Essa paixão pelo art-cinema dos anos 70 fica ainda mais nítida quando fazemos uma pesquisa mais aprofundada e nos deparamos com uma série de video-álbuns produzidos pelos próprios integrantes. Assista ao vídeo oficial de Il Labirinto Del Sesso, um petisco enquanto o Inverted Triangle III não dá as caras. 

Earth: Angels of Darkness, Demons of Light II  (2012; Southern Lord, EUA)
Gravado na mesma sessão do Angels of Darkness I, a segunda parte da obra registra o Earth mais voltado para o improviso, sem tantos cuidados com a elaboração de arranjos e ideias pré-concebidas, como foi com o primeiro volume. Não espere encontrar um riffzão como o de "Descent to the Zenith" – nas palavras do próprio Dylan Carlson, Angels of Darkness II consiste unicamente em "tocar e gravar". Tal liberdade criativa resultou na viajada "A Multiplicity of Doors" (uma música de 18 minutos com cara de jam-session) e no ritmo quase funk da "The Rakehell".


Rainforest Spiritual Enslavement – Fallen Leaves Camouflaged Behind Tropical Flowers  (2011; Hospital Productions, EUA)
Camadas sujas de sintetizador derretem em um ambiente hipnótico em uma gravação de jeitão lo-fi. Eu não faço a menor ideia de quem é a pessoa por trás do RSE, mais um projeto anônimo do catálogo da Hospital Records. O que eu sei é que, em 2011, lançou duas tapes, entre elas a Fallen Leaves Camouflaged Behind Tropical Flowers. As duas músicas da fitinha alternam entre momentos de tensão gerados por sintetizadores persistentes e passagens psicodélicas com beats fantasmas, mistura que deu ao RSE o rótulo de death ambient. Lançamento limitado a 59 cópias.
Ouça um trecho de "Skull Covered in Moss".

Thiago Miazzo

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #11

Eli Keszler manipulando a instalação "Cold Pin" 

Notas pré-carnavalescas


- Shows: Além da pá de shows que foram anunciados durante o mês de janeiro e fevereiro de 2012, podemos contar com o Masada de John Zorn, confirmado no Rio (Espaço Tom Jobim, 16/03, sexta-feira, dá uma olhada no Feicebuqui). Também confirmaram uma rapaziada nova (Bob Dylan, Crosby, Still & Nash, Joe Coker e Duran Duran), além de Japandroids, The Ting Tings, Morrisey, Arctic Monkeys, entre muitos outros – e lembrando novamente que ainda tem Sónar, Lolapalooza, etc.

- Hoje, eu e Marcelinho da Lua fazemos a penúltima participação na Rádio Oficial do Verão, com mais um Mundo da Lua. Desta vez, muito rock'n'soul com Rolling Stones, Curtis Mayfield e demais pepitas. Às 21h no dial.

- Para finalizar, três críticas das últimas semanas para três lançamentos bastante significativos, que foram para a FACT Magazine PT. São elas:  Ital, Hive MindKyoka, iSH DJ Rashad & DJ Spinn/RP Boo, Meet Tshetsha Boys.

Voltamos na sexta que vem. Bom carnaval a todos.




Boy Friend – Egyptian Wrinkle (2012; Hell, Yes! Records, EUA)
O Boy Friend foi um dos lances mais legais que surgiram em 2011, lançando uma série de EPs ao longo do ano. Formado por Christa Palazzolo (do projeto Sleep Over) e Sarah Brown, lançou no começo de fevereiro o debut LP Egyptian Wrinkle. Quem já conhece a proposta sonora do duo, já sabe o que esperar: doses massivas de sintetizadores, bateria minimal e slide-guitars de aspecto flutuante. Resumindo, chill-wave nebuloso com o pé no dream pop, acompanhado por cuidadosos arranjos vocais. Ouça "Bad Dreams" e a faixa -título no Bandcamp das meninas. 


Modern Witch – Unknown Domain (2011; Laser Palace Records, EUA)
Apostando em drum machines vintage e sintetizadores gelados, o som do Modern Witch oscila entre o darkwave e o electropunk, influências comuns na nova cena drag/witch house. Minimal ao extremo, algumas músicas dão a impressão de ser mais extensas do que realmente são. Essa estranha alteração na percepção do tempo provocada pela Modern Witch faz com que, em certos momentos, a gente se desligue por completo da música – dúvidas como "quanto tempo faz que esse som tá rolando?" são comuns ao longo do álbum. Não se trata de um minimalismo chato, e sim uma hipnótica repetição capaz de provocar confusão mental. O clima claustrofóbico de Unknown Domain ganha maior intensidade graças à gravação de aspecto lo-fi. Lançamento em formato CD-R, limitado a 100 cópias. Ouça as músicas "Not the Only One", "Dead Boyz" e "A Forest".


Cold Cave – Cherish the Light Years (2011; Matador, EUA)
Cold Cave é o nome do projeto liderado por Wesley Eisold que, desde 2005, bebe da fonte da música eletrônica produzida nos anos 80, passando por diversas referências que vão do noise ao darkwave. Cherish the Light Years, lançado em 2011, é um disco dançante, bem diferente do clima introspectivo de obras como "The Trees Grew Emotions and Died" e "Painted Nails". O ponto central do album é o goth-pop, lembrando os trabalhos do Depeche Mode, Siouxsie and the Banshees e New Order em faixas como "Catacomb" e "Confetti". Em outros momentos, remete ao experimentalismo pop do Cure da fase Kiss me, Kiss me, Kiss me, como se pode notar no uso inusitado de trompetes na faixa "Alchemy Around You".

Thiago Miazzo



Eli Keszler – Cold Pin (2011; Pan, Alemanha [EUA])
Com Steve Pyne, Eli Keszler responde pelo projeto Red Horse, resenhado em conjunto com o Cut Hands de William Bennett aqui no Matéria. Desta vez, Keszler apresenta Cold Pin, composição/instalação inusitada, criada pelo artista e multiinstrumentista americano. A maquinária consiste em 14 cordas de piano esticadas em alturas diferentes (de 1 a 7 metros), amarradas em uma parede curva de 15 x 40, ligadas a micro-controladores, pick-ups e cabos RCA. A harpa anômala é executada conforme o artista aciona os controladores. Não satisfeito, Keszler convidou alguns amigos para acompanhar a parafernália: Geoff Mullen (guitarra), Ashley Paul (clarinete e guitarra), Greg Kelley (trumpete), Reuben Son (“bassoon”) e Benjamin Nelson (violoncelo) improvisam minuciosas texturas, com os dois pés no pontilhismo abstrato, à semelhança do Limescale de Derek Bailey. Abaixo, o leitor pode conferir a empreitada:


eli keszler : cold pin from eli keszler on Vimeo.


Rene Hell – The Terminal Symphony (2011; Type, EUA)
Talvez este álbum não seja adequado para as Minicrônicas, pois lá se vai quase um ano desde seu lançamento. Trata-se do segundo álbum do prolífico músico americano Jeff Witscher sob o pseudônimo Rene Hell. Manipulando seus sintetizadores, sob uma série de pseudônimo e projetos, Witscher se tornou um dos representantes da tendência neo-synth que invadiu a seara da música eletrônica na última década. The Terminal Symphony, cuja capa traz uma imagem sugestiva, apresenta dez composições que primam pela variação contínua, desde a releitura da Komische music (“Baroque Ensemble Coda” e “Lighthouse Marvel” sobretudo), até tentativas de elaborar composições para cordas (na faixa de encerramento, “Adagio For String Portrait”), tudo soa saudavelmente pretensioso nesta “sinfonia” de um homem só.



Andrew Pekler – Sentimental Favourites (2011; Dekorder, Alemanha)
Outro trabalho caracterizado por uma minuciosa arqueologia sonora e reconstituição criativa. Desta vez, o alemão Andrew Pekler (que integrou o Groupshow, trio que incluía Hanno Leichtmann e Jan Jelinek), retoma elementos da música dos anos 60 e 70, na intenção de recriar o “esforço do easy listening que marcou o final dos anos 60, início dos anos 70, que fundiu o sofisticado pathos de composição de Burt Bacharach, Jimmy Webb ou The Carpenters com uma atenção pós-psicodélica aos detalhes sonoros.” Sacou? Não? Pois saiba que o resultado varia entre hipóteses ainda mais vagas: algo como se o misterioso produtor inglês Patten deixasse as batidas de lado para concentrar-se exclusivamente sobre as texturas harmônicas, ou se o ambient primordial de Brian Eno assumisse de verdade a influência dos sintetizadores alemães. 


Bernardo Oliveira

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

(crítica – disco) Eliane Radigue – Transamorem–Transmortem (2011 [1973]; Important, EUA [França])




























1.
Parece consensual a percepção de que algumas obras e artistas demandam um tempo determinado para germinar na consciência da época, em virtude de uma série de fatores, técnicos, estéticos, filosóficos. Richard Wagner costumava lidar com o fracasso, tantas foram as vezes que, em busca de “obra de arte total”, esbarrava em dificuldades técnicas ou financeiras. Há também os entraves contextuais, em relação aos quais algumas obras descansam por anos, décadas e até séculos para encontrar seus interlocutores — ainda que nos dias de hoje, diante do volume monumental de produção, não se possa prever como se darão esses reajustes no futuro. Assim, vale sublinhar uma modalidade de reajuste técnico e estético que emergiu nos últimos anos a reboque da fragmentação da reprodução e do formato: a transliteração técnica do conceito de uma obra em outros modos de exposição, influindo decisivamente sobre o seu significado. 

2.
Desde 2004, o músico e pesquisador Emmanuel Holterbach organiza os arquivos da compositora francesa Eliane Radigue. Há mais de 40 anos, Radigue experimenta na seara da música eletrônica e eletroacústica, aprendiz e parceira de Pierre Schaeffer e Pierre Henry, e é uma dos grandes nomes a emergir do interesse arqueológico que reabilitou os pioneiros da produção musical eletro-eletrônica, como Catherine Christer Hennix, Daphne Oram, entre outros. O reconhecimento de seu pioneirismo lhe rendeu uma ampla retrospectiva em Londres, no ano passado. 

Concebida em 1973, “Transamorem-Transmortem” foi apresentada uma única vez por Eliane Radigue em Nova Iorque, no ano de 1974. Acompanhando as instruções referentes à execução da peça, composta no sintetizador ARP 2500, uma digressão acerca da abertura de um “espaço interior”.

“Esta fita monofônica deve ser executada em 4 alto-falantes dispostos nos quatro cantos de uma sala vazia. Tapete no chão. A impressão de diferentes pontos de origem do som é produzido pela localização das várias zonas de frequências, e pelos deslocamentos produzidos por movimentos simples da cabeça dentro do espaço acústico da sala. Um baixo ponto de luz no teto, no centro da sala, produzido pela iluminação indireta. Vários projetores de luz branca de intensidade muito fraca cujos raios, vindo de ângulos diferentes, se encontram em um único ponto.” (Eliane Radigue, 1973)














3.
Trata-se, portanto, de uma peça que explora a espacialidade em dois níveis. Primeiro, a espacialidade objetiva através da qual o som se propaga e cuja modulação propicia formas variadas de emissão das frequências. Mas também o “espaço interior”, que diz respeito não somente às alterações decorrentes dos deslocamentos do indivíduo no ambiente, como também aos efeitos subjetivos desses mesmos deslocamentos. A partir do release editado pelo site da Important Records, podemos perguntar: como escutar de forma remota uma obra composta para a apreciação in loco, constrangendo o ouvinte a seguir os limites impostos pelo formato-disco? Em outras palavras, como escutar uma obra com alto teor sinestésico como “Transamorem-Transmortem”, que implica em uma série de cuidados e prescrições, mas que se apresenta agora comprimida no formato-CD? Quando, em suma, uma obra elaborada para manifestar-se através de uma relevo sonoro acidentado e minuciosamente programado, além de portar uma grande abertura para o acaso, é transposta para o território limitado e aplainado do CD?

4. 
A transliteração – ou, em outros termos, a “licença poética” – que permite levar os pressupostos de “Transamorem-Transmortem” para o CD, diz respeito mais ao seu aspecto conceitual do que ao substrato propriamente sonoro. Não se pode acessar a mesma experiência através do CD, de modo que só podemos apreendê-la como uma outra experiência, que ainda assim, permanece batizada como “Transamorem–Transmortem”. E como se pode resumi-la, mesmo sem acessar suas prescrições primordiais? A julgar pela audição da peça, realizada com fone de ouvidos, arriscaria a hipótese de que a espacialidade subjetiva da obra “original” é ampliada pela compressão do formato-CD. Por mais que se perca o jogo com as frequências, produto do deslocamento do ouvinte no espaço, sublinha-se o caráter harmônico e letárgico da composição. Em uma hora e sete minutos de duração, Radigue explora a continuidade subjetiva mais do que o espaço objetivo, ainda que com pequenos movimentos de corpo – ou com o fone – sobressaiam as frequências mais agudas – experimente, por exemplo, levantar uma das abas do fone ou comprimi-lo contra o ouvido.

Vale ressaltar que apenas com o advento do CD, que comporta longas durações de forma contínua, a obra de Eliane Radigue pôde ser devidamente registrada e editada para lançamento. Esta possibilidade nos revela o talento de uma artista que sabe manipular o conceito e a técnica no mesmo passo, além de revelar um talento poético e abstrato para talhar as sonoridades com talento de escultora. Mas, acima de tudo, “Transamorem–Transmortem” é uma experiência atordoante, testemunha do talento inominável de uma artista que chegou a hesitar em utilizar a palavra “música” para definir seu trabalho.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #10





Boas notícias

Confirmado Acoustic Masada no Rio de Janeiro, dia 16 de março no Espaço Tom Jobim (mais informações em breve)/Sónar soma mais 15 nomes esta semana (Squarepusher entre eles)/Promessa de novos álbuns de Neil Young Crazy Horse, Missy Elliot produzida por Timbaland, mixtape do OFWGKTA e uma tonelada de lançamentos nacionais/Sobre a Máquina, Dorgas, Chinese Cookie Poets, Beach Combers e outras bandas cariocas legais também tem lançamentos previstos/Estão dizendo por aí que tUnE-YarDs também se apresenta no Rio, será?/Caetano Veloso libera música (grande notícia, não?)/E por falar em Caetano, tem vídeo do Chico Buarque na rede.../Carnaval tá chegando: "Há uns que vão pra mata, pra cachoeira ou pro mar, mas eu que sou do samba, vou pro terreiro sambar...". E tenho dito.





The Raveonettes – Raven in the Grave (2011; Vice Records, Dinamarca)
Pegando carona no bonde das duplas, liderado pelo White Stripes e o The Kills, o The Raveonettes foi formado na Dinamarca no ano de 2001. Ao longo de onze anos de carreira, o som do duo passou por transformações. Sem qualquer sinal do garage-rock e do rock'n’roll dos seus primeiros discos, Raven in the Grave (quinto álbum do grupo) soa como uma pastilha shoegaze dissolvida em um copo d'água. As influências de bandas como Adorable, Slowdive e Jesus & Mary Chain são visíveis ao longo do disco. As guitarras barulhentas de "Recharge & Revolt" abrem o disco, mas é em faixas com uma atmosfera dream-pop como "Forget That you're Young" ou no goth-rock de "Ignite" que o disco atinge o seu ápice. Sou uma pessoa resistente a mudanças, mas discos como Raven in the Grave me botam um sorriso na cara e me fazem pensar que nem todas as mudanças são pra pior.


Tearist – Living: 2009 - Present (2011; Thin Wrist Recordings, EUA)
O Tearist iniciou suas atividades em 2009 e é formado por Yasmine Kittles e William Stangeland Menchaca. O primeiro full-lenght do duo, Living: 2009 - Present é uma compilação de gravações ao vivo registradas entre 2009 e 2011. Quem já viu alguma apresentação da banda (se você nunca viu, veja agora), já sabe o que pode esperar: performances intensas, um moog obeso fazendo o baixo da música, outro sintetizador berrando no saw, vocais carregados de delay, peças de metal, instrumentos ready-made e outras referências à música industrial. O som da banda se enquadra nos subgêneros drag/witch-house, mas as influências de synth-pop e demais estilos originários dos anos oitenta aparecem na música do Tearist de uma forma bem menos diluída do que nas dos demais artistas ligados à cena witch. Destaques: "Headless" e "Lo v".



Raspberry Bulbs - Nature Tries Again (2011; Hospital Productions, EUA)
Dentre todas as bandas que adotam a proposta do primitive black metal, o RB é a minha favorita. Formada pelo multi-instrumentista "He Who Crushes Teeth" (que também toca bateria no Bone Awl), conta com apenas um álbum lançado, além de um punhado de demos. "Face in the Cave" e "What is it Between us?" remetem aos primeiros discos do Venom, enquanto "Will I Ever Speak the Truth?" lembra a banda punk Urinals. Essa é a fórmula utilizada ao longo de Nature Tries Again: estrutura musical simples, distorção feiosa de guitarra, influências metal/punk, gravação de aspecto caseiro e, mesmo assim, é um disco que cativa logo na primeira audição.

Thiago Miazzo


Kyoka – iSH (2012; Raster-Noton, Alemanha [Japão])
Como parte da série Ununpentum, ligado ao selo Unun, a Raster-Noton pôs no mercado um mini-álbum (ou EP, já nem sei mais…) com cinco faixas produzidas pela artista japonesa Kyoka. Desenvolvendo vertiginosas colagens pop, a lembrar algo do drill’n’bass da década de 90, Kyoka produziu sua série batizada como ufunfunfufu, em 3 volumes lançados entre 2008 e 2010. Produzido pelo parceiro Frank Bretschneider, iSH traz uma concepção mais elegante e econômica, sem abrir mão dos timbres de ferro velho, glitches e demais traquitanas que caracterizam seu trabalho.

Ouça o Soundcloud da artista.



Rogelio Sosa – Raudales (2011; Sub Rosa, Bélgica [México])
A capa de Raudales já diz muito a respeito de seu conteúdo: uma corredeira de vísceras desaba sobre o precipício, simbolizando o substrato das experiência sonoras do mexicano Rogelio Sosa. De fato, seu trabalho se vale de um material passível de comparação com aquilo que se considera "os restos", elementos que não perseveram no discurso musical convencional e que são conhecidos por nomes pouco recomendáveis como “barulho”, “ruído”, e até mesmo por uma categoria experimental, o noise. Compreendendo trabalhos que vão de 2003 a 2009, Raudales traz desde experiências com softwares, eletroacústica, conversão de sons orgânicos em sons sintéticos, e vice versa. Tudo isso na intenção de levar ao ouvinte algumas centelhas sonoras do mal estar gerado pela capa.




Leonard Cohen – Old Ideas (2012; Columbia, EUA)
Eis um artista que não tem nenhuma necesidade de se misturar aos artistas mais jovens, como fizeram Bowie, Cash e Caetano. Com “misturar” eu quero dizer: dar à sua própria música uma roupagem que de alguma forma se relacione com a música de artistas mais recentes, como meio de atualização, mas também por concepção. Mesmo considerando que o Tindersticks nem sequer existiria se não houvesse álbuns como Songs of Love And Hate ou Death of a Ladies’ Man, dificilmente se poderá objetar o fato de que, pelo menos desta vez, o pupilo fez um trabalho mais desafiador do que o de seu preceptor. Também parece difícil negar a sensatez clarividente do título: sim, estamos diante de “velhas idéias”. Ouçam “Show me the place” e “Darkness” e saboreiem a voz cada vez mais grave e soturna, as canções simples com letras profundas e a roupagem deliciosamente antiquada. Embora as Minicrônicas sejam direcionadas a uma análise ligeira de bons álbuns recentes, não se espante o leitor se, até o fim do ano, esse disco ganhar uma resenha própria.


Bernardo Oliveira

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

(crítica – disco) Studio One Rockers (2001; Soul Jazz Records; Reino Unid)



O selo jamaicano Studio One é um dos mais tradicionais de early reggae e ska. Fundado por Clement "Coxsone" Dodd em 1954, o Studio One lançou os artistas mais legais que rolavam na ilha: Bob Marley and The Wailers, Toots and The Maytals, Prince Buster, só pra citar alguns exemplos. Essa compilação realizada por Stuart Baker, dono da Soul Jazz Records reúne o melhor que a Studio One produziu entre as décadas de 60 e 70. "Real Rock", a faixa que abre a compilação, é um early reggae de primeira qualidade, com uma cozinha pesada como é esperado do gênero. Se destacando entre os demais instrumentos, o orgão hammond e as três notas tocadas por Jackie Mittoo foram relembradas por uma série de artistas ao longo dos anos.

"Feel Like Jumpin'" é o meu novo som pra ouvir de manhã no ônibus, a caminho do trabalho. Sei que se eu ouvir alguma coisa triste, desisto e volto pra cama, por isso, escolhi algo animado. Com uma bela melodia vocal e um uhu-huuu pegajoso, esse rocksteady faz das primeiras horas do meu dia uma experiência mais fácil de suportar. Os falsetes de Horace Andy parecem derreter em "Skylarking", dando um aspecto narcótico ao roots reggae que a banda toca. Definitivamente, um estilo de vocal pouco comum ao gênero, mas que se mostra uma bela surpresa. Em "Village Soul", o vibrafone tocado pelo habilidoso Lennie Hibbert é o instrumento principal ao longo dessa música que é uma das mais relaxantes do disco.

Clement "Coxsone" Dodd

O dancehall não foi esquecido nessa compilação, alguns clássicos do estilo podem ser encontrados: "Crabwalking", interpretada por Prince Jazzbo (na verdade, uma dj-version da já citada "Skylarking"), "Eye of Danger" por Michigan & Smiley e a grudenta "Bobby Babylon" na voz de Freddie McGregor. O groove do funk/soul também se faz presente em "Greedy G", do Brentfort All-Stars e o jazz dá o ar da graça  nos belíssimos arranjos da guitarra tocada por Ernest Ranglin em "Surfin". O hi-bop ska de "Phoenix City", do lendário Skatalites anima o album e o hammond de Jackie Mittoo reaparece em "Hot Milk".

"You Don't Love me (No No No)" - apresentada em sua versão original, tem um baixo retão, guitarra seca e uma interpretação inspirada de Dawn Penn, bem melhor do que a regravação dos anos 90. Do rocksteady ao jazz, Studio One Rockers relembra alguns clássicos dos quais a maioria das compilações se esquecem.

Thiago Miazzo

Ouça a seguir as músicas:

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Minicrônicas Discográficas #9


A originalidade dos indisciplinados
“Como quase tudo isso são defeitos, devemos convir que somos um caso feio, tamanhas seriam as carências de que padecemos. Seria assim? Temo muito que não. Muito pior para nós teria sido, talvez, e Sérgio o reconhece, o contrário de nossos defeitos, tais como, o servilismo, a humildade, a rigidez, o espírito de ordem, o sentido de dever, o gosto pela rotina, a gravidade, a sisudez. Elas bem poderiam nos ser ainda mais nefastas porque nos teriam tirado a criatividade do aventureiro, a adaptabilidade de quem não é rígido mas flexível, a vitalidade de quem enfrenta, ousado, azares e fortunas, a originalidade dos indisciplinados." [Darcy Ribeiro, O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil, p. 51]




No final do ano passado, saiu pelo selo alemão Shitkatapult um dos discos mais inusitados dos últimos tempos – ao lado da sinfonia de 1-Bit de Tristan Perich. Trata-se de OvalDNA, último rebento da imaginação metódica e delirante de Markus Popp, que assina seus trabalhos como Oval e Microstoria. O pacote, que inclui CD, DVD e livreto assinado por David Toop, faz valer uma antiga promessa de Popp, que consiste em disponibilizar arquivos de seus trabalhos para livre manipulação do ouvinte. Questões estéticas de lado – tratadas em texto para a FACT Magazine – vale notar que em tempos de capitalismo obscurantista, a atitude de Popp transcende a generosidade: é política mesmo.




Hoje no programa Mundo da Lua, eu e o DJ Marcelinho da Lua apresentaremos um programa inteiramente dedicado a alguns selos que fizeram e ainda fazem a história da música. Stax/Volt, Fania, Stones Throw, Joe Gibbs Music, Copacabana e Equipe compreendem mais de 50 anos de música original, revelando artistas como Otis Redding, Isaac Hayes, Jonnhy Pacheco, Celia Cruz, J Dilla, Madlib, Elza Soares, Oswaldo Nunes, Noriel Vilela, Mighty Diamond, Black Uhuru, entre outros. A partir das 21h na Rádio Verão, 102.9 no seu dial, também na internet.



Earth – Angels of Darkness, Demons of Light I (2011; Southern Lord, EUA)
Com mais de vinte anos de existência, o Earth (liderado por Dylan Carlson) nasceu em Seattle em meio à explosão do grunge. Em 1991, enquanto o mundo inteiro estava ocupado demais ouvindo o Nevermind ou o Black Album – ou ainda os chatíssimos Use Your Illusion 1 & 2 –, o Earth lançou seu primeiro álbum, um EP chamado Extra-Capsular Extraction. Contando com a participação de Kurt Cobain nos vocais, o Earth apresentou ao mundo um doom metal minimalista nunca antes explorado que, muitos anos depois, ganharia o nome de drone-doom e seria citado como influência por bandas do quilate de Sunn O))), Boris e Melvins. Ao longo de sua carreira, a banda deixou de lado as influências de Doom Metal, abrindo espaço para novos instrumentos e referências. Angels of Darkness, Demons of Light I, lançado em 2011 pela Southern Lord Records, traz fortes influências de post-rock e country/folk, somado ao até então inédito uso do violoncelo na música da banda. A estrutura minimalista permanece, mas de maneira alguma isso deve ser encarado como algo negativo, os riffs principais e suas variações não tornam a audição enjoativa. Ouça as excelentes "Old Black" e "Descent to the Zenith" e tire suas próprias conclusões. A saber: Angels of Darkness, Demons of Light II tem data de lançamento marcada para o dia 14 desse mês.


SBTRKT – SBTRKT (2011; Young Turks, Reino Unido)
O DJ Aaron Jerome meteu uma máscara africana na cara e resolveu fazer música pop com elementos bass culture, pegando uma carona nessa onda do post-dubstep. Apesar disso, o dubstep é apenas uma das tantas vertentes encontradas nesse disco. Partindo do uk garage e do 2 step, o álbum segue uma louca viagem em que cada música ganha seu próprio jeito, de modo que nenhuma se parece com a outra. Em momentos como "Hold on", o disco faz referências ao R'n'B mais tristonho, sem medo de soar pop. Já "Sanctuary" tem timbres mais sujos e influências de miami bass e old school rave. SBTRKT, lançado em 2011, tem como um de seus pontos mais fortes o baixo, sempre preciso, em alguns momentos grooveado e que não se limita ao woobwoobwoobwoob de algumas músicas do estilo.


Jesu – Ascension (2011; Caldo Verde Recordings, Reino Unido)
Aos 13 anos de idade, Justin Broadrick fundou o Final e, ainda na adolescência, tocou guitarra no primeiro (e histórico) disco do Napalm Death. Anos depois, fundou o Godflesh e, mais uma vez, deixou seu nome marcado definitivamente após o lançamento do influente Streetcleaner em 1989. Pouco tempo depois de o Godflesh anunciar o seu fim, Justin Broadrick criou o Jesu, projeto que desde 2004 tem lançado uma quantidade significativa de albuns, Eps, splits e remixes. Ao longo de sua carreira, a banda manteve o foco no post-metal, enquanto a agressividade dos primeiros albuns deu lugar a um clima introspectivo, flertando com a música eletrônica, o shoegaze e o post-rock. Ascension é o quarto disco de estudio e um dos mais fáceis de digerir. Não tem o aspecto claustrofóbico e hostil de outrora, mas conserva o aspecto triste – uma constante em toda a sua discografia. Só Jesu expulsa a felicidade das pessoas. Destaques: "Black Lies" e "King of Kings".

Thiago Miazzo




Zammuto – Idiom Wind (2012; Make Mine, Reino Unido [EUA])
Com o aparente encerramento das atividades do The Books, Nick Zammuto partiu para uma nova empreitada. Trata-se do quarteto batizado oportunamente como Zammuto, e que debutou este ano com o single Idiom Wind, composto por três faixas: “Idiom Wind”, “F U C-3PO” e “Weird Ceiling”. Logo na faixa-título, a senha: “we can put a name on it, but it’s not the real name”. Com este trabalho, Zammuto sustenta o interesse na dimensão de jogo e no aspecto fragmentário de poesia sonora que marcaram os melhores trabalhos do Books. O tom de aleatoriedade programada se mantém, na maioria das vezes através de estruturas de composição que se valem da apropriação irônica de variadas formas de manifestação musical: canção, sampler de discos inusitados, música sequenciada, música concreta, etc. A faixa mais interessante é a delirante “Weird Ceilling”, cujo formato, embora não fuja à comparação com o Books, indica um caminho mais “musical” em sentido estrito, com sua estrutura de arranjo que se vale de guitarras e percussões. O mesmo se pode dizer do refrão folk-rock de “F U C-3PO”. Sem dúvida, um (re)começo promissor.


Distal – Eel (2012; Seclusiasis, Reino Unido)
Os americanos estão botando a mão na massa quando o assunto é música eletrônica de matriz inglesa, particularmente ligada ao dubstep e suas ramificações. Com o aparecimento do juke/footwork de Chicago, esta apropriação se tornou ainda mais particular, o que para os ouvintes é motivo de comemoração. Ao lado de Machinedrum e FaltyDL, Michael Rathburn, mais conhecido como Distal, vem se destacando como um dos produtores mais originais do ramo. Eel é o tipo de EP que de tão interessante acaba por superar os remixes que o completam – realizados por BD1982, DS1, Thrills e pelo próprio Travis Stewart aka Machinedrum. Valendo-se do peso das percussões e de repetições massivas, o EP conta com três faixas: a batucada tribal em “Eel”, o funky serra elétrica de “Kurgan” e o juke obsessivo “Hut”. Hibridismo radical, timbragens enérgicas e rascantes, fazem de Eel o EP mais instigante deste início de ano.

Ouça algumas faixas antigas assinadas por Distal.


Vários Artistas – Pop Ambient 2012 (2012; Kompakt, Alemanha)
Desde 2001, o alemão Kompakt, situado em Colônia, lança esta compilação de faixas, contemplando os lançamentos ambient ligados ao selo. Capitaneado por três nomes importantes da cena eletrônica germânica dos últimos 20 anos (Wolfgang Voigt, Michael Mayer e Jürgen Paape), o Kompakt tem moral para tanto: é um dos prepostos fundamentais quando o assunto é música eletrônica de caráter experimental, casa de artistas como The Field, Orb, Pantha Du Prince, Gui Boratto, Superpitcher, entre outros. Este ano a compilação gira em torno de uma novidade digna de nota: “Manifesto” pertence ao novo projeto de Jörg Burger e Wolfgang Voigt, que antes formavam a dupla Burger & Voigt, rebatizado como Mohn. A faixa soa como a manipulação das modulações de um acorde de solto, realizado por guitarra elétrica distorcida. O resultado é sombrio e vale acompanhar os próximos passos de Voigt e Burger. Abaixo, o player da Kompakt.



Bernardo Oliveira 

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

(crítica – disco) Siba – Avante (2012; s/g, Brasil)
























São muitas as virtudes que fazem o grande artista, e muitas são as perspectivas quando se trata de arte. Porém, pelo menos em nossa era, o grande artista é aquele que consegue, a partir de um material dado, dar à luz um recorte singular, seja referindo-se, seja desprendendo-se daquilo que lhe é legado. O debate acerca da possibilidade de emergência do “novo”, que se arrasta durante todo o século XX e invade o XXI sem pedir licença, resta carente de argumentos, pois não existe outra possibilidade para definir a criação humana que não se dê a partir de uma tensão entre o que já se passou e o que virá:

“Na descompressão do grito
De liberdade e revolta
Se abriram os portões pesados
Um touro bravo se solta
Quem parte berrando: avante!
Pode cair mas não voltar” (“Avante”)

Em Avante, Siba fornece mais argumentos para se inscrever com folga no rol dos artistas que conseguem parir o “novo”. Como no trabalho anterior, Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar (sem contar a parceria com Roberto Corrêa), o “cantautor” se destaca por obter conceitos e sonoridades próprios, sobretudo em relação ao substrato de suas canções, referente a gêneros nordestinos como a toada, o coco, o maracatu, o galope, entre outros. E o que é então esse “novo”? Ele se resume ao grito de “avante!” que batiza o álbum? Ou se refere à reabilitação dos gêneros abordados, prescritos aos guetos folcloristas? Trata-se portanto de uma motivação? De uma pesquisa? De uma inspiração sem maiores consequências? Reflexo de uma história pessoal? Todos os itens acima? A resposta vem sob a forma de poesia: o turbilhão dos acontecimentos pode ser representado pela imagem de um touro que se desprende, e a criação humana como esses indivíduos que partem berrando “avante!”, e que podem cair, mas não voltam…

Conceitualmente, seu trabalho se constitui a partir de dois movimentos, e isto se pode afirmar tanto de Avante, como dos discos anteriores. Primeiro, apropriar-se dos gêneros listados acima com naturalidade, tal como se trabalha com o rock, o samba e o reggae, compondo canções com temáticas variadas. Em segundo, experimentar na roupagem sonora, modificando-a conforme o conceito do álbum. Se no disco anterior, o grupo regional se mostrava adequado, desta vez Siba escalou Leo Gervázio, integrante da Fuloresta, na tuba, Samuel Fraga na bateria e Antônio Loureiro no vibrafone e teclados, além de tocar guitarra e viola. Produzido por pelo compositor, instrumentista e produtor Fernando Catatau (Cidadão Instigado), Avante se destaca pela inserção de vibrafone, tuba e guitarra nos arranjos, que resulta em uma sonoridade coesa, porém multifacetada. Tal combinação suscita nexos com a música pernambucana dos anos 70, o rock’n’roll dos 60, a jovem guarda, Cidadão Instigado e até mesmo hardcore (em "Canoa Furada"), mas guarda também a singularidade do diálogo instrumental, como se pode ouvir na sensacional combinação de guitarra distorcida e vibrafone na faixa-título, e na simbiose de afrobeat e maracatu na lírica de “Qasida”. Destaque para a vinheta “Mute/Um Verso Preso”, cuja textura demonstra as habilidades instrumentais de Siba, capaz de sintetizar rock’n’roll e viola nordestina nas guitarras – habilidade também perceptível nos pontuamentos "guitarrísticos" em “Avante”.



Envolvendo essa dupla característica, a sensibilidade excepcional de poeta, capaz de exprimir humor e plasticidade em versos como os de “Canoa Furada” (“E a canoa velha deixou/Muita água minar/Eu nunca aprendi a nadar/Será que essa água é molhada ?”), melancolia, como em “Brisa” (“A brisa, por ser carinhosa, é quem mais tem castigado”), e delírio, como em “Preparando o Salto”:

“Não vejo nada que não tenha desabado
Nem mesmo entendo como estou de pé
Olhando um outro num espelho estilhaçado
Que reconheço mas não sei quem é”

O exercício original da métrica e da rima, muitas vezes organizadas em formato entrelaçado, como em “Qasida”, “Canto de Ciranda na Beira do Mar” e “Ariana”, reforça a temática cotidiana, reiterando a visão particular do autor. Constituída por imagens oníricas, que contraditoriamente se desprendem do caráter aparentemente coloquial dos versos, a poesia de Siba manifesta a consciência ao mesmo tempo trágica e ferina de poetas nordestinos como Jorge de Lima ou Patativa do Assaré. Mas aqui, o trágico não se configura como sinônimo de tragédia ou mau agouro, mas uma compreensão do infinito, para além do bem e do mal…

“Imagens são balões presos
Por um cordão que se tora
Porque poesia é presença
De um vulto que não demora
O canto espalha no vento
E o tempo desfaz na hora.”

… e que também opera na seara do nonsense, criando impagáveis gags visuais como em “A Bagaceira”:

“No fim da bagaceira
Minha vista escureceu
Se alguém souber meu nome
Diga pra mim quem sou eu
Vou dormir na calçada
Abraçado a um cachorro
Pra uma alma sebosa
Me levar carteira e gorro
E ainda se dá mal
Pois não tem um real
Pode acabar-se o mundo
Vou brincar meu carnaval”



















À vontade entre a previsibilidade e a diferença, Avante confirma o talento de “cantautor”, apto a transfigurar o legado riquíssimo, deixado de lado pelas bandas “sudestinas”. Por fim, vale retomar a questão do primeiro parágrafo: o novo não é algo que irrompeu em tempos imemoriais para nunca mais voltar, mas, consequência inevitável, que surge no trabalho de alguns indivíduos que conseguem enxergar para além do horizonte de expectativa da grande maioria. Um desses indíviduos é Siba e Avante é mais um documento que atesta sua visão privilegiada. 

Bernardo Oliveira