quarta-feira, 28 de março de 2012

(crítica – disco) Chicago Underground Duo – Age of Energy (2012; Northern Spy Records, EUA)


























Não é de hoje que admiramos o trabalho de Rob Mazurek, assim como não raro o seguimos através de seus projetos menos evidentes. Um deles, seu excepcional álbum solo Calma Gente, prenunciava a tendência abrasileirada que se consolidou no último trabalho com o São Paulo Underground, Três Cabeças Loucuras. Antes, porém, Calma Gente manifestava alguns contornos que me chamaram a atenção para a extrema habilidade do instrumentista em soar lírico quando improvisa até mesmo de forma agressiva – naqueles ataques de fôlego em que se percebe a acentuação gutural do trumpetista. Que misteriosa capacidade é essa que possibilita a Rob Mazurek improvisar com um traço indefectível de lirismo?

Ambientado na música brasileira, Mazurek se volta para um de seus projetos mais curiosos: o Chicago Underground Duo, em parceria com o baterista Chad Taylor (Marc Ribot Trio, Side A, Digital Primitives). Basta recordar o último disco da dupla, o enigmático Boca Negra, para compreender o que estou afirmando. Com efeito, trata-se um dos grupos de improvisação mais interessantes à disposição na praça, não porque são hiper-virtuosos, velozes ou esporrentos, mas porque exploram brilhantemente uma sucessão avassaladora de solos, temas e climas, contextualizados por uma estratégia de concepção que conjuga abstração e composição no seio das formas do jazzísticas do fin de siècle

Economizando nos overdubs, o duo se desdobra para compor faixas acentuadamente diferentes umas das outras, tanto em relação aos seis álbuns lançados até agora, como internamente a esses álbuns. Assim, Age of Energy não espanta somente porque se inicia com uma faixa de quase vinte minutos, mas porque “Winds Sweeping Pines” traz uma mistura arretada de trip-hop, Coltrane, Hermeto Pascoal e o som da mbira de Taylor. Ao longo das três fases da música – o trip hop com viradas de bateria jazzística, a ambient com teclados graves à la Conrad Schnitzler e o “hermetismo pascoal”, reprisado em “Moon Debris”, somente na versão digital – o ouvinte toma contato com a tensão essencial do improviso: entre o sentido da forma e a exploração do acaso, com benefícios para ambas as partes.

“It's Alright” é prova da habilidade do duo em criar formas variadas unificadas por um mesmo espírito. Como se não possuísse um destino ou sentido prévio, a faixa parece apontar para um caminho infinito: brumas eletroacústicas encobrem o solo penetrante de Mazurek, durante dez minutos que mobilizam a atenção. Na sequência, mais uma faixa improvável, a belíssima “Castle In Your Heart”, baseada na shona, música tradicional do Zimbabue. Improvável não pela procedência ou pela textura, composta por vibrafone e trumpete, mas pela simplicidade das escalas, melodias e harmonias. Destoando do conjunto total, “Age of Energy” encerra o trabalho alternando os tempos 21/8 e 12/8, provocando no ouvinte a sensação de constante instabilidade.

Ainda assim, perdura o gosto de Mazurek por um timbre que permite conjugar o aspecto caótico das viradas de bateria com um desenho melódico evocativo e emocionante. Em apresentações, perdura este aspecto generoso, mesmo quando o bicho pega na improvisação e todos os seus parceiros estão “descendo a mão”, como se diz na expressão dos músicos. Mazurek insere ora uma bela melodia, ora um clima, ora um bilhete de Miles Davis… tudo com o aspecto que vos digo: experimental, free, mas irremediavelmente lírico. A notável confluência com Chad Taylor – e com seus demais parceiros – ressalta esse aspecto, e com Age of Energy não é diferente: apesar de gravado em 2009, o trabalho permanece atual, testemunhando a perspectiva privilegiada de sua música. 

Bernardo Oliveira

Ouça amostras das faixas.

segunda-feira, 26 de março de 2012

(crítica - disco) Gal Costa – Recanto (2011; Universal Music, Brasil)
























“Viver é um desastre que sucede a alguns.” Tomo o verso escrito por Caetano Veloso como um elogio ao amor fati, um canto de júbilo pela existência, pela singularidade da arte, pela vida em seu caráter multiforme. Ora, em que consiste o “desastre” se não na própria incongruência entre o caos e a forma, restando somente o ímpeto de conferir sentido a um turbilhão que nos é, antes de mais nada, indiferente? Neste caso, o desastre não possui o significado de “catástrofe”, mas de algo que irrompe inevitavelmente, de um acontecimento inexorável. Aqui, Recanto quer dizer "re-cantar", refazer, recompor...

O primeiro álbum que Caetano Veloso produziu para Gal Costa, Cantar (1974), com Perinho Albuquerque, se inscrevia no refluxo londrino, a partir do qual ele e Gilberto Gil reconfiguraram suas posições no cenário da música brasileira. Lá se pode escutar a mistura de estilos (bossa, rock, soul, fado…) que caracterizou o Tropicalismo, bem como os compositores afinados com o mesmo legado (Donato, Jobim, Péricles Cavalcanti, Carlos Lyra, Mautner). Porém, percebe-se uma diferença importante. Nos primeiros discos, Gal experimentava consideráveis variações de registro, ora investindo na economia singela de Domingo (com Caetano, 67), ora esbanjando vigor e uma certa ironia, como nos dois discos homônimos de 69 e Le Gal, de 70. A pluralidade de interesses cara ao Tropicalismo contaminou seu canto até explodir no verdadeiro acontecimento que foi Gal a Todo Vapor, disco e show.

Ocorre que em Índia e, adiante, Cantar, estas variações deram lugar a uma estabilidade estilística, que conjugava seu timbre melífluo com energia e força de expressão. Pode-se dizer que até início da década de 90, o canto de Gal Costa manteve-se nesse registro, sem prejuízo para bons álbuns como Gal Canta Caymmi (1976) e Água Viva (1978). Desenho essa genealogia de seu canto para sublinhar algo que parece ter passado desapercebido em relação a Recanto. Muitos foram seus produtores, de Manoel Barenbein a Arto Lindsay, de Mazolla a Morelembaum, de Perinho Albuquerque a Waly Salomão, entre outros. Mas o canto de Gal Costa, me parece, sempre foi e ainda é um assunto para uma única pessoa: Gal Costa. 

Desta lista de produtores, o mais ousado e criativo é, sem dúvida, Caetano Veloso, que até por conta do laço de amizade, conhece sua biografia, compreende seu pensamento musical, o estágio no qual se encontra sua voz e, sobretudo, aquilo que Gal Costa de fato quer cantar. Em entrevistas, ambos manifestaram receio em relação à proposta de Recanto, cuja sonoridade se encontraria em sintonia com duas importantes cenas contemporâneas: a produção eletrônica e o improviso instrumental. Pela primeira vez em muitos anos, um trabalho de Gal Costa retoma o espírito experimental comum aos discos dos 60 e 70. Mesmo em relação a seu último disco digno de nota, O Sorriso do Gato de Alice (1993), produzido por Arto Lindsay, Recanto sobressai, pois trata-se não só de uma investida em outras sonoridades, mas na própria concepção estética de intérprete.  

As programações eletrônicas enxutas, contribuição fundamental de Kassin, casam perfeitamente com seu timbre grave e metálico, qualidade perceptível nas duas mais belas faixas do disco, “Recanto Escuro” e “Tudo Dói”. Além da presença de instrumentistas do calibre de Donatinho (teclado), Alberto Continentino (contrabaixo), Pedro Sá (guitarra) e Luis Filipe de Lima (violão de 7 cordas), Recanto conta com duas bandas cariocas especializadas em improvisação: o Rabotnik, no blues anômalo “O Menino”, e o Dupplex de Bartolo e Léo Monteiro na melancolia visceral de “Madre Deus”. Há que se notar também a inserção bossanovista da sugestiva “Mansidão”, com Morelembaum e Daniel Jobim. Recanto se afirma na harmonização entre universos aparentemente  distantes, mas que são singularmente unificados pelo canto de Gal.

Em termos temáticos, tal qual o último disco de Chico Buarque, o momento pessoal forneceu a matéria-prima a partir da qual Caetano elaborou as letras, misturando olhares e perspectivas: Caetano olhando para Gal em “O menino”, Gal respondendo a Caetano em “Recanto Escuro”, os dois se entreolham em “Mansidão” (que retoma a prática do canto como tema, tal qual em Cantar) e riem juntos no suingue sagaz de “Miami Maculelê” – cujo pulo do gato é o prato do samba de roda se fazendo de hi-hat do funk. 

Por fim, a visão segundo a qual Recanto é um disco “eletrônico” é evidentemente equívoca, mero subproduto do jornalismo e do marketing. Em Recanto, sobressai a forma do canto de Gal, criativamente adaptado a um cenário tomado por uma certa melancolia, pela batucada robótica e um conjunto de canções perceptivelmente esgarçadas pela intenção de dialogar com a aridez dos arranjos – às vezes nos lembramos de Third, do Portishead, outras da “cristaleira digital” de Björk...

Explorando nuances, alturas e possibilidades no registro mais grave, no sussurro, na exploração simbólica dos efeitos (como em "Autotune Autoerótico"), ou nas entonações minimalistas de “Neguinho” e da soturna “Sexo e Dinheiro”, Gal, mais uma vez, reinventou-se a si mesma. Sim, viver é um “desastre” que nos leva a experimentar encontros, máscaras e identidades. “Só deus sabe o duro que eu dei”, ela canta pelas palavras de Caetano. Ou seria Caetano poetizando, “palavreando” o canto expressivo e inigualável de Gal Costa? 

Bernardo Oliveira

sexta-feira, 23 de março de 2012

Minicrônicas Discográficas #15



Negro Leo – The Newspeak (2012; s/g, Brasil)
Na primeira ocorrência no Matéria do nome de Leonardo Campelo, mais conhecido como Negro Leo, recorri a exemplos de performers espasmódicos, agitados: James Brown, Iggy Pop, Fela Kuti foram os nomes que me ocorreram, não propriamente pela música, mas, sobretudo, pelo grito estilizado e a performance enérgica. Isso foi no ano passado, mais precisamente no mês de outubro e Léo se apresentava ao lado do Chinese Cookie Poets. Recentemente tomei conhecimento do seu primeiro trabalho solo, um EP com seis músicas batizado como The Newspeak. A conjunção dos fatores me levou a crer que poderia se tratar de um disco de spoken word, aditivado com o mesmo vigor daquele outubro distante… Lêdo engano! Ao invés de suingue e energia, Negro Léo apostou num caminho menos óbvio. Suas referências não se constituem a partir do legado “funk brother soul”, nem do samba, mas da perspectiva de canções, cujo caráter mais evidente é a conjunção de sofisticação harmônica e letras simultanemente naïves e perturbadoras. A banda, formada por Pedro Dantas (baixo), Daniel Fernandes (bateria) e Vitor Barros (guitarra), lembrando o trio Lanny Gordin, Moacir Albuquerque e Tutti Moreno, entra na onda com instrumentações soltas, como se pode observar na beleza bruta de “A Moda e Novo Homem” e “Patrya”. Com seu canto meio bossanovista, meio irônico, ressalta o nonsense romântico na intimista “Autoestudo 2” (“Saímos ela, eu e Satanás / Pacifistas/ Para orgulho do Deus do Big Bang/Lindos, usamos mais drogas que soldados no front…”) e a conjunção aleatória da letra e da melodia de “Cry Us River” (“E curto a pedra lascada/Vou ficar por aqui e rezar por você/Porque não haverá salvação/Para as almas refugiadas em astronaves/nem presente algum no Olorum”). Solapando a base harmônica de suas canções e alvejando-a com acordes dissonantes, improvisos e escalas pouco ortodoxas, Leo evoca o jazz dos anos 50 (em “Jovem-Tirano-Príncipe-Besta” e “The Newspeak”), a espontaneidade da instrumentação tropicalista pós-70 e o blues truncado e expressivo de Captain Beefheart. Mas aponta, antes de mais nada, para a possibilidade promissora de firmar-se como um “cantautor” singular, na linhagem de Itamar Assumpção e Jards Macalé, descartando os ecletismos vazios de uma "emepebê” moribunda e engrossando os argumentos contrários a um suposto “fim da canção”. Em suma: não é música para boi dormir.


Keiji Haino, Jim O'Rourke, Oren Ambarchi – いみくずし Imikuzushi (Black Truffle/Medama Records, Austrália [EUA/Japão])
O trio em questão chega a seu terceiro álbum, após duas incursões ao universo da “improvisação com acabamento sonoro”, Tima Formosa e In a Flash Everything Comes Together As One There is No Need For a Subject, respectivamente de 2010 e 2011. Nestes casos, ainda que conte com os habituais títulos enormes, as faixas se iniciam com volumes mais baixos e desembocam em longas sessões de depredação sonora. Mesmo nos momentos carregados pelo timbre feminino de Haino, o clima é de tensão durante todo o tempo, seja porque a barulheira está para começar, seja porque os trechos climáticos excedam a mera introdução e funcionem como uma espécie de prenúncio do caos. Dos três álbuns, ainda prefiro a variedade e a delicadeza de Tima Formosa, até porque, do ponto de vista formal, In a Flash… e Imikuzushi são bastante parecidos. Mas não há como negar o prazer de escutar o que três músicos do calibre de Haino, Ambarchi e O’Rourke ainda podem fazer com nossos ouvidos.


Bellows – Reelin' (2012; Entr'acte, Reino Unido [Itália])
Apesar da obra aqui em casa, pude escutar com muito prazer esta bela parceria entre os italianos Nicola Ratti e Giuseppe Ielasi. O duo Bellows opera com ênfase sobre o campo de interesses de Ratti, mas por redução de elementos e a partir de um trabalho admirável com volumes. Trata-se de um trabalho lento, silencioso, mas animado por uma série de detalhes. Não que Ielasi também não seja dado às abstrações quase visuais de Reelin’, mas em seus álbuns podemos adquirir um referencial mais consistente para entender as tramas particulares tecidas por uma combinação esdrúxula de field recordings, sintetizdores e instrumentos "mascarados" – isto é, que parecem, por exemplo, uma percussão, mas pode perfeitamente ser um som sintetizado. Disco repleto de minúcias, recomendado para quem gosta de ouvir música nos fones. 

Ouça "05".

Bernardo Oliveira


Moskra – Moskra EP  (2012; IDM Netlabel, EUA)
O autointitulado primeiro EP do artista Moskra traz doses maciças de peso e escuridão para a IDM Netlabel. Trata-se de um álbum bem mais soturno do que os demais artistas do catálogo da IDM, portanto, esteja preparado para o uso intenso de sub graves e batidas que privilegiam o kick com uma forte inspiração no 2step. Apesar do jeitão truculento e da cara de poucos amigos, trata-se de um disco cheio de ritmo e altamente dançante, que pode agradar aos fãs do selo Hyperdub e post-dubstep em geral.

Baixe o EP em formato MP3 ou FLAC, direto da página da IDM Netlabel.


Total Abuse – Prison Sweat  (2012 [2011]; Calico Grounds, EUA)
O Total Abuse é uma das bandas responsáveis por trazer de volta à tona a influência da velha escola do hardcore oitentista, acompanhado por uma muralha de feedback e intensas (e raras) performances ao vivo. Prison Sweat é o terceiro álbum da banda, alternando entre curtas faixas punks e faixas que beiram o experimentalismo sludge, bebendo da fonte do Black Flag da fase "My War", do scum punk proposto por GG Allin e do cenário noise estadunidense. Versão em formato cassette para o LP lançado originalmente em 2011 e atualmente fora de catálogo, foi relançado pelo selo Calico Grounds em formato cassette, limitado a 500 cópias. 





Dylan Ettinger - Lifetime of Romance (2012; Not Not Fun, EUA)
O novo disco de Dylan Ettinger, Lifetime of Romance, já se encontra disponível para compra no site do selo Not Not Fun (http://notnotfun.com/now.html). O artista já havia disponibilizado o single "Wintermute", faixa que flerta com o synth-pop e a minimal wave, influências adaptadas ao estilo próprio desenvolvido por Dylan ao longo de sua carreira. Compre o cd e, enquanto ele não chega, ouça "Wintermute" na página da FACT Magazine.




Thiago Miazzo

quarta-feira, 21 de março de 2012

(crítica - disco) Chinese Cookie Poets – Worm Love (2012; Sinewave, Brasil)

























Tornou-se consensual a noção de que o improviso em música seguiria um percurso natural, ao sabor de uma boiada desembestada, de uma tromba d’água, de uma avalanche intensa, inexorável. Porém, um olhar mais detido revela que o improviso é sempre mediado por uma qualidade da percepção que corresponde mais ao controle do que ao laissez aller… Quem frequenta os discos de improvisação, seja que tipo de improvisação for (jazz, partido alto, mbalax ou até mesmo o famigerado "free-improv", etc), sabe que esta prática requer o domínio prévio de uma ou mais linguagens determinadas, além da capacidade de ajustar as sonoridades a uma concepção própria. Se, como afirma Derek Bailey, a improvisação aponta para a “natureza da performance musical”, é justamente a mão de ferro da concepção, pessoal e intransferível, que faz dela uma manifestação de interesse.

O grupo carioca Chinese Cookie Poets, que já foi entrevistado pelo Matéria, chega ao primeiro álbum operando de forma peculiar sobre esta premissa. Valendo-se de uma estratégia de improvisação que ilumina justamente o aspecto obscuro do improviso (o controle), Worm Love confirma que o CCP tem cacife de sobra para entrar na alta roda da improvisação contemporânea. O método consiste em dois movimentos básicos: registro de quarenta minutos de improvisação livre e sem esteios; edição criativa que fermenta e altera o material gravado. De um lado, o material bruto (o improviso); do outro, o editor-criador, que com ferramentas de corta-e-cola (de)recompõe esteticamente o material.





Worm Love é, portanto, resultado desse método em nada inédito – já foi utilizado por Peter Evans, Jim O’Rourke, Keiji Haino etc. Mas o que suscita o suprassumo da arte não é exatamente o método, mas o resultado. O que há, portanto, de particular neste trabalho? Além dos maneirismos instrumentais inspirados, vale ressaltar o trabalho com os ritmos, talhado a partir do processo de manipulação digital. Se do ponto de vista da timbragem, o CCP se inscreve na linhagem do post-rock, em termos de concepção trata-se de um trio que parece seguir seu próprio caminho.

Já no clipe de “En La Mano del Payaso”, uma das faixas mais representativas do conceito geral, revelava-se parte de um método de elaboração comparável ao da edição de imagens. Da mesma forma que a edição cria espasmos corporais a partir das imagens das pessoas dançando, as variações rítimicas, harmonias, melodias e ruídos instrumentais retiradas do longo improviso são redesenhadas de modo a produzir espasmos análogos aos que ocorrem no vídeo. O procedimento chega ao ápice na suíte “Three Worms”, sobretudo na terceira parte, “Ziran”, mas é perceptível por todo o disco.

Trata-se de um trabalho relativamente curto (vinte e poucos minutos), mas que adquire densidade conforme o grupo desembolsa seu amplo repertório de possibilidades: a desconjuntada “Plastic Love”, “Discipline and Manners” (com participação de Arto Lindsay, uma das referências do grupo) e o pontilhismo radical de “Free The Monkey”. Claro, há que se notar as influências diretas: Haino, Zu, John Zorn, Fantômas, Boredoms. Mas já há algum tempo, o Chinese Cookie Poets vem se destacando não somente no cenário carioca, mas dentre os artistas mais interessantes quando o assunto é música livre, improvisada ou não. Em relação ao grupo, Worm Love não funciona exatamente como um divisor de águas, mas como a consolidação de um trabalho que, pelo visto, ainda pode render grandes momentos aos admiradores da música experimental.

Bernardo Oliveira

segunda-feira, 19 de março de 2012

(crítica - disco) Prurient – Oxidation (2012; Hospital Productions, EUA)


























Acompanhar a discografia de Dominick Fernow é uma tarefa que exige um bocado de dedicação. Só no ano de 2012 já são três lançamentos sob a alcunha Prurient, sendo o último o cassette duplo Oxidation. O novo material é composto por quatro faixas (ou "four slaves"), cada uma atingindo aproximadamente meia hora de duração. Pra quem esperava algo mais próximo do elogiado Bermuda Drain, o novo álbum tem tudo pra ser uma grande decepção. O sintetizador, uma constante da fase Bermuda…, não é mais o instrumento principal. Em Oxidation, predominam muralhas de ruído e gravação lo-fi.

"Ecstasy Slave", faixa que abre o primeiro cassette, traz feedbacks manipulados com precisão cirúrgica. Em outros momentos, a voz soa mais seca (lembrando em alguns momentos o side-project Force Publique Congo) e os ruídos mais próximos da música ambiente. A teia de ruídos construída por Fernow ganha o acréscimo de percussões ásperas e linhas de synth inusitadas na segunda faixa, "Ketamine Slave", encerrando de forma truculenta o cassette 1.

O segundo cassette (mais fácil de ouvir do que o anterior) se aproxima um pouco mais da melodia dos seus últimos trabalhos. "Vicodin Slave" mantém uma pulsação próxima do power electronics, ficando mais encorpada conforme a  música cresce, enquanto "Ccne Slave", explora melodias de synth e peças de metal de uma forma bem mais harmônica, criando um ambiente mais leve do que as faixas anteriores.

Mesmo assim, Oxidation não é um disco que visa o público de Bermuda Drain ou os admiradores do ritmo e melodia do Vatican Shadow, mostrando maior disposição para o livre improviso do que preocupação em criar melodias ou estruturas musicais próximas do convencional.

Thiago Miazzo

Ouça alguns trechos de Oxidation

sexta-feira, 16 de março de 2012

Minicrônicas Discográficas #14

John Zorn



THE MAN ACROSS THE STREETS



IG88 – A Loom And Not Me (2012; Nueva Forma, EUA)
O IG88 é um dos artistas emergentes do net-label IDMF, especializado em música eletrônica. Branden Clark veio acompanhado dos vocalistas Jenni Potts e Bed of Stars em seu novo disco A Loom And Not Me, lançado pelo selo Nueva Forma. É um disco bem grooveado, com beats precisos alternando entre passagens lineares e quebradas, linhas gordas de baixo, subs, enfim, um disco de cozinha pesada que contrasta com os synths leves, flutuantes. Influenciado por uma gama de estilos, passando pelo glitch, o IDM e o post-dubstep, o IG88 tem potencial para agradar a grande parte dos ouvintes de música eletrônica atual.

Ouça A Loom And Not Me, na íntegra


Crisne – Albedo (2012; Phantasma Disques, Itália)
Mais um excelente item no catálogo da Phantasma Disques. Crisne é o projeto solo de Francesca Marongiu, que também participa do duo drone Achiteuthis Rex, mas é no debut Albedo que a artista desenvolve todo o seu potencial, explorando timbres, passagens noise, bons vocais e drum machines bem sacadas. É um disco equilibrado, não é atmosférico o bastante pra te deixar de bode, tampouco se trata de um disco dançante, daqueles que você ouve batendo os dedos na mesa do computador, acompanhando o ritmo da música.




Zola Jesus  In Your Nature (2012; Sacred Bones Records, EUA)
O compacto 7" lançado pela Sacred Bones documenta o encontro entre Zola Jesus e o cineasta/músico David Lynch. A versão original de "In Your Nature", lançada no álbum Conatus, de 2011, ganhou um remix de beat simples, synths "droneados" e guitarras marcando a cabeça das notas, muito distante da esquisitice esperada do diretor de Eraserhead.

Ouça a versão de David Lynch para a música "In Your Nature"

Thiago Miazzo





John Zorn – Naked City (1989; Nonesuch, EUA)
Assim que “Batman” começa, o ouvinte é fuzilado por uma saraivada rock’n’roll em tom paródico, que se transforma em um daqueles filmes de terror para nervos de aço. Na sequência, a música tema de “The Sicilian Clan”, composição original de Ennio Morricone, reforça o clima cinematográfico. Grindcore, jazz, rock’n’roll, sem escalas, editado como cenas de um filme sem pé nem cabeça. Trilhas, cortes, pedaços de imagem, sangue espirrando na tela, florestas e cabarés… Instabilidade pop em obras-primas como “You Will Be Shot” ou “Latin Quarter”. A partir de “Igneous Ejaculator” até “Speedball”, Naked City transfigura-se em uma avalanche grindcore repleta de convenções instrumentais ultra-rápidas, com duração média de 30 segundos. A participação de Yamatsuka Eye, do Boredoms, assola impiedosamente os ouvidos do pobre indivíduo que se arrisca a escutar seus gritos insanos. Dos primeiros títulos da longa discografia de John Zorn, talvez seja o mais influente e decisivo em relação a seu trabalho posterior, particularmente no que diz respeito a seus métodos de composição extremamente fragmentários e abertos ao improviso. Um disco irregular (no melhor dos sentidos), maluco, empolgante e, acima de tudo, magistral.


Masada  – Vav (1996; DIW Records, Japão [EUA])
Sem desmerecer William Parker, Wadada Leo Smith, Matthew Shipp e outros grandes músicos, pensadores e criadores inscritos na seara do jazz – do tipo de improvisação pertencente à desconfiguração criativa do legado do jazz norte-americano. Porém, tomando como horizonte os últimos vinte anos, posso afirmar que não conheço nada parecido com o quarteto Masada. A respeito dessa empreitada, Zorn declarou: “A idéia do Masada é produzir um tipo de música judaica radical, uma nova música judaica, que não é a tradicional, em um arranjo diferente, mas a música para os judeus de hoje. A idéia é colocar Ornette Coleman e as escalas judaicas juntas.” Signos judaicos ornamentando as capas, linhas melódicas que remetem à música judaica tradicional, um songbook com mais de 500 temas, distribuídos por uma série de álbuns batizados com as letras do alfabeto judaico. Música vibrante, ágil e, novamente, fortemente imagética, que se exprime atraves de álbuns como Alef, Hei, Beit, entre outros. Mas escolhi o sexto volume por conta de uma peculiaridade digna de nota. Batizado Vav ou simplesmente Masada 6, pode ser considerado o trabalho menos estranho do grupo, mas é tambem aquele que, dialogando abertamente com o bepop e deixando de lado os experimentos timbrísticos radicais, abre uma perspectiva inestimável para um gênero que, tendo atingido seu auge nos anos 60, sofria de um decréscimo considerável de seu capacidade de resposta criativa. Vav representa um respiro profundo do bepob, um post-bebop, mas que se impõe pela vivacidade. Sente o drama escutando trechos de “Mikreh” e “Debir”.


John Zorn – Enigmata (2011; Tzadik, EUA)
Composto e “conduzido” por John Zorn, Enigmata é obra também de dois mestres das cordas, ambos ligados a diversos trabalhos do próprio Zorn. Me refiro Trevor Dunn (Moonchild/Mr. Bungle/ Masada), “esmerilhando” no baixo de cinco cordas  que por vezes simula uma escavadeira, com uma distorção pesada e marcante; e Marc Ribot, tocando sua guitarra com a habitual destreza e sensibilidade para “notas certas fora de lugar”. Uma certa monotonia propiciada pela timbragem praticamente invariável dos instrumentos (somente “Enigma Eight” conta com timbres límpidos), é compensada pelas variações propostas pela composição e não compromete o jogo de cena. Pela terceira vez remeto a música de Zorn às imagens, mas no caso desta cena específica, concebida e dirigida pela objetividade libertária de seu gênio, os dois personagens encenam um drama falso. Se não é possível de forma alguma falar em melancolia, mas, precisamente, de seu oposto, evito no entanto me referir a sentimentos de alegria. Trata-se de uma música grave, austera e, ao mesmo tempo irreverente na forma como insinua pausas, ruídos, dinâmicas de ritmo… Enigmata é, como promete o título, mistério, pesquisa e experimentação, mas é também, como escreveu o saudoso Wando, é “fogo e paixão”.

Bernardo Oliveira

quarta-feira, 14 de março de 2012

(crítica – disco) Mats Gustafsson, Paal Nilssen-Love, Mesele Asmamaw – Baro 101 (2012; Terp Records, Holanda [Suécia/Noruega/Etiopia])


























É difícil mesurar o que há de mais interessante nesta sessão de improvisação, ocorrida há cerca de dois anos num quarto de hotel em Addis Abeba. A começar pelo fato de que Baro 101 é produto direto da longeva colaboração entre os roqueiros holandeses do The Ex com artistas etíopes, documentada pela dupla Terrie Ex e Andy Moor na edição de março da revista Wire. Desde 2002, o grupo mantém um trabalho consistente de colaboração e divulgação da música e da cultura etíopes, uma das mais ricas e antigas da África Oriental. Contabilizando as proezas decorrentes destas viagens, podemos citar a aparição para o ocidente de artistas como Zerfu Demissie, Jimmy Mohammed e Getatchew Mekuria (com quem o The Ex gravou em 2007 o sensacional Moa Anbessa), ou ainda os lançamentos do selo Terp, dirigido por Terrie, dentre os quais vale destacar a coletânea Ililta – New Ethiopian Dance Music, testemunha da atualidade desconcertante da música etíope, para além de seu expoente mais conhecido, Mulatu Astatke. 

Baro 101, nome e número do hotel onde ocorreu a gravação, conta com o sax barítono do sueco Mats Gustafsson e a bateria de Paal Nilssen-Love, dois instrumentistas que, junto a Han Bennink, Anne-James Chaton, entre outros, foram convidados pelo The Ex a participar da combinação de happening, concerto e workshop promovidos pelo grupo em Addis Abeba. O etíope Mesele Asmamaw completa o trio com o krar, instrumento tradicional, comum na Etiópia e na Eritreia, espécie de lira com 5 ou 6 cordas, que geralmente soa como uma kora um pouco mais grave. E aqui se inicia a segunda parte da descrição do aspecto mais interessante do álbum, que vem a ser a adaptação inteligente que Asmamaw fez em seu instrumento. Ao lado de dois improvisadores à moda europeia, ávidos por explorar não só os timbres convencionais, como também a própria materialidade de seus respectivos instrumentos, Asmamaw desenvolveu uma série de timbragens pouco comuns e as aplicou conforme o clima e o andamento do improviso. Assim, pode-se perceber ao longo dos mais de quarenta minutos de música, uma sucessão de momentos nos quais a interação entre bateria, sax barítono e krar soa imprevisível e, sobretudo, intrigante.

Em cada uma das duas sessões, os instrumentistas se valem de um arsenal de técnicas e artifícios com o intuito de potencializar o trabalho em trio. A percussão multifária de Nilssen-Love raramente executa um andamento regular, optando por seguir as tramas e espamos tecidos pelo sax e o krar. Gustafsson, como sempre, explora até mesmo o ruído das chaves do saxofone, roçando a nota para atingir um timbre rouco, ora deitando sequências minimalistas, ora aproveitando os picos de fôlego para extrair sons semelhantes a um espirro. Asmamaw se ambienta perfeitamente neste contexto, usando a krar de forma tradicional ou brincando com sua afinação, com seus diversos dedilhados e acordes, e, aparentemente, aplicando efeitos – como dos 3’ aos 5’ da primeira parte, e aos 5’ da segunda, onde o krar parece se transformar em um contrabaixo. Não há créditos para o canto surpreendente que irrompe aos 10’ da segunda faixa, mas presumo que seja improviso do próprio Asmamaw. 

Coeso, porém abstrato, executado de forma enérgica, mas ao mesmo tempo delicada, pródigo em sua exploração do timbre e fluente: Baro 101 transmite ao ouvinte a sensação de que foi gravado em um ambiente de vibrante sintonia entre os três instrumentistas. Trata-se, portanto, não de uma homenagem deferente, mas de um trabalho imbuído da mesma curiosidade e abertura ao diálogo que caracteriza não somente o trabalho dos músicos em questão, como também o projeto (ou o processo?) The Ex-Etiópia como um todo. 

Bernardo Oliveira

segunda-feira, 12 de março de 2012

(crítica - disco) Dolphins Into The Future – Canto Arquipélago (2012; Underwater Peoples, Bélgica)

























O primeiro contato que tive com o Canto Arquipélago foi através do trailler do filme de mesmo nome. Com uma fotografia belíssima e imagens aquáticas incríveis, o filme foi dirigido pelo próprio Lieven Moana. O produtor belga passou algumas semanas na região dos Açores (arquipélago composto por ilhas de origem vulcânica) realizando uma série de gravações de campo, filmagens e produzindo o album lá mesmo, em um estúdio improvisado em uma vila de pescadores localizada na Ilha do Pico (a segunda maior ilha do arquipélago). Isso nos dá uma idéia do clima natureba de Canto Arquipélago, além do fascínio que a região exerceu sobre Moana. Se você ainda não viu o trailler, faça uma pausa na leitura e assista ao video:





Canto Arquipélago é um disco relativamente curto, aproximadamente meia hora de duração e dividido em cinco faixas. Nas palavras de Moana, o álbum pode ser definido como "an audio poem for the Açores.... a coherent scrapbook collection of on-site field recordings and automatically written cantatas”. O disco é recheado de sintetizadores suaves, percussões bem sacadas e referências que passam pela space-music, new age, drone, além dos sons naturais da região, que desempenham o papel de instrumento principal. Os demais instrumentos servem apenas como complemento às gravações de campo, tornando-se difícil em alguns momentos separar o que é vento, o que é água e o que é synth. Justiça seja feita, a utilização das técnicas de field recording e da biomusic não é nenhuma novidade quando o assunto é música experimental, porém, poucas vezes a sua utilização foi tão bem sucedida como em Canto Arquipélago, em que cada intervenção de Lieven Moana na sonoridade natural da região foi cuidadosamente pensada e dá vida ao disco, despertando no ouvinte uma vontade louca de entrar numa canoa e remar até os Açores. Sem sombra de dúvidas, um dos discos mais ousados da discografia do Dolphins e desde já, um dos melhores discos de 2012.

Thiago Miazzo

Ouça Canto Arquipélago, disponível para stream no site da Fact Magazine.

quinta-feira, 8 de março de 2012

(crítica - EP) Steinvord – Steinvord EP (2012; Rephlex, Reino Unido)


























As especulações ainda percorrem a internet, particularmente entre os interessados em música eletrônica experimental: quem é Steinvord? A julgar pela aparência desconcertante de sua música, uma nova alcunha para Richard D. James (Aphex Twin/AFX)? Ou a continuidade do The Tuss, seu último projeto relevante? O drum’n’bass veloz e experimental, destilado em faixas antológicas como “Milkman”, “Laughable Butane Bob” e “vordhosbn”, é objeto de um culto silencioso, mas que até então restava no baú de antiguidades de boa parte da eletrônica anglo-saxã. Havia tambem a possibilidade de Steinvord representar um retorno promissor de Tom Jenkinson, aka Squarepusher, aos arabescos rítmicos característicos do drill’n’bass da década de 90, hipótese que parece ter sido descartada, mas que reitera a suspeita de que se trata de um trabalho digno de atenção.

Enquanto o mistério da identidade de Steinvord prossegue, somando-se a tantos outros (Eleh, Zomby), a Rephlex editou seu primeiro lançamento oficial. E trata-se de material finíssimo, como há tempos não se vê na seara da chamada IDM. Vale lembrar que, a despeito de uma pá de contrasensos, esta sigla definiu um rico campo de possibilidades instaurado durante o período de ouro da eletrônica inglesa. Se hoje muitos dos bleeps e clicks habitam até produções consideradas mainstream, isso se deve à “batalha sem quartel” travada por alguns artistas como Richard D. James, Matt Elliot, Tom Jenkinson, The Orb, Autechre, entre outros. 



Reza a lenda que Steinvord é, desde 2009, membro do MySpace, divulgando seu trabalho com indisfarçável inclinação lo-fi e uma virulência digna de seus mestres. Afirma que mora em Barcelona, tem 18 anos e faz música com seu “fuckin’ computer”. Dificilmente o aficcionado pelo IDM dos 90 não se renderiam ao brilho reminiscente que percorre todas as cinco faixas do EP. No entanto, aposto minhas fichas que não foi exatamente este o fator que enfeitiçou o mundo virtual, mas uma combinação de anonimato (espécie de virtude que, em tempos “occupy”, penetra com facilidade no imaginário da rede) com a reabilitação do IDM, que chega aos vinte anos com uma bela silhueta, comparável a de outros movimentos como o krautrock e a dubmania. Diante do trabalho de Steinvord nos deparamos com uma profusão de viradas de bateria e baixo, timbrada por sonoridades cruas, saturadas, comparáveis às mixagens toscas propostas pelo produtor londrino Ekoplekz. O aspecto "orgânico" das composições se deve à combinação caótica de batidas, vozes carregadas de efeitos, sons de máquinas industriais, motores ligados e uma chiadeira noise que o afasta definitivamente da timbragem em voga, pautada mais nos sintetizadores germânicos e nas batidas dançantes do que em uma experimentação autêntica.

Logo no início, ambientando o ouvinte no clima soturno que percorrerá todo o EP, “Backyard” exibe o cartão de visitas, com seus acordes sinistros e batidas frenéticas. Depois, as várias partes de “Maelstrom”, que vão de um dubstep lentíssimo ao drum’n’bass agressivo, já fornecem os subsídios necessários para que o ouvinte perceba que, apesar da pouca idade, Steinvord construiu uma identidade sonora própria, estabelecida sobre o desequilíbrio do andamento, dos timbre e do aspecto sonoro em geral. Se faixas como “Iyff Acid e1” e “Cyg X-1” trazem uma lembrança viva do trabalho que Richard James desenvolveu na década de 90, convém assumir que não há via simples de lidar com esta tensão. Se a alguns pode soar como imitação, vale contrapor uma característica que confere estilo ao trabalho de Steinvord. Parafraseando o filósofo Gilles Deleuze, não se trata de uma imitação, mas da constituição de um “campo de intensidades”, uma “onda de vibrações” que antes de rememorar, retorce impiedosamente a experiência e a memória. 

Bernardo Oliveira

terça-feira, 6 de março de 2012

Nonmixtape #1

























Um punhado de boas surpresas musicais de 2012 sequenciadas e com aquele espaço aconchegante entre as músicas:  "nonmixtape": mixtape não mixada. Uma compilação pura e simples, composta por cerca de vinte exemplares retirados do que de melhor escutamos nesses três primeiros meses do ano. Na falta de uma capinha decente, os motores de busca sugeriram como ilustração duas obras do artista americano Romare Bearden,  que através de suas colagens desconcertantes, tornou-se um intérprete peculiar da cultura norte-americana.

São 22 faixas que vão desde artistas contundentes da eletrônica afro-anglo-saxã, como Burial, Distal e Kode9, até a excelência poética de Siba, a delicadeza de Julia Holter, os misteriosos Steinvord e Romare, a volta do Mohn de Wolfgang Voigt, o mbalax reloaded de Mark Ernestus e a cantora Mbene Diatta Seck, o ferro velho digital da japonesa Kyoka, o soulful juke de Rashad e Spinn, remixando os sulafricanos do Shangaan, os espamos instrumentais do Chinese Cookie Poets e muito mais.

Vale dizer que muita coisa boa ficou de fora – como "Nova", mais um capítulo da bela colaboração entre Burial e Kieran Hebden, "One Drop", nova do PIL, "General Geral" do álbum promissor de Rodrigo Campos, Vatican Shadow, 2562 ("Jerash Hekwerken"), Black Dice ("Pinball Wizard"), a parceria Greenwood/Penderecki, o EP duplo de Gabriel Guerra (Dorgas), Finalzinho Chegando #1 e #4 e a deslumbrante "Ni See Ay Ga Done", do novo álbum de Sidi Touré, intitulado Koïma, cujo clipe já pode ser visto abaixo:



Sidi Toure - Ni See Ay Ga Done from Thrill Jockey Records on Vimeo.



Nonmixtape #1 (março 2012)
Parte 1/Parte 2

1. “Avante” – Siba – 3:56
2. “The Blues (It Began In Africa)” – Romare – 3:48
3. “Eel” – Distal – 4:45
4. “Mbeuguel Dafa Nekh” – Mark Ernestus apresenta Jeri-Jeri com Mbene Diatta Seck – 9:20
5. “Kindred” – Burial – 11:28
6. “In The Same Room” – Julia Holter – 3:59
7. “Meet Tshetsha Boys” – DJ Rashad & DJ Spinn – 3:51
8. “HADue” – Kyoka – 4:07
9. “Meteorango Kid” – Psilosamples – 5:20
10. “Weird Ceiling” – Zammuto – 3:34
11. “Maelstrom” – Steinvord – 8:56
12 “Manifesto” – Mohn – 5:07
13. “The Praetorian” – Shed – 6:17
14. "Il Labirinto Del Sesso" - Mater Suspiria Vision - 6:46
15. “Nikels and Dimes” – Gonjasufi – 3:50
16. “Africastle” (Kode9 Remix) – Battles – 7:03
17. “Doesn’t matter (If You Love Him)” – Ital – 7:52
18. “Seeds” – Georgia Anne Muldrow & Madlib – 4:57
19. “Biz R Us (Whore Powers Resolution)” – Madteo – 3:07
20. "Me The ZePH Widow" - Bathaus 3:12
21. “The Rakehell" - Earth - 11:51
22. “En La Mano Del Payaso” – Chinese Cookie Poets – 2:02



segunda-feira, 5 de março de 2012

(crítica – disco) Julia Holter - Ekstasis (2012; Rvng Int, EUA)


























Em 2011, Julia Holter fez sua estreia com o disco Tragedy, inspirado na tragédia grega "Hipólito". Não era um disco fácil de ouvir, cada movimento soava como engrenagem em uma complexa estrutura sonora, tornando a audição uma tarefa cansativa, que exigia um bocado de concentração. Eu mesmo sentei no PC pra resenhar esse disco uma pá de vezes, abrindo mão do desafio logo nos primeiros minutos. Mesmo se tratando de uma obra tão indigesta, Tragedy angariou elogios dos blogs especializados e figurou em uma série de listas de melhores do ano.

Ekstasis foi lançado em streaming pela NPR e tem seu lançamento oficial previsto para março de 2012. Logo de cara, percebemos que se trata de um disco bem mais fácil de ouvir do que o seu antecessor, utilizando-se de estruturas mais convencionais, conservando porém a riqueza de detalhes e a meticulosa exploração de timbres e possibilidades. Músicas como "In The Same Room" e "Goddess Eyes II" se destacam pelas melodias caprichadas, que de tão marcantes, acabam se aproximando da "easy listening". Dá pra ver que Holter dedicou muito tempo ao processo de composição de cada uma das dez faixas que compõem o álbum, desconstruindo e reconstruindo cada melodia para enfim chegar ao resultado desejado.

Na faixa que abre o disco, "Marienbad", as harmonias vocais costuram uma louca melodia, acompanhada por um instrumental encarregado das marcações e da carga dramática. Não existem notas jogadas ao acaso, cada clique, cada ruído é uma peça que se faz necessária, que faz da música o que ela é, tal como em outro bom exemplo, a faixa "Boy In The Room". Tentar encaixar Julia Holter dentro de um gênero também é um esforço que se faz em vão, pois suas influências passam pela música clássica contemporânea, pela música eletrônica das décadas de setenta e oitenta, até à ambient que talvez seja o rótulo que melhor define sua obra.

A todos aqueles que estão prestes a ouvir Ekstasis, uma recomendação: fones de ouvido. E dos bons. Tempo livre é outra coisa que ajuda, pois cada música do álbum é uma experiência semelhante ao jogo "Onde Está Wally?" utilizando os tímpanos no lugar dos olhos, atento a cada detalhe que passou despercebido na audição anterior e, cara, eles não param de surgir!

Thiago Miazzo

Clique aqui para escutar Ekstasis