sexta-feira, 27 de abril de 2012

Minicrônicas Discográficas #18




Minics Discs #18, ligadas em BNegão & Seletores de Frequência, Curumin, Phil Cohran And The Artistic Heritage Ensemble, Wolfgang Voigt, Ebo Taylor, Tony Allen, Programação impecável do Viradão Paulista, SónarSP tá chegando!, Gesellschaft zur Emanzipation des Samples, Nate Young, Le Super Borgou De Parakou, Animal Collective, Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. (resenha!), Akos Rozmann, Actress, Eleh, Traxman, Hype Williams, Fenn O'Berg (resenha!), Alkibar Gignor, Karantamba, Masaki Batoh, Ben Vida, OQuadro, Carter Tutti Void, Chicago Trio e a rapaziada abaixo:





JK Flesh – Posthuman (2012; 3by3, Reino Unido)
Justin Broadrick sempre foi ligado ao que rola de mais novo no cenário alternativo e nunca teve medo de misturar as novidades às suas velhas influências. Uma de suas bandas principais, o Godflesh, foi um dos pioneiros na mistura de metal e industrial. Seu mais recente projeto, JK Flesh, traz influências de antigos projetos como Techno Animal, o já citado Godflesh e o Greymachine, aliados ao ritmo do dubstep. Posthuman, seu primeiro trabalho, tem data de lançamento marcada para segunda-feira (30) pelo selo especializado em post-dubstep 3by3.



Free Weed & White Rainbow – Bluster (2012; Gnar Tapes, EUA)
O Free Weed vem de Portland e é um dos inúmeros side-projects de Erik Gage, que também toca no White Fang, the Memories, Ricky Pineapple, Feather Headress e cuida da label Gnar Tapes. Já o White Rainbow é a alcunha de Adam Forkner, que já trabalhou com nomes como Devendra Banhart, Yellow Swans, Atlas Sounds, entre outros. Juntos, lançaram o single Bluster, música que mistura ambient, beats minimais e vocais chapados, mistura que ganhou o apelido carinhoso de "bong pop" e define bem a vibe dos caras.



Inner Tube - Inner Tube (2012; Pacific City Sound Visions, EUA)
Colaboração entre Spencer Clark (Skaters) e Mark Mcguire (Emeralds) em um tributo à cultura surf australiana. Um registro inusitado na discografia de ambos os artistas, cheio de linhas ensolaradas de guitarra e distorção feiosa. Uma espécie de trilha sonora alternativa feita sob encomenda para o game "Jogos de Verão" ou para os filmes mais escabrosos do tipo "quatro garotões curtem os últimos dias das férias de verão e aprontam altas confusões" da Sessão da Tarde.



Thiago Miazzo



Rob – Make It Fast, Make It Slow (2012 [1977], Soundway, Gana [Reino Unido])
Pra começo de conversa: o ganense Rob não tem absolutamente NADA a ver com o afrobeat, gênero nigeriano inventado por Fela Kuti e Tony Allen. Rob apareceu primeiro na belíssima coletânea da mesma Soundway, Ghana Soundz, com “Make It Fast, Make It Slow”, um afrofunk assanhado, carregado na batucada e nos metai. A faixa batizou seu segundo disco, lançado em 77 pelo selo ganense Essiebons, responsável por álbuns de Dr. K. Gyasi And His Noble Kings, 3rd Generation Band e Ebo Taylor. Após lançar o primeiro, originariamente intitulado Rob e rebatizado como Funky Rob Way, a Soundway relança Make It Fast, Make It Slow, com uma remasterização que, confesso, me soou meio abafada. Mas nada que ofusque o balanço infalível de “He Shall Live In You” e “But You”. Destaque para Mag-2, fanfarra militar comandada por Amponsah Rockson, responsável pela metaleira arretada que passeia por todo o disco.

Ouça um trecho de “He Shall Live In You”

Eli Keszler/Keith Fullerton Whitman – Split (2012; NNA Tapes, EUA)
E eis que Eli Keszler retorna ao Matéria –pela terceira vez! A primeira, com Steve Pyne, com quem divide o Red Horse. Depois, um álbum/ instalação doidivanas chamado “Cold Pin”. E, agora, esse split “conceitual” com o Keith Fullerton Whitman – cuja homenagem à Eliane Radigue (“Issue Generator”), junto a “Madrid”, do Eleh, está entre as mais belas faixas lançadas na seara do drone este ano. Pode-se afirmar que com pontilismo de “Occlusion”, Whitman se deixou contaminar pelo aspecto maquinário e frenético da percussão de Keszler, cujos elementos batizam as faixas: “Drums, Crotales, Installed Motors, Micro-Controller Metal Plates” ou “Bowed Crotales, Snare Drum”. Mosaicos sonoros compostos por timbres indigestos, criando momentos de grande tensão, mas sempre vigorosos.

Ps.: Periga Keszler retornar ao Matéria com Ithaca, colaboração com o legendário Joe McPhee. A ver.

The Internet – Purple Naked Ladies (2011[2012]; Odd Future Records, EUA)
Na quarta, resenhamos o primeiro álbum das THEESatisfaction, uma dupla viçosa, hiperestilosa, que aposta na infusão soul/jazzy. Desta feita, lançaremos mais algumas fichas na dupla The Internet, o braço cool do Odd Future. Composto pela cantora e produtora Syd Tha Kid, DJ e engenheira de som do coletivo de Los Angeles, juntamente com Matt Martians, também membro e produtor, The Internet se caracteriza pela combinação de R&B, soul e jazz, mas com pitadas discretas de trip hop e dubstep – particularmente no que diz respeito aos timbres, não ao estilo ou aos ritmos. Triscando a seara do Sa-Ra Creative Partners, a dupla atinge momentos singulares com “Ode to a Dream” (com Kilo Kish & Coco O.), “She Dgaf”, “C*nt” e “Gurl” (com Pyramid Vritra), introduzindo, de forma discreta e sutil,  aquela quebrada rítmica característica do Odd Future. Mas, no geral, a coisa se resume ao tentáculo R&B dos caras. Aliás, eis um produção oriunda desse coletivo que não se presta a servir de trilha sonora para o massacre e a discórdia. 

Ps.: Será que, assim como ocorreu com o jamaicano Sizzla, o OFWGKTA também será barrado na Europa, em virtude de seu linguajar que não respeita as diferenças?


Bernardo Oliveira

quarta-feira, 25 de abril de 2012

(crítica – disco) THEESatisfaction – Awe Naturale (2012; Sub Pop Records, EUA)

























Em uma época em que o hip hop parece ter se desdobrado não só na diversidade de manifestações do rap americano, como também na auspiciosa proliferação ao redor do mundo (sobretudo na África e na América Latina), é no mínimo curioso que este disco apareça justamente pelas vias acinzentadas da Sub Pop. Parceiras de Sa-Ra Creative Partners e do Shabazz Palaces (que contaram com os backing vocals das moças no incensado Black Up, também editado pela Sub Pop), Stasia Irons e Catherine Harris-White compartilham o gosto por uma certa inflexão da cultura negra norte-americana, expressa no visual andrógino, colorido e elegante, como se a dupla figurasse na capa de 3 Feet High and Rising. Mas nem tudo é cor e glamour em Awe Naturale, primeiro disco da dupla THEESatisfaction. 



Como 3 Feet… e The Low End Theory, Awe Naturale sobressai pela harmoniosa combinação de muitos elementos: melodias simples convivem com harmonias incomuns, tapeçaria de vozes se sobrepõe à sutileza das percussões, a doçura dos vocais contrastam com as referências bem dosadas à luxúria soul de Marvin Gaye e às experiências antiquárias de Madlib. Mas esse aparente imbroglio, por incrível que pareça, resulta em um trabalho coeso, através de composições que sintetizam a candura easy listening do cool jazz, a pegada firme do rap e o minimalismo caro ao espírito da época. Repetições, timbres suaves (porém estranhos), dissonâncias discretas, quase imperceptíveis: Awe Naturale reivindica dois espaços incomuns no hip hop, entre a melodia pop e um grau de abstração entre o rap e suas fronteiras.

Da vinheta festiva “Awe” até a “impostura” de “naturalE”, Awe Naturale se mantém dentro de um equilíbrio difícil de sustentar: é jazzy sem ser Berkley (como na incrível “Existinct”); é arriscado sem ser pretensioso (como em “Crash”); se utiliza dos sons com propriedade, mesmo quando parece que vai desandar – como na gratuidade de “Enchantruss”, ou na vibe disco de “QueenS”

Pergunta-se: na última década, à exceção de Madlib e Georgia Anne Muldrow, quais os artistas do gênero que retomaram, inesperada e criativamente, a infusão jazzy que caracterizou o rap inovador de Tribe Called Quest e do De La Soul? Não posso garantir que os trinta minutos de Awe Naturale constituam uma resposta, mas que ela tenha vindo de Seattle já é motivo suficiente para surpresa. Porém, antes de mais nada, Awe Naturale é uma audição prazerosa e altamente viciante, que enfileira pequenos clássicos (refinados, discretos), como “Sweat” (Theo Parrish?), “God”, “Bitch” (matador!), “Deeper” (me lembrou Janelle Monáe), “Juiced”, et cetera. 

Bernardo Oliveira

segunda-feira, 23 de abril de 2012

(crítica - disco) Vatican Shadow - Kneel Before Religion Icons (2012 [2011]; Type Records, EUA)


























A guinada dada pelo Prurient em direção a uma sonoridade mais rítmica (como é o caso dos discos Bermuda Drain e Time's Arrow) é normalmente associada à parceria entre Dominick Fernow e Wesley Eisold no projeto Cold Cave. Trata-se de uma verdade, mas não de uma verdade absoluta. Para os fãs mais xiitas, discos como Pleasure Ground (2006) já apontavam indícios de mudanças em um futuro próximo. Mas foi no side-project Vatican Shadow que Dominick encontrou o lugar ideal para explorar loops de drum machine e sintetizadores atmosféricos. Desde o seu surgimento, o VS vem lançando álbuns em uma velocidade absurda (só em 2011 foram seis), e o ano de 2012 promete ser igualmente produtivo, com dois lançamentos até o presente momento: Iraqi Praetorian Guard (um álbum de remixes) e o relançamento em vinil de Kneel Before Religious Icons, originalmente lançado em Janeiro de 2011 em formato de cassette quadruplo e limitado a ridículas 33 cópias (tal excentricidade é uma constante no catálogo da Hospital Productions).

A idéia de um projeto de música eletrônica que tem tara por assuntos ligados ao cenário político/social/religioso oriente médio e sua conturbada relação com o ocidente não é tão original assim. Muito antes, o Muslimgauze explorou esse universo. Mas as semelhanças acabam ai. Enquanto o projeto de Bryn Jones construiu uma carreira mais direcionada para o experimentalismo e a IDM, o VS constrói camadas hipnóticas de synth por cima de beats de pouca variação.

Repetição talvez seja uma das palavras-chave de Kneel Before Religious Icons, drum loops que começam e terminam do mesmo jeito, deixando pro synth a tarefa de guiar a música. Em alguns momentos, resulta em uma melodia altamente dançante, como é o caso de "Church Of All Images", em outros, parece desaparecer em meio a um beat à beira do caos. O kick, muito presente no decorrer das oito faixas, é carregado de distorção e se assemelha a uma avalanche, amontoados em um formato vertiginoso. Em faixas como "Chopper Crash Marines' Names Released", os loops ganham o acréscimo de sons metálicos, inspirados na velha escola do industrial. "Worshippers at the Same Mosque" e "Final Victory..." têm linhas de baixo mais bem definidas e  beats mais firmes, um pouco diferente das demais faixas do álbum e mais próximas da sonoridade de seus trabalhos mais recentes. Um ótimo registro da faceta mais crua do Vatican Shadow, um excelente relançamento da Type Records.

Fica a dica: o debut Byzantine Private CIA tem seu relançamento (também em vinil) previsto para 2012.

Thiago Miazzo

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Minicrônicas Discográficas #17






















A Editora Subversos publicou em seu blog a primeira parte do meu protoensaio "A ofensiva Cultural: Compartilhamento de Arquivos, Audiofilia e Capitalismo", publicado no Matéria. Pretendo transformar estes dois protoensaios em um ensaio corrente, mas como se trata de um pasarinho em pleno vôo... # Entre as críticas de disco que publiquei na FACT nos últimos meses, destaco três lançamentos muito legais: Keepers of the Light, primeiro disco conjunto do coletivo inglês LHF,  e os novos EPs de 2562 e Falty DL, respectivamente Air Jordan e Mean Streets pt 2 # Também fiz uma galeria de atrações imperdíveis do Sónar São Paulo, que começa dentro de um mês # O Queremos fechou shows no Rio com Mogwai, Little Dragon e James Blake # Mais que isso: o Queremos também fechou com o incrível, genial, absoluto Tony Allen, com fortes doses de emoção. Tipo: faltam dois minutos e dois ingressos, vamos rapaziada! # Thiaguinho, cantor do Exaltasamba ao lado do excelente Péricles, disse (declarou? falou doidão? balbuciou pruma repórter? proferiu?) que se orgulha de "ter mudado um pouco a história do samba" e atribuiu isso ao seu estilo diferenciado de cantar, influenciado pelo R&B. Declaração infeliz, já que a tal mistura de samba com soul e R&B não é matéria propriamente nova. Porém, a declaração suscitou artigos e debates, entre os quais o publicado pelo crítico de arte, professor e ensaísta Fred Coelho em seu blog. Intitulado "Este não é um texto sobre samba", o artigo foi prolongado por um debate no Facebook, também publicado no blog sob o título "Este é um debate sobre samba" # Excesso, costume, malemolência? Qual o mistério do samba? # Câmbio, desligo.

Bernardo Oliveira



Electric Wizard – Legalise Drugs & Murder (2012; Rise Above Records, Reino Unido)
Legalise Drugs & Murder começa com o som característico de um bong, mostrando que as semelhanças com o disco Master of Reality não se limitam à capa. A faixa-título é um exemplar típico de stoner doom: traz peso, riffs de aspecto dopado e timbres inspirados na geração de 70. Já o lado B, "Murder & Madness", mistura riffs lentos com piano e vocal reverse em um formato pouco explorado pela banda.







Bruxa – Eye on Everybody (2011; Sweating Tapes, EUA)
Eye on Everybody, primeiro EP da Bruxa, é a trilha sonora perfeita pra uma sexta-feira 13. Beats pesados e linhas repetitivas que geram um clima soturno, com um pé no Witch House e o outro pé no post-dubstep. Enfim, uma artista antenada em tudo que tem rolado de mais legal na música eletrônica da década de 10. Não poderia deixar de citar os vários trechos cantados em português, com destaque para a linha vocal da faixa "Aqui", inspirada no funk carioca.





Macintosh Plus – Floral Shoppe (2011; Beer on the Rug, EUA)
O coletivo New Dreams Ltd me chamou a atenção pela temática: todo o universo do Macintosh Plus e dos demais artistas envolvidos gira em torno da tecnologia da década de 90, como o próprio nome sugere. Musicalmente, Floral Shoppe remete às músicas que escutamos nas estações AM – tão populares nos consultórios médicos – fazendo uso de intervenções como colagem e sons processados, resultando em uma sonoridade deteriorada.




Thiago Miazzo

quinta-feira, 12 de abril de 2012

(crítica – disco) Sidi Touré – Koïma (2012; Thrill Jockey, EUA [Mali])

























No último dia 06, o Mali foi palco de um golpe militar, poucos dias antes do lançamento de Koïma. Consta que um motim no quartel central do país, depôs o presidente Amadou Toumani Touré, enquanto o movimento separatista tuaregue MNLA tomava parte de Gao com ajuda de islamistas radicais, reivindicando seu estado independente, chamado “Azawad”. Temo não possuir estofo suficiente para discorrer com precisão sobre o tema, de modo que, para evitar equívocos, cito o historiador Gregory Mann, especializado em história da África francófona.

“Seria difícil exagerar a bagunça que foi feita do Mali na última quinzena. Um golpe de surpresa, uma rebelião acelerada que dividiu o país em dois, e um embargo econômico perpetrado por vizinhos do país sem litoral, têm castigado o que teria sido, até recentemente, uma história de sucesso no Oeste Africano. Acrescente-se a isso uma crise alimentar iminente na região nordeste, e temos uma bela bagunça! Mas o mundo não pode voltar atrás: o Mali é muito importante para amortizar os 20 anos de democracia no país como uma experiência fracassada.”

Os tuaregues, os mesmos que foram massacrados por forças militares francesas em meados da década de 40, reivindicam seu estado independente, dividindo o país, multiplicando conflitos, fragmentando histórias… Características comuns a estados unificados à forceps pela violência colonialista e federalista. Talvez por isso, e não pelo golpe de estado, que o lançamento de Koïma adquire um significado especial. Sua música testemunha que há nesta “bagunça”, localizada em um pedaço de terra ficticiamente delimitado, uma cultura viva e intercambiante,apesar das intempéries históricas. Esta cultura se exprime de forma brilhante nas canções, arranjos e sonoridades de Koïma.

A beleza do trabalho se deve à contribuição direta da cultura songhäi e da habilidade específica de Touré de conduzir seu ensemble e as canções. Acompanhado por um quarteto formado por violão, calabash, soukou (o violino malinês) e uma cantora, Touré apresenta uma outra faceta de sua música. Koïma difere bastante da beleza intimista e espontânea de Sahel Folk, lançado ano passado, soando como um passeio pelas ruas de Gao, através do entrelaçamento de arabescos do soukou e do violão e da percussão extremamente bem marcada. Pode ser encarado também como um songbook, uma seleção de canções arranjadas com sobriedade, sem prejuízo para a beleza idiossincrática de cada composição. Destaco “Ni see ay ga done”, “Woy tiladio” (em 3/4) e “Chacun Sa Chance” e “Tondi Karaa” como as que melhor representam a contribuição de Touré à apresentação e desenvolvimento da tradição songhäi.


Sidi Touré - Ni See Ay Ga Done from Thrill Jockey Records on Vimeo.

Sidi Touré e sua música nada podem contra a “bagunça” em seu país, assim como Fela Kuti não pôde sustentar sua luta contra a ditadura nigeriana, nem Bob Marley converter sua música “revolucionária” (com aspas, por favor) em melhorias efetivas para os jamaicanos. Mas, ao mesmo tempo, somente através da arte e dos artistas, tomados como grandes tipos culturais, se pode consolidar exemplos de que a dinâmica da concórdia e da criação podem servir de exemplo para todo um povo.

Bernardo Oliveira

terça-feira, 10 de abril de 2012

(crítica - disco) My Bloody Valentine – Loveless (1991 [2012]; Sony, Irlanda)


























O My Bloody Valentine anunciou que vai relançar o seu catálogo em edições remasterizadas. São três lançamentos: Isn't Anything (1988), Loveless (1991) e a compilação 1988-1991, contendo os quatro EPs lançados pela Creation Records, faixas instrumentais, b-sides e três músicas inéditas. Loveless ganhará uma edição dupla, contando com uma versão inédita, originada das fitas analógicas originais.

O grupo irlandês foi profundamente influenciado pelo pós-punk e bandas como Cramps e Jesus & Mary Chain, moldando sua sonoridade ao longo dos anos, resultando em um estilo completamente novo, marcado pelas guitarras potentes e carregadas de efeitos. Esse novo estilo de tocar guitarra, descaradamente copiado ao longo das décadas de 90 e 2000, serviram de influência para o primeiro disco do Smashing Pumpkins, além da cena alternativa brasileira representada por bandas como Pin-ups, Low Dream, Second Come e Sonic Disruptor.



Falar em Loveless é falar em obsessão – Kevin Shields investiu muito tempo e dinheiro regravando linhas de guitarra, procurando a gravação perfeita em um processo que se estendeu por dois anos. Em alguns momentos, a parede de distorção encobre os demais instrumentos. Explorando efeitos, a banda conseguiu construir um instrumental nublado, acompanhado por vocais preguiçosos e inaudíveis. Essa mistura entre intensidade e narcose é sentida logo de cara em "Only Shallow", alternando entre versos sonolentos e refrão pesado.

Em músicas como "When You Sleep" e "Sometimes", a veia pop da banda encontra espaço nas frestas do som, espremida por pedais fuzz, reverb e delay. A atmosfera ganha um ar mais denso nas faixas "To Here Knows When" e "Blown a Wish", repletas de experimentalismo e truques de estúdio, ajudando a moldar o estilo que futuramente seria conhecido como dream pop. A última faixa do disco, a hipnótica "Soon”, possui sonoridade dançante e foi responsável por redefinir o rumo da música pop. Seria injusto atribuir o sucesso a uma única faixa, pois a magia exercida por esse disquinho cor-de-rosa não se limita a hits, mas ao impacto provocado na música de sua geração, chegando à reedição de 2012 em um formato atual, influente e carregado de frescor.

Thiago Miazzo

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Minicrônicas Discográficas #16





















Sexta-feira santa tá aí, uma excelente oportunidade para largar mão do caos dos grandes centros e viajar – para nossa alegria – como diria aquele viral horroroso que se disseminou feito conjuntivite nas últimas semanas. Como é costume nas vésperas de uma viagem, faço uma seleção musical que dê conta do tédio da estrada e que, acima de tudo, proporcione um clima leve, tranqüilo. A seguir, três discos que pegaram carona na onda do chillwave e do vintage future, uma excelente pedida para o feriadão.


Occult You – Psychic Feelings (2012; independente, Japão)
Projeto paralelo do produtor japonês Taquwami. Diferente de seu projeto principal, mais focado no shoegaze e no dream pop, o Occult You investe no ritmo, misturando funk, disco, house, glo-fi e música pop. Lançou, também em 2012, o excelente single “Hardcore Pink”.




Teen Daze - Beach Dreams (2010; independente, Canadá)
Quando soarem os primeiros acordes de guitarra de "Let's Fall Asleep Together", sua viagem corre o sério risco de ter sua rota alterada. As harmonias vocais, o instrumental, a arte, enfim, todo o universo criado pelo Teen Daze remete à praia, tornando quase irresistível o desejo de passar pelo oceano, nem que seja só pra molhar os pés.




Slow Magic -  (2011; independente)
Pouco se sabe a respeito do Slow Magic, exceto que, desde 2011, o/a artista vem produzindo um chillwave alegre, uma espécie de ode à preguiça e ao lazer. Música para desfrutar uma tarde na rede, andar descalço, tomar gelado, entre tantos outros pequenos prazeres da vida.


Thiago Miazzo

terça-feira, 3 de abril de 2012

(crítica - disco) Grimes – Visions (2012; 4AD, Canadá)


























O Grimes, formado por Claire Boucher, é uma das grandes apostas para o ano de 2012. Nos últimos três anos, a moça vem trabalhando intensamente em seu apartamento, lançando três discos, além de um split com o D'eon. O rótulo "post-internet", cunhado pela própria artista, define sua obra e toda uma geração de músicos que transformaram seus próprios quartos em home-studios e utilizam as redes sociais como uma ferramenta de divulgação. A música dessa geração é global, pois dialoga com ritmos e cenas das mais diversas regiões e é veloz, por acompanhar as últimas tendências e ter um prazo de validade mais curto do que há dez anos atrás (consequência do acúmulo de informações da era pós-internet), tornando difícil rotular essa música em um único gênero.

Em Visions, o quarto lançamento de sua carreira e o primeiro pela gravadora 4AD, a esquisitice e a atmosfera sombria dos discos anteriores aparecem mais diluídos, resultando em um trabalho mais convencional e inclinado para a música pop. Arrisco dizer que nesse álbum o Grimes encontrou o seu ponto de equilíbrio, dosando com precisão suas influências mais agressivas, como o post-industrial, com a estrutura e a carga melódica do pop. Um dos grandes momentos do álbum – a faixa "Oblivion" – é um exemplo, com linhas de synth em loop, bateria minimal e vocal adocicado. Essa faceta intencionalmente pop também pode ser notada na melodia grudenta de "Genesis" e em "Be a Body", cuja meiguice nem mesmo o beat pesado consegue apagar. Em outros momentos, seu som soa robótico, como na faixa "Circumambient", atingindo o ápice no quase-dubstep de "Eight", com direito a vocal com pitch alterado, como se tivesse inalado gás hélio. 

E por falar em vocal, as melodias criadas por Claire continuam sendo o ponto forte do Grimes, contando com um primor poucas vezes encontrado em um artista iniciante, com destaque para a performance arrepiante da faixa "Skin", que flerta com o R&B. "Nightmusic" conta com a participação do namorado Devon Welsh (mais conhecido como Majical Cloudz) e tem um jeitão gelado, uma aura dark que aos poucos toma conta de todo o ambiente gerando certo desconforto, grande parte causado pela linha vocal no reverse. No fim das contas, o desconforto acaba tornando-se uma marca registrada no pop torto do Grimes.

Thiago Miazzo

Assista ao vídeo oficial de "Oblivion" e ouça as faixas "Nightmusic" e "Skin".