quinta-feira, 31 de maio de 2012

(crítica – disco) Actress – R.I.P. (2012; Honest Jon's, Reino Unido)



























Algo incentivou Darren Cunningham, produtor londrino, magricelo e sisudo, a autobatizar-se como “actress”, “atriz” em inglês. Me escapa o que justificaria uma escolha tão discrepante com a realidade! Mas sua arte não engana, e sobrevém a evidente disposição de encarnar e desestabilizar certas máscaras e papéis. “Encarnar” no sentido de dar à luz, concretizar, mas também na acepção crítica, muito comum ao português carioca, que traduz encarnar como “zombar”, gozar com a cara do outro… No caso, com a cara da “música eletrônica” e suas prerrogativas máximas: os ritmos, a pista, a ambientação, a alegria, o êxtase, as brumas… Reiterando o título horripilante, R.I.P. traz uma experiência extremamente oposta a qualquer artifício que vise promover o gozo coletivo. Trata-se de um álbum inconveniente, que porta a marca d’água da idiossincrasia, mas também da exuberância. Como é possível?

Cunningham não é exatamente um nome novo na seara da música eletrônica. Esteve lado a lado com Kode 9 em 2004, quando ambos já produziam na seara daquilo que viria a se chamar dubstep. Ocorre que o produtor se tornou um dos proprietários do selo independente Werk Discs, responsável por lançamentos do calibre de Zomby, Lukid e Radioclit, estacionando seu trabalho por quatro anos. Retornou em 2008, e lançou dois álbuns intrigantes: Hazyville e Splazsh (2010), confundindo o universo eletrônico mundial. Tive a oportunidade de constatar essa personalidade controversa, ao vê-lo fechar desastrosamente uma noite que contava com Ikonika e MJ Cole. Depois dos sets relativamente convencionais desses artistas, Cunningham entrou em cena misturando o miami-soul oitentista de “Truz’n’Vogues” com as faixas anômalas de Splazsh, produzindo um efeito kamikaze sobre a pista: esvaziando-a… 

Percebe-se em R.I.P. que perduram as premissas e estratégias que forneceram as bases para o que de mais interessante há em Splaszh: a abordagem estrutural do techno, do glitch e da ambient depositada sobre experimentos fragmentários, “incompletos”. São como prelúdios para uma música “séria” e adequada a seu tempo, mas que nunca se concretizam, porque se esvaem na perspectiva delirante do artista. Há momentos em que essa premissa se impõe, como no jogo de ruídos e melodias das belíssimas “Jardin” e “Holy Water”; há momentos em que o techno é comentado criticamente de longe, sob a forma invertebrada de “Shadow From Tartarus” e “Marble Plexus”; e há também os experimentos indecifráveis, que se explicam pela própria beleza, como nas modulações esquisitas de “Serpent” e no baixo repetitivo de “Caves Of Paradise”. Que haja uma relação de absoluta incongruência entre essas faixas, que esse "bolo doido" resulte em uma "obra", parece fruto dos artifícios dessa “atriz” capaz de trazer à tona um sentido muito próprio do termo “música eletrônica”.

Os títulos das faixas sugerem a incursão em algum universo mítico-literário, tal como a que caracteriza o belo álbum de Julia Holter, Tragedy, baseado na tragédia "Hipólito", de Eurípedes — como pode sugerir a “aparição” do anjo Uriel em “Uriel’s Black Harp”, citado em escritos bíblicos apócrifos e em obras de Shakespeare e John Milton. Mas, obviamente, o “ator” é puro disfarce, listando uma série de referências que prescindem de um sentido articulado: “jardim”, “serpente”, “árvore do conhecimento”, “cavernas do paraíso”, “descanse em paz”, “o graffiti do senhor”, etc. Esses títulos apenas aludem a um universo bíblico, sem tocá-lo efetivamente. Mais um passo em falso.

Sim, Actress é sisudo, mas é também um gozador, que zomba das convenções, muitas vezes adotando-as, esfacelando-as e recompondo-as como um candente deus ex-machina. Ele é, se me permitem, o verdadeiro “joker”, que veio para confundir, não para explicar. O célebre amigo inconsequente e genial que todos tivemos um dia, incapaz de depositar sua argúcia e criatividade sobre uma sequência de eventos mais ou menos interconectados, mesmo que isso por vezes se traduza em uma personalidade forte. Poucos trabalhos na seara eletrônica encarnam esse papel de forma tão vigorosa como o que desenvolve Cunningham sob o pseudônimo Actress, e R.I.P., longe de figurar como a suma de seu trabalho, fornece um relatório acurado sobre suas atuais obsessões.

Bernardo Oliveira

terça-feira, 29 de maio de 2012

(crítica – disco) Marconi Notaro – No Sub-Reino dos Metazoários (1973 [2012]; Mr Bongo, Brasil [Reino Unido])


























Marconi Notaro foi um músico e poeta recifense envolvido com o movimento Udigrudi (do qual faziam parte os já citados Flaviola, Lula Côrtes e Zé Ramalho). Por mais de três décadas, os discos ligados a esse curioso coletivo permaneceram no mais absoluto anonimato, com suas cópias originais nas mãos de colecionadores, pesquisadores da música brasileira e alguns gatos pingados que não faziam a menor ideia da preciosidade que tinham em mãos. Morto em 2000, o artista não teve tempo para desfrutar do reconhecimento tardio de sua obra. Cerca de seis anos depois de sua morte, o selo norte-americano Time-Lag (voltado para o psych-folk e contando com um cast formado por artistas como Brothers of Occult Sisterhood), assinou a primeira reedição de No Sub-Reino dos Metazoários. Em 2011, foi a vez do selo Mr Bong (selo inglês que relançou grande parte do catálogo Udigrudi e outros representantes da música brasileira). 

Em pouco mais de meia hora, Marconi Notaro passeia por ritmos regionais, folk, rock'n roll e psicodelia. A bolacha abre com o simpático sambinha "Desmantelado", celebrando a sinuca e a boêmia em uma atmosfera festeira, malandra, bem diferente das demais faixas do álbum. Em "Ah Vida Ávida", Notaro é acompanhado por Lula Côrtes na cítara e Zé Ramalho na viola, introduzindo a poesia concreta à flauta e à sonoridade do psych-folk. "Fidelidade" é meio frevo, meio rock'n roll com um baixo presente e passagens funkeadas de guitarra e "Made in PB" é fruto de (mais uma) parceria entre Notaro e Zé Ramalho, a faixa mais rock'n roll do disco, com destaque para a guitarra barulhenta e cheia de ecos de um inspirado Robertinho do Recife.

As Antropológicas ("Antropológica I” e "Antropológica II”) são mais experimentais, linhas grooveadas com jeitão de dub atropeladas por arranjos rasgadões de viola. E por falar em viola, é ela que guia a faixa seguinte, "Sinfonia em Ré", com cara de sessão de improviso e forte influência psicodélica, fórmula muito parecida com a aplicada no poema "Não Tenho Imaginação Pra Mudar de Mulher". O disco fecha com "Ode a Satwa", um psych-folk de palhetada firme e acordes secos, aos moldes da escola udigrudi.

Thiago Miazzo

quinta-feira, 24 de maio de 2012

(crítica – disco) Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. – Son of a Bitches Brew (2012, Important, EUA [Japão])


























A música do Acid Mothers Temple pode espantar à primeira vista, em virtude da cacofonia aparentemente gratuita, do amontoado de camadas sonoras, do “bleep’n’blop” que traduz as intervenções eletrônicas — com o perdão do neologismo. Por outro lado, não são poucas as referências que incrementam o “harsh rock” psicodélico de Kawabata Makoto: Black Sabbath, King Crimson, Funkadelic, Pink Floyd, Gong… Vale ressaltar, porém, que estes artistas não servem exatamente como referência, no sentido de “modelo”, mas como matéria-prima para que Makoto e sua “família” — à moda de um Sun Ra supersônico — invistam com saudável irreverência sobre a música, a imagem e o arsenal simbólico que deu forma e sentido ao rock dos anos setenta. No caso do presente trabalho, Makoto se dedicou à (re)(des)construir clássicos da fase elétrica de Miles Davis, tais como On The Corner, Water Babies, Tribute to Jack Johnson e, é claro, Bitches Brew, resultando em uma incomparável cornucópia de ruídos e estridências.

Abrindo o disco, a faixa título: “Son of a Bitches Brew” é, evidentemente, uma releitura anárquica da célebre improvisação dirigida por Miles Davis no disco homônimo. Percebe-se o método do Acid Mothes Temple em funcionamento, ainda que a sensação geral seja de desamparo e um certo grau de “vandalismo”. O eixo harmônico até se preserva através do improviso do saxofone tenor, mas definha conforme emergem as inúmeras intervenções eletro-eletrônicas, dando a aparência de desorientação programada. Na sequência, a suposta combinação de uma suíte pinçada de On The Corner, “Helen Butte” e “Mr Freedom X” (que se transformam em “Helen Buddha, Miss Condom X”), na verdade contradiz o groove das originais com brumas e ruídos produzidos pelas guitarras e sintetizadores. Na sequência, dois tour de force, “Fellatioh's Dance Also Bitch's Blow” e “Water Babies Kill Kill Kill”, e, finalizando, três faixas menores, que ainda assim, reiteram o espírito excessivo, desregrado, porém rigoroso do coletivo — entre elas "Theme From Violence Jack Johnson", uma tentativa de descaracterizar a clássica homenagem do músico americano ao célebre boxeur

Assim, o que mais chama a atenção em Son of a Bitches Brew não são as fontes mesmas das quais ele retira sua inspiração, e que definem o padrão criativo e operacional do coletivo. Mas a forma de apropriação criada por Makoto no final da década de 90, baseada na desconfiguração alusiva dos modelos, destacando ironicamente seus traços distintivos, seja pela via do excesso de volume e densidade, seja pela justaposição de camadas sonoras. Em todo caso, Son of a Bitches Brew indica uma abertura do cenário de influências do grupo, o que pode sugerir surpresas ainda mais interessantes no futuro. 

Bernardo Oliveira

terça-feira, 22 de maio de 2012

(crítica - disco) Aaron Dilloway – Modern Jester (2012; Hanson, EUA)


























Aaron Dilloway é um músico norte-americano envolvido em um número incontável de side-projects e colaborações, mais conhecido por ter feito parte do grupo Wolf Eyes. Em 2005, Dilloway deixou a banda e mudou-se para o Nepal, onde continuou produzindo experimentos voltados para o field recording e a non-music. Alguns trabalhos dessa fase são um tanto excêntricos, como a trilogia Radio Nepal, composta por gravações aleatórias de rádios locais, sem intervenções ou qualquer tipo de manipulação. Além de seus projetos musicais, o artista também é dono da Hanson Records que, além de lançar trabalhos de artistas como Kevin Drumm, Emeralds, Hair Police e Prurient, lança seus próprios trabalhos, entre eles o Modern Jester.

É importante saber que Modern Jester foi lançado pela primeira vez em 2008, nos formatos cassette e CD-R, mas não se trata de um simples re-release. Apenas a faixa "Eight Cut Scars (For Robert Turman)" foi mantida, tudo mais é diferente. O Modern Jester em questão, lançado esse ano em vinil duplo, é fruto de três anos de trabalho e, segundo Dilloway, traz mensagens subliminares ao longo de todas as faixas do disco. Trata-se de um trabalho calcado na tape music, mas que flerta com todas as possibilidades que estão ao alcance da sua proposta.

A sonoridade hostil das fitas manipuladas e as frequências mais agudas podem assustar em uma primeira audição, mas não tanto quanto a desconfortável sensação de insegurança, o sentir-se vulnerável e não fazer a mínima idéia do que está acontecendo exatamente e o que mais está por vir. "Tremors", por exemplo, vem acompanhada de uma nauseante sensação de instabilidade, muito próxima daquele medo que a gente sente quando pisa em falso em um degrau. Tal instabilidade é ainda mais perceptível quando a audição vem acompanhada de um (bom) par de fones de ouvido. Enquanto um lado do fone mantem o foco no mesmo loop, o outro lado emite uma sonoridade indecifrável, beirando a cacofonia. 

Ao longo da já citada "Eight Cut Scars", a estrutura sônica vai ganhando novas formas em um ritmo lento, progressivo, dando ao ouvinte o tempo necessário para reconhecer a melodia e acompanhar suas mudanças. Seu formato hostil e seus momentos de precisão matemática soam como um reflexo torto das bandas limpinhas de math rock da década passada. Os quase 19 minutos de "Body Chaos" arrastam o ouvinte para um universo cheio de cliques, fitas zoadas, máquinas a vapor, sons de latidos processados (uma técnica que já havia sido explorada à exaustão por Jordi Valls, um dos pioneiros da música industrial e o cabeça do Vagina Dentata Organ), além de outras peripécias oriundas da field recording e do harsh noise. 

Uma experiência confusa, repleta de passagens opressoras e momentos de um vertiginoso acúmulo de informação, mas que possui o incrível poder de envolver o ouvinte até o fim, nem que seja apenas pela curiosidade de conhecer o final de tão complexa obra. É assim o Modern Jester: ao mesmo tempo que cativa, desgasta.

Thiago Miazzo

terça-feira, 15 de maio de 2012

(crítica - EP) Marie Dior – 7 (2011; Aural Sects; Portugal)



























Marie Dior é a alcunha de Diogo Correia, um jovem músico português que também integra as bandas CFT&CM e Skater Police. Ao longo de 2011, Marie Dior lançou uma sequência de álbuns digitais e remixes em plataformas como o bandcamp e net-labels.

Mesmo se tratando de um projeto relativamente novo, o Marie Dior passou por diversas transformações. Mesclando ao longo de sua carreira influências pouco harmônicas, como o dream pop e o digital hardcore, Diogo Correia direcionando o seu som para um mix entre witch-house, post-dubstep e techno em seus últimos trabalhos, 7 e Sore (ambos pelo netlabel Aural Sects). O vocal, uma constante em obras anteriores (como o ep Expensive Hosiery) desaparece quase por completo. Limitando ao máximo o seu uso, o recurso acabou por valorizar-se, dando maior destaque às músicas.

7 foi lançado em Outubro de 2011 e teve a participação direta de Diogo em todas as etapas do processo, da arte de capa até a gravação e masterização. A primeira faixa, "Tropic of Dissent" traz synths comprimidos e beat minimal, acompanhado por uma linha vocal que estrutura a música de uma maneira mais convencional, algo próximo do verse-chorus-verse. O sintetizador de "Glass Room" tem uma melodia bem familiar. Trata-se de uma linha de synth com um bom caimento, mas ao mesmo tempo, comum. Acho que todo mundo que ouvir vai acabar a associando a alguma música, ou pior, vivendo o drama do "me lembra uma música que eu não consigo lembrar qual é".

"From The Rave To The Scars" tem a melodia mais caótica do disco e vocais intensos, mas abafados pela mixagem. É curtinha, pouco mais de um minuto, mas na medida certa — os timbres ardidos de teclado tornariam difícil a sua audição caso fosse muito extensa. A última faixa do EP, "Nascar Classics (Deathcar)" flerta com o old school techno e o happy hardcore. O EP começa de um jeito e termina de outro completamente diferente, mas conserva nos synths uma aura gelada, mostrando que mesmo sem seguir uma linha pré-determinada, o trabalho de Diogo Correia é dotado de identidade. Ouça o 7, ouça o Sore e fique atento aos próximos.

Thiago Miazzo


sexta-feira, 11 de maio de 2012

Minicrônicas Discográficas #19





















Depois de um Viradão Paulista repleto de pérolas do passado, um Sónar dedicado a desvendar estéticas do futuro. Será? De um lado, uma seleção de artistas que, aparentemente, prefiguram atualizações de uma determinada perspectiva da música do passado, e, supostamente, se afastam do turbilhão contemporâneo para entrar para a história: Mcoy Tyner, Ebo Taylor, Tony Allen, Titãs, Suicidal Tendencies, apresentados em conjunto, soam como um amálgama consideravelmente pós-nacional, no qual as identidades sonoras são entrecortadas por uma consciência cultural ampliada pela mescla de cultura digital e cultura online.

De outro, os artistas uptodate do Sónar, prontos a demonstrar os caminhos possíveis de novas estéticas e formas de trabalhar com o som, igualmente beneficiados pelas condições técnicas e culturais do presente: KTL, Four Tet, Rustie, Flying Lotus, entre outros, representariam algumas das formas sonoras de um futuro ao mesmo tempo longínquo e aterradoramente presente; indicariam, portanto, uma incômoda sobreposição de todos os tempos possíveis. Mas será que é possível de fato traçar o panorama sonoro destes dois eventos de acordo com a régua estreita da relação entre passado, presente e futuro?

Me parece que a música de Ebo Taylor, Mcoy Tyner, Kraftwerk, Gang do Eletro, KTL, Rustie, Takara, etc, não sendo propriamente “atemporais”, são perfeitamente assimiláveis como estéticas que alimentarão o futuro, independente dos descaminhos e interpretações gerados por um período em que o "grande mercado", integrado e organizado, ditava as regras. Isso porque quem fornece a medida justa e adequada para sondar a importância desses artistas não é mais o “Tempo” nem o “jornalismo” — ambos tomados, cada um a seu modo, como entidade metafísica autônoma —, mas nós mesmos, os indivíduos que escutam, processam, assimilam, obtém prazer e gosto pela vida com esses artistas, através desses artistas…

Ps.: Leiam aqui a entrevista que fiz com Stephen O’Malley, líder do Sunn O))), a respeito da sua colaboração com Peter Rehberg, o KTL. Assista ao Sónar ao vivo pela web, saiba como aqui.


KTL — V (2012; eMego, Áustria [EUA/Reino Unido])
Stephen O’Malley e Peter Rehberg chegam ao quinto álbum elevando a experimentação do KTL a um outro patamar. A aparência uniforme dos trabalhos anteiores, dá lugar a uma diversidade interna inesperada, fruto da ramificação das experiências e trabalhos nos quais a dupla se envolveu desde o último trabalho, de 2009. “Phil 2”, por exemplo, conta com arranjos do compositor e produtor islandês Jóhann Johanson, executado pela Filarmônica da Cidade de Praga, conduzida por Richard Hein. Já a dramática (e escatológica) “Last Spring: A Prequel”, é produto do trabalho de Rehberg e O’Malley com a coreógrafa e diretora de teatro Gisèle Vienne. De uma forma geral, V é mais um relato de navegação, uma narrativa em progresso, do que propriamente um álbum fechado e definido.


Four Tet – “Ocaras” e “Jupiter” (2012; [radiorip/soundcloud], Reino Unido)
Prestes a chegar ao Brasil, o prolífico Kieran Hebden liberou/deixou vazar/ deu mole/vazou/ duas faixas novinhas. Não bastasse a colaboração incrível com Burial, “Nova”, Hebden soltou dois petardos. O primeiro, “Ocoras”, é um techno minimalista, conta com os habituais timbres invulgares e uma batida que alterna prodigiosamente a marcação do tempo, vazou no programa de Gilles Peterson, BBC Radio 6. 



Uma introdução “komische”, seguida da batucada techno de primeira linha, e uma coda frenética marcam “Jupiter”, cuja textura percussiva é, mais uma vez o grande atrativo. 



Squarepusher – Ufabulum & Enstrobia (2012; Warp Records, Reino Unido)
Não nos iludamos: o Squarepusher mais radical e interessante é o primeiro, aquele de Feed Me Weird Things e Hard Normal Daddy. Trabalhos como Hello Everything e Just a Souvenir não só demonstram uma estranha guinada ao universo musical stricto sensu, como também exibem um narcisismo instrumental que… Bem, meio chato... Mas Ufabulum traz algumas faixas que não só estimulam os fãs do passado a visitarem sua apresentação no dia 12, como também conta com faixas muito interessantes como “The Metallurgist”, “303 Scopem Hard”, “Ecstatic Shock” e a interessante “Dark Steering”, cujo clipe o leitor pode assistir abaixo.

Bernardo Oliveira




Escarlatina Obsessiva – The Organ Grinder Song (2012; Zorch Factory Records, Brasil)
O duo originário de São Tomé das Letras lança o seu quinto disco, The Organ Grinder Song, o mais maduro e atmosférico de sua discografia. Com suas raízes no post-punk e no gótico, a dupla não abre mão de outros instrumentos pouco convencionais ao estilo, como o sax e o acordeão.




Girlfriends – Over Me (1989 Tape Version) (2012; Young Girl Tapes)
Com uma levada funkeada e inspirado no chill e no house europeu, o Girlfriends faz parte do cast da Young Girl Tapes, selo português que também conta com o excelente ∆'glr. Enfim, vale uma conferida, não só pelo Girlfriends, mas por todas as faixas inclusas no Soundcloud da Young Girl Tapes.
Ouça: http://soundcloud.com/younggirlstapes/girlfriends-over-me-1989-tape



Mediafired - The Pathway Through Whatever  (2011[2012]; Beer On The Rug, EUA)
The Pathway Through Whatever reune os álbuns e-rado / Shit´s Cold / Roam As You Are, originalmente lançado em 2011 pela Exo Tapes em formato cassette em uma edição limitada de 32. Musicalmente, o Mediafired explora a temática da colagem, usando e abusando de loops e alteração de pitch. Não se espante se, no meio do disco, você reconhecer a melodia daquela baladinha manjada do Van Halen (quem encontrar o loop ganha um doce). Relançado em formato digital pela Beer on the Rug.
Ouça: http://beerontherug.bandcamp.com/album/the-pathway-through-whatever

Thiago Miazzo

quinta-feira, 10 de maio de 2012

(crítica - disco) Cluster – Zuckerzeit (1974[1995], Polydor K.K., Alemanha [Japão])


























Antes de gastar o tempo de vocês com palavras que não resultarão em música, peço desculpas pelo desleixo da estréia. Em semana de Sonár, mudanças e céu claro, fica bem mais difícil pensar em qualquer coisa legítima para se dizer sobre um grande disco.

A ida à 5a Feira de Discos de Vinil do Rio de Janeiro, que ocorreu no Instituto Metodista Bennett no último domingo (uma verdadeira reunião entre o amor profundo à música e um mercado supervalorizado — as "belas" contradições liberais...), me fez querer escrever sobre algum dos achados do dia. Na falta de tempo e de um toca-discos montado em casa, resolvi ficar mesmo com um clássico pessoal que, na minha modesta opinião, é um dos discos que mais definiu sua época além de apontar diversos caminhos para a música do presente (em um momento em que a noção de sucessividade talvez já não seja a linha narrativa principal).

O álbum é Zuckerzeit (ou em português “tempo de açúcar” — um nome altamente irônico), lançado em 1974 pelo Cluster, duo alemão formado por Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius — nesse registro operando basicamente como um quarteto, com as participações fundamentais de Michael Rohter (do Neu!) e do engenheiro de som Conrad Plank. O nome já introduz o que há por vir: o tempo que se derrete e melodias mais grudentas do que aquelas presentes nos trabalhos anteriores do conjunto. Isto não significa uma menor densidade: o caminho aparentemente simples acaba por se tornar um grande labirinto.

De cara somos assaltados pela majestosa “Hollywood”. A presença de Rohter é inegável — a batida “motorik” (batida reta que é uma das principais características do "krautrock" clássico — batida que se assemelha a um motor), timbres mais brilhantes e estrutura melódica aparente. No entanto, definitivamente não estamos no mesmo território do Neu! ou de qualquer outra banda desse período do "krautrock". O que começa reto se torna, discretamente, uma curva. O ponto de partida é a simples sequência cíclica Bb-Db-Ab-B-Db-Eb, a qual se somam diversas variáveis, nenhuma completamente estável ou com a mesma divisão rítmica. Esse será o principal método do disco, apesar da diversidade de faixas. O grande êxito do Cluster, que ainda se mostra uma bela lição, é mostrar que o uso do loop e do sequencer não precisa sobrepujar completamente o interplay: o álbum ainda soa como o trabalho de uma banda, no sentido mais próprio do termo.

A próxima faixa é “Caramel”, uma música ainda mais direta. Espécie de precursora das explorações acid do brilhante Richard D. James (quando ouvimos uma faixa como “Breath March”, do compacto Analord 4, fica quase impossível não lembrar de “Caramel”), apresenta toda força do grupo. Uma faixa de potência pura, marcado pelo contraste entre uma linha de baixo hipnótica e uma linha de "solo" vacilante. Em menos de 3 minutos, ela marca de tal forma que poderia durar quase eternamente em uma louca pista de dança, sem entediar os presentes. O pulso diminui, se mesclando com o experimento pré-glitch de “Rote Riki”. Os sintetizadores modulares tomam a dianteira, construindo esta bela paisagem sonora difícil de descrever. Não é exatamente como a chamada "estética do defeito" do glitch, mas uma bela apologia à inexatidão dos sistemas modulares e seus sons infinitos. Música concreta sem academicismo e conectada ao mundo, sem ignorar as contradições e ruínas do entorno alemão.

“Rosa” trabalha também com a idéia de paisagem, no entanto, se aproxima desta de forma totalmente diversa. Uma paisagem nostálgica e melódica, para deixar Daniel Lopatin envergonhado de fazer música. Sequências em modulação de tom em conjuntos com linhas em deslize e atacadas correndo paralelas. Domínio completo das técnicas de síntese aplicadas no fazer musical.

Daqui para frente, para não se tornar completamente supérfluo, prefiro não seguir descrevendo música por música mas comentar aspectos também importantes que ainda não foram explicitados (ah desleixo! — mas é mesmo melhor ouvir do que ouvir falar). É só a partir deste momento do disco que as guitarras invadem o som. Não da forma típica, mas também de uma forma clarividente. Em “Caramba”, elas entram para confundir a sequência dançante, próxima até da usina sonora do Kraftwerk, trazendo de forma condensada a mentalidade anárquica do Cluster. Sons de guitarra desafinados dominando a sequência básica da faixa levando progressivamente até o fim. Em “James”, a guitarra se torna o fundamento. Temos um Cluster completamente diferente, trabalhando com os restos do blues primordial como vieram a fazer depois Marc Ribot, Bill Frisell e o Earth na fase mais recente. Frases são sobrepostas em loop até se esgotarem. Isso não significa uma descaracterização — tudo é muito bem integrado no álbum, que segue, após esse curto apocalipse, com a doce batida reta de “Marzipan”.

Essa viagem, capaz de amenizar qualquer dia excessivamente quente ou atarefado, termina com “Heiße Lippen”, outro na qual Roedelius recapítula a viagem de “Hollywood”, para terminar com um brevíssimo sample de uma banda de exército ("não esqueçamos do nosso tempo" parece dizer esse curtíssimo som).

Esse álbum, tão fundamental por apresentar brilhantemente diversas facetas do "krautrock" sem perder seu fluxo e brilho único, deu origem ao Harmonia, grupo formado pelos responsáveis pelo Zuckerzeit (com Michael Rohter assumindo a liderança). Zuckerzeit continua sendo fundamental e ainda aponta caminhos para serem trilhados e deturpados devidamente. Um belo álbum para se ouvir com calma e descascar aos poucos.

Sávio de Queiroz

quinta-feira, 3 de maio de 2012

(crítica - disco) Fenn O’Berg – In Hell (2012; Editions Mego, Áustria [EUA/Reino Unido])


























Imagine uma experiência musical comparada a uma viagem de trem. Pouco importa a procedência daquilo que é visto pela janela, se são florestas, cidades ou propagandas. As paisagens se sucedem conforme o trem se movimenta, a transitoriedade dos objetos formam cores, marcas, plantas, formas borradas pela velocidade ou mais ou menos definidas pela desaceleração. Alternando ambientes sinistros e reflexivos, mas também incorrendo em experimentação de primeira ordem, há algo em In Hell que dá suporte para a imaginação delirar. Música não para os ouvidos ou para satisfazer o apetite por canções, mas para fornecer subsídios para este vasto campo que é a imaginação.

Ora, o que se pode esperar de um trio de música improvisada formado pelo compositor e guitarrista austríaco Christian Fennesz, pelo multiinstrumentista e faz-tudo Jim O’Rourke e pelo experimentador inglês Peter Rehberg (mais conhecido como Pita)? Desde 1998 na ativa, primeiramente batizados com seus respectivos sobrenomes, o Fenn O’Berg chega ao quarto álbum de carreira apostando precisamente no mesmo formato: música improvisada sobre elementos pré-gravados, elaborada exclusivamente com o auxílio de laptops turbinados. In Hell traz, mais uma vez, a improvisação e a saturação, mas isto é apenas o conceito.

Registrando a turnê de In Stereo no Japão em 2010 (Oita, Hiroshima, Fukuoka, Kyoto e Nagoya), In Hell se distancia e se aproxima simultaneamente da dobradinha The Magic Sound of Fenn O’Berg (1999) e Return of Fenn O’Berg (2002), reunidos em 2009 com sob o título Magic & Touch. Sendo a primeira experiência de estúdio do grupo – gravado no GOK Studio, que serviu de base a uma série relevante de artistas e projetos japoneses, como o Ruins, Otomo Yoshihide, Merzbow, entre outros – In Stereo se situa evidentemente em outro campo sonoro. Se a princípio, o contraste é evidente entre este e o díptico inaugural, pode-se dizer que In Hell se encontra em um registro intermediário, açambarcandoo tanto a “digitaria” descompromissada e voluptuosa dos dois primeiros, como também as texturas silenciosas que sustentam muitos dos grandes momentos de In Stereo.

Trata-se, portanto, de uma experiência conciliadora, próxima a um universo “musical” no sentido pejorativo do termo? (Sim, “pejorativo”, pois quando nos habituamos a um artista que explora as bordas do som, dificilmente deixamos de interpretar sua guinada às melodias e harmonias como acatamento…). Pelo contrário: “Christian Rocks” e “Vampires Of Hondori” se aproximam do vandalismo dos primeiros discos, ao passo que o espaçamento ambient, com toques substanciais da guitarra saturada de Fennesz, dá forma e sentido à “Omuta Elegy”, “Concrete Onions” e “It Came From Nagoya”. Percebe-se a exploração propriamente artística de uma gama de sons híbridos e variados, compostos por sequência harmônicas, melodias esparsas, field recordings, ferro-velho digital, noise, trechos de faixas pré-gravadas, patterns, objetos despencando pelo chão e toda a sorte de sons estranhos que se possa imaginar.



Pode-se atribuir um caráter experimental às cinco faixas, mas me parece igualmente necessário afirmar que essa experiência é transmissível ao ouvinte. Antes de mais nada, In Hell é, como afirma o título, um convite para visitar o inferno, mas o inferno como a metáfora da impossibilidade, do desconhecido e do imprevisível ("O inferno são os outros..."). Mais do que isso: sem que este mesmo ouvinte se abandone ao delírio e à imaginação, todo o trabalho profundamente desafiador contido em In Hell vai por água abaixo. Eis uma obra que carece da vossa cumplicidade, sob pena de restar incompreendida nas labirínticas prateleiras do gosto contemporâneo.

Bernardo Oliveira

terça-feira, 1 de maio de 2012

(crítica - disco) Bambara Mystic Soul: The Raw Sound of Burkina Faso 1974-1979 (2011; Analog Africa, Alemanha)


























No final de 2011, a Analog Africa, o selo do pesquisador, colecionador e DJ alemão com nome mezzo indiano, Samy Ben Redjeb, lançou mais uma coletânea de raridades musicais africanas. O “elo perdido” da vez fica em Burkina Faso, ex-Alto Volta desde 1984, circunvizinhado por Mali, Níger, Benin, Togo, Gana e Costa do Marfim. Já de saída, conclui-se que, partindo do princípio de que o período compreendido pela presente compilação vai de 1974 a 79, todos os músicos que se apresentam no álbum atendiam, então, pela condição de alto voltenses. A prospecção dos compactos de 45 RPM realizadas por Redjeb rendeu descobertas preciosíssimas. A seleção é particularmente muito feliz, e, fora de dúvida, traz o protagonismo do famoso artista local Amadou Ballaké, que já havia dado o ar da graça em outras coletâneas produzidas não exatamente sob esse critério nacional, mas sempre sob o da referência ao continente a que Burkina Faso, “A Terra dos Homens Íntegros”, pertence.

Levando em conta a sua localização cartográfica, Burkina Faso parece ser mesmo dotada de uma confluência cultural incontestável. E uma obra como Bambara Mystic Soul não parece querer provar o contrário. (Bambara é o idioma preponderante no Mali, e tem parentesco direto com o dioula, falado “oficialmente” em Burkina Faso.) Nela, tradições musicais já assumidamente híbridas de outras “nacionalidades” africanas são automaticamente audíveis. Hibridismo que é tomado por “modernidade”, segundo a capacidade de entendimento de muitos – ainda. O conceito de fronteiricidade aparenta definir, em parte, o perfil do repertório da presente coletânea. “Em parte” porque até países que não tangenciam Burkina Faso no mapa parecem contribuir com a sua formação sonora (e, por reciprocidade, supõe-se que sejam agraciados com a mesma generosidade). Daí, ecos de bandas e artistas africanos do período sejam notados sem muito esforço, o que só reforça a ideia de que o câmbio entre os mesmos foi complexo, fora das reduções do esquematismo evolucionista que ainda teima em ditar regras até entre quem se julga apto a – criticamente – julgar música. E, claro, que se retome a tese meio gasta, aqui, mas necessária: quase sempre sob a égide da deflagração do funk, fenômeno de ruptura rítmica cujos efeitos orientam a indústria musical até hoje (reserve-se o direito de julgar se para o Bem ou para o Mal, já que não é, definitivamente, o que está em questão aqui).

Mas ainda não é possível fugir do tema...

Em meados dos anos 1960, James Brown e os J.B.’s não teriam como imaginar a longevidade do ritmo que criaram  como um meio de conferir, naquele momento, ainda mais peso e agressividade ao soul já consideravelmente sincopado que executavam. As diversas derivações que o funk assumiu ao longo do tempo são o testemunho dessa longevidade. Afirmar isso não é corroborar, agora, o evolucionismo musical desqualificado linhas acima, mas reconhecer que o movimento contínuo de apropriação e reapropriação que a dinâmica da música negra não se cansa de promover é muito mais evidente do que se suspeita. Ou seja: ter em mãos Bambara Mystic Soul é uma rara oportunidade de constatar a permanência do que se produziu num país historicamente à margem dos circuitos de difusão e consumo da grande indústria cultural. Apesar do potencial de diálogo amplo e frutífero que o seu repertório já apresentava com o seu tempo – e, claro, com o nosso –, talvez estejamos mesmo agora no terreno da atemporalidade, apesar de certa arbitrariedade crítica que este conceito encerra.

Amadou Ballaké, nosso homem em Ouagadougou, comparece em seis faixas: quatro com a clássica Orchestre Super Volta, e duas com os Les 5 Consuls. O conjunto Afro-soul System, com “Tink Tank” e “Oye Ka Bara Kignan”, de Ballaké, à frente da Super Volta, fornecem a prova da irmandade atávica entre os ritmos locais com o então relativamente recente black soul. E não seria de estranhar que “Love, Music and Dance”, com a sua levada disco funk, figurasse no repertório da beninense Orchestre Poly-Rythmo. E, curiosamente, já que falamos em voodoo funk, não é equivocado dizer que “Katougou”, de Traoré Seydou Richard e seus Les Vaudou Du Flamboyant, traz certo acento islamizado no vocal do seu homem de frente, apesar do nome que ostenta a sua banda de apoio. Curiosamente, o sato e o sakpata, ritmos vodu que fornecem a matéria-prima para a fusão com o funk e outros gêneros que a Poly-Rythmo promove, parecem não ser (salvo engano – afinal, a incerteza é quase regra na nossa contribuição à pauta africana do Matéria) as batidas que conduzem esta composição em particular.

Ainda sobre Ballaké, não é difícil perceber o quanto “Renouveau”, executada conjuntamente com os seus Les 5 Consuls, é a mais atmosférica de todas as faixas presentes na coletânea. Como admite no encarte, Redjeb demonstrou espanto ao descobrir que a sua letra trata do projeto reformista de fundação do “governo de Renouveau”, em fevereiro de 1974, quando ele julgava que o seu conteúdo poderia estar mais relacionado a uma viagem espacial do seu autor a bordo de um Sputnik de cuja janela vislumbrasse o planeta Terra – uma imagem pertinente, sem dúvida. O fraseado da guitarra de “Tond Yabramba”, de Sandwidi Pierre e sua Orchestre Harmoine Voltaïque, remete às trilhas dos clássicos westerns de Sergio Leone assinadas por Ennio Morricone. Confessadamente inspirado no trabalho de cordas da surf music norte-americana, na linha dos Ventures e dos Shadows, Morricone criou uma ambiência sonora não exatamente desértica, mas sugestiva de ermo sob sol escaldante. E que se tornou referência para o gênero, a partir da visualização das extensas pradarias que servem de cenário para a “Trilogia dos Dólares”, protagonizada pelo personagem inominado de Clint Eastwood. É curiosa a relação entre essa fabricada paisagem sonora praiana e a outra, árida, cuja amplidão recortada por canyons passaria a “abrigar” um estilo tão próximo na levada e na reverberação das guitarras.

Ousamos dizer que essa mesma ambiência aparenta, mesmo que inconscientemente, ser resgatada por uma composição que é, por princípio e definição, um objeto da cultura de Burkina Faso, país subsaariano, mas repleto de desertos ao norte. (E que, como já se disse aqui, situado no centro de tantos encontros geográficos e culturais da costa ocidental africana.) Portanto, “Tond Yabramba” talvez seja a segunda canção mais atmosférica do álbum. “Zambo Zambo”, de Mamo Lagbema, e “Sie Koumgolo”, de Coulibaly Tidiani, remetem ao som das clássicas orquestras guineenses Bembeya Jazz Orchestra e Balla Et Ses Balladins. Mangue Konde, secundado aqui pela banda Le Super Mandé em “Kabendo”, com a sua estrutura meio de soukous congolês, é um artista pop que merece uma coletânea dedicada exclusivamente ao seu talento. E a presença desta faixa específica na coletânea é só mais uma confirmação disso. 

Bambara Mystic Soul é uma peça inestimável de prospecção musical, seleção de repertório e pesquisa – no sentido mais extenso do termo (vide o encarte). A tendência atual de selos como a Analog Africa em realizar compilações com estes recortes de nacionalidade e de período musical merece toda a atenção disponível (OK, o conceito de nacionalidade é cultural e historicamente complexo no contexto africano, mas este não é o espaço para se discutir isso a fundo). É de se lamentar que essa música não tenha tido o seu valor reconhecido, como já se disse, num circuito mais amplo de difusão, para fora do seu espectro de origem. E, também que, para sanar isso, os esforços de Samy Ben Redjeb tenham sido tão tardios. Mas não por sua culpa. Outro que o precedesse na mesma tarefa também estaria inevitavelmente condenado ao êxito. É que só hoje podemos avaliar o preço que foi não ter havido antes, neste mesmo solo precioso, semelhante garimpagem.

Lucio Branco