sexta-feira, 29 de junho de 2012

mixhaps, perhaps...























sequência mixada descontínua incompleta extraída do que de melhor rolou nesses últimos 3 (ou 4) meses... (vlw Zahle, pela força)




Eli Keszler: "Drums, Crotales, Installed Motors, Micro-Controller Metal Plates"
Dean Blunt and Inga Copeland: "Venice Dreamway"
Sun Araw, M. Geddes Gengras & The Congos: "Happy Song"
Curumin: "Treme Terra"
THEESatisfaction: "Deeper"
Maga Bo: "O Neguinho" (com Biguli)
Mark Ernestus apresenta Jeri-Jeri com Mbene Diatta Seck: "Xale"
Ben Vida: "Ssseeeeiiiiii"
Killer Mike: "Big Beast" (com Bun B, T.I., Trouble)
Björk: "Crystalline" (Current Value Remix)
DJ Rashad: "Feelin'"
Traxman: "I Need Some Money"
Death Grips: "Hustle Bones"
Frank Bretschneider: "Kippschwingungen part 8"
Actress: "Jardin"
Moritz von Oswald Trio: "Yangissa"
Animal Collective: "Honeycomb"
The Hundred In The Hands: "Keep It Low" (Patten Remix)
Cristian Vogel: "Lucky Connor"
Shackleton: "Seven Present Tenses"
Gaby Amarantos: "Mestiça" (com Dona Onete)
Keith Fullerton Whitman: "Occlusion"

quarta-feira, 27 de junho de 2012

(crítica - disco) The Ex – Joggers and Smoggers (1989; Ex Records, Holanda)


























No decorrer da década de 80, a banda holandesa The Ex costumava dar provas constantes de sua relevância, através de álbuns tão ou mais furiosos que Joggers and Smoggers. Surgido em 79 nas franjas do burburinho punk, influenciado sobremaneira pela siderurgia roqueira do Gang of Four, o grupo é hoje associado sem muitas reservas à escala evolutiva do punk rock, sedimentada sobre a marca estratégica do “pós-punk” — um guarda-chuva amplo que abrigava os meneios straight edge do Talking Heads, a lírica sombria de Bauhaus e Joy Division, o rock conturbado do Wire e The Pop Group, e até mesmo o eletrônico avant-garde do Throbbing Gristle, mas que, no entanto, fazia da No Wave um apêndice e simplesmente ignorava o The Ex... Então, como inscrevê-los nessa longa rampa que desliza do final dos anos 70 e que ganhou impulso até os nossos dias, pulverizando-se em um sem número de estilos, gêneros e possibilidades?

Penso não existir nem sequer a possibilidade de uma resposta plausível que se concentre em apenas um disco, como pode parecer minha pretensão ao analisar este álbum duplo decisivo na carreira do grupo. Mas o fato é que um olhar acurado sobre a discografia do Ex durante os 80 revela uma sucessão de excelentes trabalhos, que restam carentes de uma avaliação crítica adequada não só em língua portuguesa, mas eventualmente em inglês [1]. Me refiro a clássicos praticamente inauditos como Blueprints for a Blackout (84), o primeiro a indicar a vocação multidirecional do grupo, e sua radicalização em Pokkeherrie (85) e Aural Guerrilla (88). Estes discos indicam, para além do ideário punk, o gosto pela timbragem ruidosa, a concepção emaranhada das estruturas rítmicas, a inquieta variação de climas e todo um ambiente de experimentação que, associado à ideologia anarquista alardeada por seus integrantes, foi classificado com o título “anarco-punk”. Mas antes de aceitar passivamente esta classificação “oficial” — porque situada em relação a uma cena igualmente “oficial”, eminentemente anglosaxã — sou obrigado a concordar com a frase que consta na biografia oficial do grupo: “O The Ex tem desenvolvido ao longo dos anos um caldeirão de diferentes estilos musicais: noise, rock, jazz, improvisação e música étnica foram entrecruzando-se sob um único guarda-chuva: ‘Ex-music’.”

Partindo dessa premissa, o The Ex sempre buscou expandir sua paleta sonora, juntando-se para discos em colaboração com Tortoise, Sonic Youth, Tom Cora, entre outros. Esta inclinação adquiriu ainda mais força quando, em 2001, Terri e Andy foram para Addis Abeba, Etiópia, dando início a um aventureiro processo de renovação da sonoridade do grupo, constituído solidamente a partir da amizade com músicos etíopes. Nesta viagem, uniram-se particularmente com o saxofonista Gétatchèw Mèkurya, com quem lançaram em 2006 o atordoante Moa Anbessa (ouça "Ethiopia Hagere"). Mais de dez anos depois, contabiliza-se o saldo positivo desta incursão: algumas turnês, workshops e a relativa popularização de nomes até então obscuros, como Mulatu Astatke e Mahmoud Ahmed. Nada mal para um grupo anarco-punk, que por décadas manifestou preocupações sociais nas letras e na postura, sem prejuízo para estratégias de posicionamento e elaboração estética dignas da maior atenção. 

Hoje, após uma infinidade de formações, que incluíram, dentre outros o baixista Massimo Pupilo e o baterista Han Bennink, o Ex se estabilizou com Terrie Ex na guitarra barítona, Arnold de Boer nos vocais, Andy Moor nas guitarras e guitarra barítona e Katherina Bornefeld na bateria. Mas no final da década de 80, à época de Joggers and Smoggers, apenas Terrie e Katrin faziam parte do Ex, completando-se com a presença do membro fundador G.W. Sok nos vocais e Luc no baixo. Para Joggers and Smoggers, a banda convidou nada mais nada menos do que Lee Ranaldo e Thurston Moore, do Sonic Youth, o coletivo anarco-punk Dog Faced Hermans de Glasgow, o célebre coletivo holandês Instant Composers Pool, assim como vários músicos populares de tradições europeias e do Oriente Médio. Gravado em Amsterdam no ADM Koeienverhuurbedrijf e produzido por Dolf Planteijdt, Joggers and Smoggers lida de forma equilibrada com a tensão que caracteriza qualquer esforço criativo prolongado, o que permite compará-lo a grandes álbuns duplos que fizeram história (penso, sobretudo, em Double Nickels on the dime, do Minueten). Nas 34 faixas que perfazem a hora e meia de audição, o ouvinte se depara com uma obra robusta e coesa, mas que, ao mesmo tempo, emite uma abundância de sonoridades que, arrisco dizer, não houve igual na seara do rock durante a década de 80.

Da introdução silenciosa “Humm (The Full House Mumble)” até a estranha cançoneta “Upstairs With Picasso”, o The Ex passeia por uma infinidade de possibilidades: anomalias extraídas do punk rock, temperadas com lo-fi, noise, improviso e instrumentos estranhos tais como "gaiola", extintor percutido com o martelo, bambus, colheres, "fios", "vidro", castanholas, chocalhos, cabaças e miuçalhas afins. Dessa vertente, cito “Pigs and Scales”, “To Be Clear” (entrecortada por guitarradas quase percussivas, à la DNA), “Burst! Crack! Split!” (one-minute rock, no qual o slap de um dos dois contrabaixos compete com o toque da caixa), e o trio implacável formado por “Nosey Parker”, “Kachun-K Pschûh” e “The Early Bird's Worm”. Faixas inclassificáveis como “Watch the Driver” e o suingue bêbado de “Got Everything?”, com Ab Baars no saxophone e Wolter Wierbos no trombone, contrastam com a voz comovente e patética do poeta e escritor Dorpsoudste de Jong em “Waarom Niet”.

O rock dos anos 50 é revisto por uma lente cínica que desconstrói o arranjo de metais comuns nas grande orquestra, em  “Shopping Street” e “Brickbat”. As “sonicyouthianas” “Tightly Stretched”, com Lee Ranaldo e “Gentlemen” com Thurston Moore constituem atrativos à parte, com destaque para o intermezzo exclusivamente percussivo da primeira. As experiências com as sonoridades orientais marcam presença com o violão arabizante de Dolf em “Morning Star”, a guitarra distorcida sobre o canto búlgaro no drone “Invitation to the Dance” (com Jeroen de Groot na gaita de fole) e as escalas orientais de “Ask the Prisoner”, executadas por Doan Gurkensalat — que toca um instrumento de corda de origem turca e iraniana chamado saz. Nesta mesma seara, vale notar o canto gutural climático de “Hieronymus”, um contraponto perfeito à voz melíflua da violinista Gabi Kenderesi em “Greetings from Urbania”.

Assim, se considerarmos a lapidar autodefinição que consta no site do grupo como uma espécie de atestado de intenções, convém destacar Joggers and Smoggers, primeiramente, como um marco responsável pela liberação do eixo criativo do grupo; depois, como a suma e o espírito de tudo o que o The Ex fez durante todos os 32 anos de carreira. Vejam, não se trata de eleger o melhor entre os mais de 40 trabalhos produzidos pelo grupo, entre discos de carreira, registros ao vivo, inúmeras colaborações, cassetes, etc, o que me parece uma tarefa impossível. Mas de ressaltar as qualidades que fazem com que Joggers and Smoggers se estabeleça como o marco representativo daquilo que é fundamental e característico no The Ex: a apropriação criativa do discurso punk, transformado em uma música desprovida de prerrogativas mercadológicas — em outras palavras, liberada do jugo da canção (ainda que possa lhe cortejar eventualmente...) A importância de Joggers and Smoggers reside, assim, no fato de ter servido simultaneamente de epílogo para o momento “punk”, e prólogo para novos capítulos desta formidável miríade sonora conhecida como “Ex Music”.

Bernardo Oliveira

[1] Rip It UpTotally Wired e Retromania, por exemplo, são três estudos/série de entrevistas assinados por Simon Reynolds, que envolvem diretamente o pós-punk, mas que não possuem nem sequer uma referência ao The Ex.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Mark Ernestus apresenta Jeri-Jeri com Mbene Diatta Seck: "Xale"

Depois de "Mbeuguel Dafa Nekh", acaba de sair "Xale", mais uma belíssima faixa resultante da colaboração de Mark Ernestus com o grupo Jeri-Jeri e a cantora Mbene Diatta Seck, representantes do mbalax senegalês. Lançado pelo selo Ndagga, dirigido por Ernestus.


(documentário) "Quando Xangô Apitar"

Direção: Emílio Domingos e Gustavo Rajão

"Uma conversa com Xangô da Mangueira (1923-2009), grande mestre do samba cuja trajetória se confunde com a própria história do gênero. Xangô foi discípulo de Paulo da Portela, diretor de harmonia na Mangueira por décadas, antecessor de Jamelão como puxador na escola e um dos maiores nomes do partido alto, estilo em que foi consagrado rei."




terça-feira, 19 de junho de 2012

(crítica - disco) Mater Suspiria Vision – Inverted Triangle III (2012; Phantasma Disques, Reino Unido)

























No terceiro volume, Cosmotropia de Xam e cia conta com o apoio de colaboradores de peso: How I Quit Crack, Delila Muerte, Carmen Incarnadine, Crisne e Valentina Mushy, todos eles velhos conhecidos no cenário witch-house e figurinhas carimbadas no cast da Phantasma Disques. Antes do lançamento oficial, a banda havia disponibilizado dois EP's em formato digital, contendo duas faixas que estariam inclusas em Inverted Triangle III. São elas: La Bocca è la Tana del Bianco Coniglio” e "Il Labirinto del Sesso", cada uma acompanhada de um video feito que aguçava ainda mais a curiosidade dos fãs. Quem acompanha mais de perto o MSV e os demais projetos aliados à Phantasma Disques sabe o quanto esses caras valorizam o uso de videos, produzindo desde video-clipes até longas metragens, como a quadrilogia baseada no Inverted Triangle II. O fato é que eles (todos produzidos pelo próprio Cosmotropia de Xam) enriquecem ainda mais a experiência musical.


Quanto ao Inverted Triangle III, esse é dividido em onze faixas e não vai decepcionar ninguém, tudo que a gente gosta está no disco: o pitch arrastando no chão, o heavy saw flertando com o drone e os beats "mater suspiriescos" provenientes do 808 kick, do clap e do snare (tudo encharcado em delay), uma marca-registrada do MSV. "La Bocca...1 e 2" flertam com o industrial e o drone; ao mesmo tempo, possuem passagens hipnóticas e sonhadoras. Guarde bem a melodia do sintetizador, você vai tornar a ouví-la outras vezes ao longo desse álbum. (e em outros também).

Pro bem ou pro mal, os beats de "Il Labirinto Del Sesso" chamam a atenção, especialmente por seu formato caótico. É meio difícil manter-se imparcial quando o assunto em pauta é a bateria do MSV, ou você se sente incomodado com a aparente ausência de estrutura ou atraído pela maneira pouco comum como foi feita, alterando constantemente a freqüência das BPM. Outros grandes momentos do disco são encontrados na faixa "Onodelia", - onde synths flutuantes são rompidos por gritos e vocalizações estranhas - e nas colagens de "LSD Party", faixa que conta com a participação de How I Quit Crack.

Quem acompanhou a trilogia, sabe que encontrará qualidade no terceiro volume: tão bom ou até melhor que os anteriores. Mal posso esperar pelo Inverted Triangle IV; o Inverted Triangle MIL, se não for pedir demais.

Ouça "Il Labirinto Del Sesso".

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Can: "Dead Pigeon Suite"

Suíte do Pombo Morto (ou "Vitamin C", para os íntimos...)

Moritz Von Oswald Trio: "Yangissa"

Trecho de uma das faixas mais sinistras do novo álbum, Fetch (Honest Jon's, 2012)

(artigo) O mal-estar na Abundância
















Recentemente, em uma de suas colunas na Pitchfork, Mark Richardson comentava, usando como tema o Music from Saharan Cellphones Vol 1, o papel relativo de escassez e abundância em nossa maneira de fruir música hoje. Mesmo com o boicote de SOPA/ PIPA/ ACTA etc, é muito mais fácil ter acesso: é farta a oferta do próprio material musical, e é farta também a oferta de informação sobre música. Esse nosso site aqui é um dentre zilhões de exemplos: um coletivo de entusiastas se reúne para escrever sobre música e divulgar isso. 

Tenho quarenta anos, e consigo lembrar fácil de ter experimentado a escassez das duas coisas. Li na Bizz sobre o In the court of the Crimson King e se passaram anos até que eu conseguisse que alguém me gravasse uma fita – anos até que eu visse o disco. Vejam que não se tratava de algo particularmente obscuro – era King Crimson, um dinossauro progressivo e, ainda assim, nos anos 80, não estava aí nas quebradas não. Não faz muito tempo, era difícil ter acesso a todos os discos que se queria ouvir.

E pela mesmo via a coisa ocorria com a informação sobre música. Lembro de querer saber mais sobre La Monte Young – coisas simples, do tipo Quem é mesmo esse cara? O que esse cara tem a ver com o Sonic Youth? É boa a música dele? Melhor que a do Sonic Youth? Mas, claro, não encontrava nada – pois, por incrível que pareça para você que tem vinte anos hoje, já existiu um mundo sem internet. A fonte possível de alguma informação eram as revistas de música – coisas como a Bizz – e fanzines maluquete que a gente assinava, e recebia pelo correio. Eventualmente, um amigo mais endinheirado (eu tinha um amigo assim) comprava o New Musical Express, ou o Melody Maker, e isso era lido até gastar.  

Agora que tudo isso não é mais problema, pois contamos tanto com muita disponibilidade de música e de informação sobre música, é claro que os problemas aparecem em outro lugar. Um, fundamental pra mim, é a organização: é saber o que está aonde. Não me adianta ter um HD externo de 3T lotado de mp3 e não saber encontrar as coisas que quero ouvir. Preciso de organização. Por isso, passei os ultimos tres anos organizando cuidadosamente meu iPod. Capas, creditos corretos, playlists: um primor, quase 160G, muita música. O investimento de tempo foi grande, mas tem valor: eu uso muito esse aparelho, muito mesmo – é muito util pra mim. E, agora, tudo se foi, toda essa organização, todo esse investimento: tudo evaporou, pois o iPod morreu.

Meu mundo caiu. E, claro, sei que não é irremediável. Mas também não sei qual a lição que tinha de aprender com o incidente, embora ache que tinha de aprender alguma coisa.

Antonio Marcos Pereira

domingo, 17 de junho de 2012

Giacinto Scelsi: "Quattro Pezzi su una nota sola" (1959)


























“No fim dos aos 50, Giacinto Scelsi, um compositor italiano autodidata e antigo playboy, que já tinha se envolvido com as religiões orientais e teosofia, teve a ideia extraordinária de escrever toda uma obra — as “Quatro Peças” para orquestra de câmara — que consistia apenas em notas simples, uma para cada movimento. Scelsi não foi o primeiro compositor a chegar a esse conceito: Elliott Carter se aventurou em seu “Eight Études and a Fantasy”, em 1950. Também não se trata do mesmo esquema seguido literalmente: os instrumentos, muitas vezes longe de dobrar a nota fundamental, se deslocam por microtons e semitons, ou intervalos maiores. Mas, no final do trabalho, uma mudança de paradigma ocorreu: o tom é todo-poderoso, mais uma vez. A Música retorna às suas origens primitivas, quando as melodias são formadas a partir do ruído. Em cada uma das obras subseqüentes de Scelsi o fenômeno se repete. Não é de admirar que este romano excêntrico e obscuro, que se considerava um "mensageiro" ou um "médium", se tornou uma figura cultuada entre os compositores mais jovens: ele fez do eterno, novo.” (ROSS, Alex. Giacinto Scelsi: "The Messenger". The New Yorker, Nov. 21, 2005. http://www.therestisnoise.com/2005/11/giacinto_scelsi.html)













sexta-feira, 15 de junho de 2012

(mixtape) Sextape


























F U C K M U S I C

01. clams casino - i'm god (instrumental)
02. slow magic - corvette cassette
03. chet faker - terms and conditions
04. sbtrkt - hold on
05. sumeo - shades of love
06. clams casino - gorilla
07. how to dress well - ready for the world
08. grimes - nightmusic (feat majical cloudz)
09. pyramids - the echo of something lovely (jesu)
10. my bloody valentine - soon
11. shlohmo - places (original mix)

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quinta-feira, 14 de junho de 2012

(crítica – disco) Beto Guedes – A Página do Relâmpago Elétrico (1977; EMI Odeon, Brasil)

























Assim como uma série de artista e compositores que confluíram dos festivais dos anos 60 para a diversidade dos 70, e que de alguma forma ficaram marcados pelo estigma da chamada “música regional”, o nome de Beto Guedes também acabou se restringindo a um contexto inconvenientemente particular. Porém, quem se arriscaria a negar que Lula Côrtes, Zé Ramalho, Alceu Valença, Guilherme Arantes, Flávio Venturini, Kleiton e Kledir, Sá e Guarabyra, entre outros, independente de suas respectivas contribuições estéticas, usufruem hoje de um acréscimo de universalidade, angariando interesse mundo afora justamente por expressarem sotaques próprios e intransferíveis? As reedições inglesas e americanas em vinil de artistas brasileiros desta época apenas atestam que toda a conversa estranha da “música regional” (ora, o sudeste é também uma “região”!) se constituía dentro de um maniqueísmo insustentável em tempos de comunicação acelerada, a saber: entre a classificação imposta pelas gravadoras e sua subsequente adesão por parte do chamado “grande público” — basicamente os consumidores de discos, fitas cassetes e shows. Rompido o estigma, chegou a hora de retomar a escuta desse conjunto de álbuns e artistas fundamentais, cujo brilho fora provisoriamente apagado pela segmentação estratégica da grande indústria.

Mineiro de Montes Claros, nascido há 61 anos, filho do seresteiro e compositor Godofredo Guedes (gravado pela cantora portuguesa Eugênia Melo e Castro), compositor, multiinstrumentista e cantor de timbre singular, Beto Guedes apareceu pela primeira vez no cenário nacional em 1969, ao lado de Fernando Brant, quando veio ao Rio participar do V Festival Internacional da Canção com a canção “Feira Moderna”. Considerado uma espécie de outsider, mesmo durante o período em que se juntou ao Clube da Esquina de Milton Nascimento, Lô Borges, Ronaldo Bastos e companhia (sobretudo no álbum homônimo e em Minas), Guedes foi encarregado de executar diversos instrumentos (violão, guitarra, viola, contrabaixo, bateria, percussão, bandolim), construindo uma reputação ambígua: ora atrelada à sua indubitável competência de instrumentista, ora pelos modos singulares (para não dizer excêntricos) com que entoava suas canções e tocava esses mesmos instrumentos.

Esse conjunto de talentos e características idiossincráticas se catalisaram em seu primeiro álbum de carreira, A Página do Relâmpago Elétrico, cuja canção-título, composta por Guedes e Ronaldo Bastos, fora inspirada no álbum de um colecionador de fotos da 2ª Guerra Mundial, que continha uma imagem do avião “Relâmpago Elétrico”. Nenhuma metáfora seria capaz de reunir tantos elementos pertinentes e interligados: o contraste entre a organicidade da página de um livro com o termo “elétrico”, a remissão à eletricidade, que no entanto advém de uma força da natureza, o relâmpago, e todo o aspecto psicodélico embutido nessa imagem. A instrumentação se destaca pelo entrelaçamento inteligente do bandolim e do violão com o efeito chorus, executados respectivamente por Guedes e Zé Eduardo. A marcação também se destaca, feita a partir de chocalho de sementes e guizos, assim como a letra deste compositor genial que é Ronaldo Bastos, coloquial e delirante como poucos nesta mesma época — num comparação direta nesta mesma seara do “delírio coloquial” dos 70, talvez somente Luiz Melodia e a dupla Mautner/Jacobina estejam à altura. 

A influência do rock progressivo é perceptível, não só pela presença no órgão de Flávio Venturini, que em 75 havia ingressado no grupo O Terço, mas também pela bateria inconfundível de Robertinho Silva, egresso da experiência com o Som Imaginário — que não só havia gravado seus três discos de carreira, mas acompanhado Milton Nascimento na versão ao vivo da obra-prima Milagre dos Peixes. Esta influência pode ser avaliada pelo leitor em faixas como a instrumental “Chapéu de Sol” (Beto Guedes e Flávio Venturini), na qual Guedes toca moog e flauta, e na pegada folk de “Salve Rainha” (Zé Eduardo/Tavinho Moura). Porém, como o Clube da Esquina não se restringia aos maneirismos do rock, abraçando toda espécie de manifestação musical, vale sublinhar a evidente influência deste ambiente sobre o disco, como, por exemplo, no forte sotaque andino de “Maria Solidária”, ou no choro “Belo Horizonte”, que conta com o clarinete luxuoso de Abel Ferreira. Outras presenças que marcam a sonoridade do álbum: Toninho Horta no contrabaixo e na guitarra, e Holy na percussão e na bateria.

Outro destaque do disco é "Nascente", de Bastos e Murilo Antunes, uma canção gravada por muitos artistas, inclusive Milton Nascimento e Flávio Venturini, entre outros. Mas foi através da balada rock-folk “Lumiar”, dedicada a um célebre reduto bicho grilo localizado no interior do Rio de Janeiro, que o disco ganhou alguma projeção, vendendo o triplo do esperado pela gravadora. A guitarra aguda, a as viradas de bateria e pratos estridentes, o piano quase percussivo pontuando a melodia, fazem de “Lumiar” um clássico absoluto dos anos 70, que ainda fascina 35 anos depois. No entanto, a faixa foi injustamente inserida no grupo de canções que obtiveram o excesso do reconhecimento popular e, por conseguinte, uma antipatia semelhante a que sofre a música de Bob Marley e Raul Seixas. Um efeito tão natural quanto previsível, ainda mais se levarmos em conta a situação exposta no início do texto.

Mas que não se engane o leitor, pois Beto Guedes não é apenas um grande instrumentista, muito menos se resume a uma espécie de hitmaker, idolatrado por universitários e hippies de última hora. Estamos a falar, antes de mais nada, de um compositor de harmonias e melodias fortemente evocativas (em “Choveu”, com Ronaldo Bastos, e “Bandolim”), de um artista capaz de usar sua habilidade de arranjador para criar climas simultaneamente bucólicos e solenes, e, sobretudo, de um cantor excepcional. Seu canto anasalado, repleto de falsetes e imprecisões, e que rende comparações inevitáveis com Dylan e Neil Young, se destaca pelo timbre peculiar, de tal forma que podemos remeter a um verso que Bowie dedicou a Dylan: “a voice of sand and glue”.

A Página do Relâmpago Elétrico pode, no fim das contas, dar a impressão de ser um disco que atira para todos os lados, mas talvez seja este o seu maior trunfo. Parece que, ao fazê-lo, Beto Guedes desejou criar para além de uma obra musical, uma espécie de auto-retrato em andamento, como o comprova a combinação ideogrâmica de sua foto (ou de seu pai?) com o símbolo de uma semente, que se repetiria nos álbuns seguintes, Amor de Índio (1978) e Sol de Primavera (1979).  

Bernardo Oliveira


Patti Smith no Letterman: "Banga"

segunda-feira, 11 de junho de 2012

"Accordion"


Daedelus: "Experience" (2002; Invention, Plug Research)


Madvillain: "Accordion" (2004; Madvillany, Stones Throw)

The Thing & Neneh Cherry: "Accordion" (2012; The Cherry Thing, Smalltown Supersound )

Peaking Lights: “Beautiful Son”

domingo, 10 de junho de 2012

Curumin: "Treme Terra"

"Umbandstep" (abaloaê...).

A diferença entre Curumin e muitos dos músicos/autores/compositores de sua geração é que, antes de mais nada, ele é um compositor relevante, que reinventa vertentes da MPB dos anos 60 e 70, mais especificamente do samba soul carioca de Jorge Ben e Cassiano, até a baianidade plugada d'A Cor do Som. O problema é que Arrocha é mais do que um disco de compositor (embora tenha bons momentos nesse sentido), e talvez seu trabalho mais arriscado e original — em breve, texto na FACT... (B.O.)

 

Dirty Projectors: "Gun has no Trigger"

Grizzly Bear: "Sleeping Ute"

Woebot: "Rave Bum"


Woebot: Rave Bum from Matthew Ingram on Vimeo.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

(crítica - disco) Stephen O’Malley & Steve Noble – St. Francis Duo (2012; Bo’Weavil, Reino Unido [EUA])

























A consolidação de Stephen O’Malley como um dos artistas decisivos deste ano não decorre somente dos três grandes lançamentos que ele protagonizou até então, a saber: V, o último do KTL; Nazoranai, com Keiji Haino e Oren Ambarchi, ainda no prelo; e este acachapante St. Francis Duo, lançado em abril deste ano pelo selo Bo’Weavil. Quem esteve mês passado no concerto fenomenal que o KTL fez no Sónar São Paulo, há de concordar que foi um dos melhores momentos do festival, e, com certeza, um dos mais impressionantes realizados no Brasil este ano. À primeira vista, é comum reconhecer no trabalho de O’Malley apenas seu traço aparente, qual seja, o poderio sônico e os altos volumes. Contudo, sua performance serviu para mostrar que por trás da névoa barulhenta e sombria, revelam-se artifícios e procedimentos técnicos que, por fim, favorecem a construção de um ambiente preeminentemente catártico — como se pode conferir de forma mais completa através do Sunn O))).

Integrante de grupos e projetos que redesenharam a confluência do metal com a música improvisada e o drone, tais como Khanate, Sunn O))) e Æthenor, a música de O’Malley sempre se caracterizou pela fina sintonia entre duas características aparentemente antagônicas: arrojo na concepção, desenvoltura na execução. Assim, antes do poderio sônico, antes mesmo do “barulho” e da abstração modal com a qual pretende estimular os elementos arcaicos da sua música, o artista trabalha sobre cada nota, cada timbre e acorde com o cuidado digno de um artesão. É no detalhe, no apuro técnico e conceitual, no arranjo meticuloso das formas, e não na mera aglomeração de acordes distorcidos, que se deposita o arcabouço conceitual de suas improvisações. De modo que não seria exagero afirmar que do encontro entre O’Malley e o lendário Steve Noble, dois mestres do detalhe, espera-se nada menos do que a expressão imponderável da singularidade.

Reconhecido por atuar na seara da improvisação, particularmente ligado à cena inglesa e à personalidade desbravadora de Derek Bailey, Noble carrega na bagagem uma ampla experiência na arte do improviso, obtida a partir da gravação de álbuns como Out of The Past e And (com Bailey e Pat Thomas), mas também na interação com Paul Dunmall e Alex Ward — com quem se apresenta em São Paulo no próximo dia 23. Em quatro faixas com duração média entre 18 e 20 minutos, O’Malley e Noble prolongaram o entrosamento expresso no último disco do Æthenor, En Form For Blå. Bastaram duas apresentações em Londres, no Cafe Oto, em agosto de 2010, para fazer de St Francis Duo mais um dos grandes momentos deste ano envolvendo o nome de Stephen O’Malley.



Como estamos diante de duas sessões distintas, uma comparação do ponto de vista da estrutura me parece inútil, já que esta se encontra submetida à dinâmica da improvisação, mas vale destacar o ímpeto e a inspiração. Neste caso, opto pelo segundo improviso em ambos os dias. No “Side B” ressalto tanto o pulso firme com o qual a dupla conduz a instrumentação na seara dos baixos volumes — aproximadamente dos quatro minutos até por volta do décimo primeiro —, como também pela admirável opção timbrística de O’Malley, que usou a guitarra sem distorção na maioria do tempo, explorando acordes graves e encorpados. No segundo dia, que em termos gerais me soou melhor sob os aspectos técnicos e criativos, o “Side D” traz uma improvisação descontínua, repleta de meandros e surpresas até mesmo em seus momentos mais indigestos — como se pode conferir a partir do sexto minuto, em meio aos escombros da batalha entre os pratos da bateria e os ruídos abstratos da guitarra distorcida. Este aspecto se deve não somente à maior variação na guitarra de O'Malley, mas em uma atitude rítimica mais agressiva de Noble, cujo desenvolvimento culmina na catarse que anuncia o fim do disco. 

Mas em que consiste o brilhantismo deste trabalho? Ora, logo nos primeiros segundos da faixa intitulada simplesmente como “Side A”, o indício claro de uma tensão que irá percorrer toda a sua duração: ao invés da habitual massaroca densa e compacta, a alternância de climas, texturas e diálogos entre os dois instrumentistas. Porém, o entrosamento se dá mais pela diferenciação do que pela afinidade do método. Enquanto Noble busca a diversidade de timbres à moda de Derek Bailey, explorando seu instrumentos para além das convenções —usando seus tambores como poucos, mas também batendo nas ferragens, jogando os pratos uns contras os outros, roçando as peles e os pratos com baquetas de madeira, feltro, e até de ferro! —, O’Malley desempenha o papel do construtor paciente, explorando as repetições e circunscrevendo um território harmônico consistente de onde retira suas intervenções. E, no entanto, há que se ressaltar a riqueza do diálogo, pois se a diversidade de Noble indica o caminho, O’Malley dispõe a todo instante de argumentos eficazes para segui-lo. Denso ou rebuscado, noisy ou silencioso, St. Francis Duo é, no mínimo, o valioso registro desta relação de complementaridade que percorre todo o disco.

Bernardo Oliveira

terça-feira, 5 de junho de 2012

(crítica - disco) D'eon - LP (2012; Hippos in Tanks, Canadá)


























O aclamado Visions — trabalho mais recente de Claire "Grimes" Boucher e o primeiro a ser lançado por uma grande gravadora — deixou muita gente com a pulga atrás da orelha. Afinal, quem é essa menina que aos 23 anos conseguiu descolar um contrato com a 4AD, e mais do que isso, quem são Doldrums e Majical Cloudz, respectivos co-autores das faixas "Colour of the Midnight" e "Nightmusic"? Sem querer, Claire jogou luz sobre uma cena que até então estava fadada ao anonimato e trabalhos de baixa repercussão. Mergulhando um pouco mais a fundo no passado da Claire, esbarramos no split Darkbloom, fruto da parceria com o conterrâneo D'eon, que acaba de lançar seu segundo disco-solo, um álbum duplo com o sugestivo nome LP.

A fórmula de LP é muito semelhante a do já citado Visions, experimentalismo eletrônico que flerta com o pop sem se prender ao óbvio. As linhas vocais, inspiradas no r&b, dão um toque altamente assobiável. Musicalmente mais ousado, D'eon faz uso de linhas progressivas de teclado e beats instáveis que em momentos como "Signals Intelligence" beiram a IDM, atingindo picos de absurda complexidade.

Sua obra chama a atenção pelo aspecto mutável, transitando por ambientações ruidosas e passagens de apelo pop sem qualquer sinal de autocensura, "Now Your Do" e "Al-Qiyamah" são exemplos excelentes da autenticidade do artista. O uso do reverse e do pitch shifter nos vocais de fundo são uma constante em todo o disco; mesmo assim, faixas como "Virgin Body" e "Transparency pt II" não trazem grandes novidades a um cenário musical que ainda não curou a ressaca da chillwave e do dream pop representado por artistas como How To Dress Well, Boy Friend e Sleep Over.

Assim como a colega Grimes, D’eon faz parte de uma geração que não parece se contentar em seguir uma única direção, absorvendo todas as referências que estão ao redor, explorando texturas que não se limitam à base do seu projeto. Mesmo sem possuir o carisma de um Visions, álbum que acertou em cheio na mistura entre caos e relaxamento, criando um universo mágico de timbres esquisitos e ruídos gostosos de ouvir.

Thiago Miazzo

Ouça "Signals Intelligence" e "Now Your Do"