sábado, 25 de agosto de 2012

terça-feira, 21 de agosto de 2012

(crítica - disco) Bronze Age - Antiquated Futurism [2012; Bed of Nails, EUA]


Bronze Age é o mais novo projeto de Kris Lapke, mais conhecido pela alcunha Alberich e por seu trabalho como produtor e engenheiro de som para nomes como Kevin Drumm e Prurient. Carinhosamente apelidado de "Vatican Shadow do Lapke", lançou seu primeiro disco - entitulado Antiquated Futurism - pelo selo subsidiário da Hospital Productions, Bed of Nails.

Esse flerte de Lapke com uma sonoridade mais orientada para o techno permeia toda a sua carreira. Algumas músicas de seu disco "Psychology of Love" traz beats que, mesmo reservados ao pano de fundo, garantem pulso à música, conservando a sua estrutura. É como se o artista construísse um esqueleto e revestisse os ossos com camadas e mais camadas de noise, deixando o ritmo restrito à mais atenta audição, semelhante a um raio-x. Essa sonoridade mais ritmica é mais aprofundada no Christian Cosmos, ao lado do parceiro Dominick Fernow. Mesmo sufocado por texturas distorcidas e muitas vezes remetendo a uma avalanche ou à implosão de um prédio antigo, o duo mantém uma noção de ritmo deveras consistente.

Traçar um panorama de sua obra é necessário quando o assunto é Bronze Age - de que outro modo faria sentido uma transformação que, através de um olhar mais descuidado, poderia ser encarada como uma mudança da água pro vinho? Antiquated Futurism transpira influências de old school techno e early rave, misturando influências de coldwave, minimal synth e dos registros do Vatican Shadow pós-Iraqi Praetorian Guard. Os beats, presentes em uma parcela considerável de sua carreira, mostram-se nítidos e claros nesse álbum, de uma maneira nunca antes ouvida. É como se Lapke tivesse optado por recomeçar do zero, trazendo na bagagem apenas a ideia do beat como direcionador da música, o elemento principal de sua obra. O disco abre com um techno furioso entitulado "Surviving Cultural Impedance", seguido pela atmosférica "Coupling Symbols", certamente a mais familiar aos ouvidos daqueles que acompanham a sua carreira de longa data. Cabe à majestosa "Modal Ingenuity" encerrar a bolacha, que ganhou uma linda prensagem em vinil laranja.

Thiago Miazzo

Ouça uma prévia de Antiquated Futurism:
bronze age - antiquated futurism (album preview)


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Escutar de novo, pela primeira vez



















(A propósito dos shows do trio paulistano Metá Metá no Oi Futuro Ipanema, dias 17 e 18 de agosto de 2012).

Baby, baby, baby, não se assuste, a cidade é iluminada! Mas serena? Tranquila? Não, defintivamente. Como te (en)cantar, São Paulo? Como lançar o feitiço da canção por sobre seu asfalto, cantar o encantamento de seus desencantos, ligado no 220, na “padoca”, nos olhares discretos e garagens infinitas? As respostas possíveis foram dada pelos punks da periferia, pelos rappers, pelos versos tortos da lira — e mesmo teu samba é anômalo! Seu corpo inteiro é vasto e cresce multidirecionado, mas muitos reconhecem em ti uma “periferia”, desencavada do esquecimento estratégico para habitar para sempre nosso imaginário (blame on the boogie, Nelson Triunfo, Racionais…). Seus abismos sociais, interações tímidas e canções paradigmáticas, que entoam a cidade remota, a cidade dos que “moram longe” (longe de quem, de onde?), que padecem da falta de condução, “se eu perder esse trem que sai agora às 11h…” Como cantar esta cidade munido apenas por violão, saxofone e uma voz? Como fugir da maldição da MPB, do “sambinha” e da “mpbezinha”, munidos com as mesmas armas? “Das armas brancas, químicas quentes, música é a preferida…”

A armadura instrumental pode não deixar dúvidas, mas o que fazer diante do fato de que as dúvidas simplesmente desmoronam? Basta assimilarmos uma realidade improvável, segundo a qual teriam marcado encontro na mesma encruzilhada, sob a benção de todos os exus e orixás, o improviso jazzístico de Peter Brötzmann, o peso do Black Sabbath, os afro sambas de Vinícius e Baden Powell, os detritos sonoros do drone, os ruídos no wave, a pegada do punk e do metal, a música litúrgica da umbanda e do candomblé, as dissonâncias de Arrigo e Sonic Youth, a pujança do tambor de mina, da ciranda, da umbigada, o canto das três raças, o cinema falado, a escola de samba e a onipresença de Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, cascavéu, ensinando a bater cabeça no sobressalto do afoxé, e a fazer riff de metal no galope acertado de um “batuque” de cordas e sopros. 

Kiko Dinucci converte seu instrumento em um híbrido de violão e guitarra, mas também assume as formas do atabaque e do agogô. Em “Vale do Jucá”, canção de Siba Veloso, adapta o instrumentos às técnicas do “piano preparado” de John Cage, interpondo um pedaço de plástico entre as cordas e o corpo do violão. Por vezes, emula uma banda inteira através da utilização de pedais de distorção, palhetadas abafadas, linhas de baixo repletas de intervalos menores, acordes dissonantes e dedilhados abertos, suingue e virtuosismo. Os sopros de Thiago França extrapolam o papel de “solistas” geralmente consagrado a este instrumento, e, tal como o violão, se afirmam a partir de uma série de possibilidades imprevistas: percutindo as chaves, criando desenhos rítmico-melódicos para servir como acompanhamentos e usando as ressonâncias da respiração para criar texturas sinistras. Com seu timbre versátil e interpretação precisa, Juçara Marçal é hoje a maior cantora brasileira surgida nos últimos 30 anos. Como nenhuma outra, conjuga força expressiva e espontânea, com versatilidade e, o que mais chama a atenção, dosagem precisa de emoção na emissão e nos floreios, o que a destaca de grande parte das cantoras da atualidade.

Ressalto as qualidades instrumentais do conjunto porque além da concepção, é a execução o grande barato de um concerto do Metá Metá. Faixa introdutória de Metal Metal, o próximo trabalho previsto para outubro, “Laroiêxu” abre-alas: o sax combina ruídos, ambiências e melodias soltas, o violão percussivo se transfigura em um terreiro de umbanda e Marçal solta a voz como quem lança impiedosamente o fio de uma espada sobre os sentidos da plateia. Introdução impactante, seguida pelas canções do primeiro álbum: “Vale do Jucá”, “Umbigada”, “Trovoa” (linda canção lírico-coloquial assinada por Maurício Pereira, com mais um espetáculo à parte protagonizado pela cantora), “Papel Sulfite”, “Samuel” e a evocativa “Vias de fato”. A sessão “Beleléu”, momento em que o trio se esmera em interpretações matadoras para algumas canções do bardo paulistano, traz duas pérolas de Pretobrás II — Maldito Vírgula, “Ir pra Berlim” e “Más línguas” — esta última, com seus versos infames, porém delicados, gerou gargalhadas: “até sessenta, cê tenta, depois dos setenta… sessenta!” “Tristeza não”, faixa que encerra Metal Metal, é uma composição inédita de Itamar com Alice Ruiz, a meio caminho de Black Sabbath e dos Stones de “Can’t You Hear me Knockin’”, um peso descomunal que justifica o título no mínimo curioso do próximo disco.

Composições de Dinucci com Douglas Germano (que lançou em 2010 o ótimo Orí), “Oranian” e “Obá Iná” reforçam uma concepção calcada no punch da execução e nas infusões sonoras inesperadas, executada por três instrumentistas que empunham seus instrumentos como um campo aberto de experiências. Operando por contraste com o discurso dominante da chamada MPB, a música do Metá Metá expõe o ouvinte a uma experiência situada entre a familiaridade e a desorientação — na qual se escuta tudo de novo, pela primeira vez... Recusa-se, ao contrário do que se espera hoje da sigla MPB, a emprestar tons pastéis e execução standard a elementos do rock e da música de todos os santos, extrapolando fronteiras pré-delimitadas pela dinâmica ideológica e mercantil. Não seria o esgarçamento de tendências comuns ao discurso mediano da MPB que confere ao grupo algo para além das siglas e gêneros? Em outras palavras, como cantar São Paulo no século XXI? A resposta não poderia ser mais explosiva e eficiente: conjurando-as com outras armas brancas, outras químicas quentes, curto-circuito.

Bernardo Oliveira

sábado, 18 de agosto de 2012

Black Pus: Pus Mortem (2012; s/g, EUA)

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

(mixtape) For the Judgement of the Souls


























Porque Deus há de trazer a juízo toda obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau.
Eclesiastes 12:14

Parte 1 de 2. Trilha sonora para o juízo final.


01. Bronze Age - Coupling Symbols
02. Blown - Holy Spirit
03. Vatican Shadow - USS Carl Vinson Night Tide Funeral
04. Death Grips - Beware
05. Christian Cosmos - And The Thorns Sprang Up And Choked Them
06. Blind Joe Taggart - I Will Not Be Removed
07. Bemônio - Salmo Responsorial

For the judgement of the souls


Thiago Miazzo

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

(crítica – disco) Liars: WIXIW (2012, Mute, EUA)


























Estive escutando este disco pelos últimos dois meses, e observo que não foram poucas as vezes em que me flagrei em dúvida, ligeiramente desorientado em mais uma encruzilhada armada por um dos trios mais doidivanas do rock mundial. Quem acompanha a carreira do Liars sabe do que estou falando. Como eles manipulam com tanta liberdade a roupagem de suas canções tortas e permanecem “Liars” do início ao fim? Vejam o caso de WIXIW (pronuncia-se “wish you”): seus integrantes confirmam de bom grado que “soa como um cruzamento entre os álbuns Amnesiac e In Rainbows”. O site NPR chegou a afirmar que se trata “do melhor disco do Radiohead desde Kid A. Excessos à parte, não há como discordar da semelhança com o Radiohead, sobretudo diante do clangor etéreo de “The Exact Colour Of Doubt”, de uma balada como “Ill Valley Prodigies” ou do eletrorock sombrio e cadenciado de “Flood to Flood”…

Tamanha declaração de amor a um grupo tão paradigmático soa para mim como mais uma desconcertante ironia. A julgar pela sequência de álbuns que preenche uma década inteira, de They Threw Us All… (2002) até o incompreendido Sisterworld (2010), a sonoridade do Liars serpenteia uma identidade fundada paradoxalmente na atitude irônica diante de qualquer clausura identitária. Agora eles reaparecem investindo em apostas obscuras: título e capa pictóricos, enigmáticos; sintetizadores e sequencers ligados a todo vapor; guitarras e percussões outrora direcionadas a explodir em jams largadas, se apresentam agora com discrição; um minimalismo cancioneiro que favorece o timbre anasalado de Angus Andrew (comparável ao de Beck e Thurston Moore); e, enfim, a incorporação de altas doses de referências colhidas não só do Radiohead da fase mais experimental, mas também dos sintetizadores de Chris and Cosey, do Portishead de Third (notadamente na faixa título) e, tal como no anti-hit “Housecloud”, transbordando sobre o cadinho da música convencional através do techno “Brats” — cujo clipe é das coisas mais bizarras que surgiram esse ano.

Contudo, mesmo os passos em direção a uma sonoridade mais convencional causam estranhamento. Não só pelo deslocamento do contexto (do rock à experimentação ao techno…), como também pela obtenção, nessas bases, de uma sintonia improvável entre canção e arranjo. Tal combinação permite entrever o que há de singular na presença do Liars no cenário mundial do rock. Afinal, eles não mentem, eles são os Liars! Mentirosos natos cujo trabalho ilude ouvintes incautos, sobretudo aqueles em busca da confirmação de uma identidade sonora que, em todo caso, nunca virá. 

Bernardo Oliveira 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

(crítica - disco) Test - Árabe Macabre (2012; s/g, Brasil)

























João Kombi e Thiago Barata são figuras conhecidas no rolê hardcore/punk paulistano. O primeiro integrou a Are You God? e realizou alguns trabalhos sob o pseudônimo Dj Oaum, voltado para o experimentalismo e a spoken word. O último comanda as baquetas da banda de grindcore D.E.R., uma das mais velozes e precisas do cenário, além de integrar o trio de punk rock nerd Tri Lambda. A bordo de uma Kombi munida de um gerador de energia, a dupla leva sua música a portas de shows - como o caso da apresentação na porta do show do D.R.I., que rendeu à banda o seu primeiro videoclipe - até uma audaciosa apresentação na Virada Cultural, do lado de fora do MIS. Na ativa desde 2010, o Test conta com duas demos (Jesus Doom e M’Boi Mirim), dois DVDs pirata oficiais e um sete polegadas (Carne Humana).

O compromisso da banda com o DIY não se limita às apresentações ao vivo. Seu mais recente trabalho - o debut entitulado Árabe Macabre - é fruto de um crowdfunding que visava alcançar a singela marca de cinquenta reais, destinado a recuperar o dinheiro investido na gravação, mostrando que é possível gravar um disco de qualidade gastando pouco. Explorando as limitações de uma formação calcada na guitarra e bateria, o duo cria músicas divididas em diversas estruturas, passando por referências que vão do black metal mais primitivo ao thrash/death metal e consequentemente o grindcore que direciona a carreira de ambos. E o melhor: sem deixar a sensação de "tá faltando grave". As patadas precisas do Barata, aliadas à guitarra de timbragem meio stoner do João, não deixam sobrar espaços vazios. O resultado é um disco coeso, pesado do começo ao fim e nada maçante.

É notável o entrosamento dos integrantes, e é justamente essa afinidade que faz do Test uma das mais gratas surpresas do cenário nacional. O estilo do Barata (alternando entre blast beats e momentos mais técnicos sem se prender por muito tempo a uma única ideia) se encaixa perfeitamente ao jeito de tocar do João, resultando em momentos violentos inspirados nos clássicos Repulsion, Assück e Terrorizer, passagens com um quê de Venom e Motörhead, além de uma noção de tempo e cadência pouco comuns ao estilo. Um dos grandes discos de música pesada brasileira do ano, Árabe Macabre tem de sobra toda a criatividade que muitas vezes falta em alguns discos de grindcore. Ouça a faixa título e acesse o Tumblr da banda, onde se encontra toda a discografia disponível para download.


segunda-feira, 6 de agosto de 2012

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

(crítica - disco) Bodyguard - Silica Gel [2012; EUA]























As sementes do Bodyguard foram lançadas no final de 2011, quando James Ferraro botou pra jogo a mixtape "Inhale C-4 $$$$$" sob a alcunha BEBETUNE$. Demorou um tempo, mas consegui curtir essa onda meio chopped and screwed do Ferraro. Mesmo fugindo um pouco do terreno do noise e do drone, as composições conservam a influência do gênero, seja em um beat de timbragem zuada ou em um loop à lá Skaters que dissolve em uma linha bonita de synth.

Ao longo de Silica Gel, Ferraro remove de forma cirúrgica trechos de cultura pop e post-internet e dá a eles nova vida em forma de loops persistentes, que despertam estranheza e confusão.  "Raiden - Blue Lights # NZT - 48" não soa como uma música pras pistas de dança, e sim a trilha sonora da volta para casa, caminhando meio bêbado, atravessando a rua sem olhar para os lados, completamente imerso nos headphones. Essa aura embriagada se faz presente em diversas passagens, com destaque para a bela "Liquid Metal #TCIZ4". 

Os sete minutos de "H.U.M2.E.R", com vocais que alternam entre efeitos robóticos na hora do verso e refrão de pitch no chão, sempre acompanhado por um "yeah baby, yeah baby..." sampleado de alguma dessas divas pop que eu não sei diferenciar uma das outras. "SEX TAPE" tem seu ritmo marcado pelo clique de uma arma, que não aparece como na manjada "Paper Planes" da M.I.A., mas sim como o instrumento-guia da música, apenas uma das muitas belas sacadas que permeiam o álbum. Ouça Silica Gel e fique atento ao próximo disco, um lançamento previsto para 2012 via Hippos in Tanks.


Ouça o álbum na íntegra, clicando abaixo:

BODYGUARD - SILICA GEL