terça-feira, 18 de setembro de 2012

Elma & Kevin Drumm: ao vivo no CCSP

 Fotografia de Lane Firmo, originalmente postada no Altnewspaper

















Após uma performance ensandecida no Rio de Janeiro, Kevin Drumm apresentou-se no CCSP no último sábado, ao lado da banda Elma, que aproveitou a ocasião para realizar o lançamento oficial de seu aguardado debut LP.

Queria ter o talento de um Ignácio Loyola Brandão para descrever o quão quente Sampa estava nesse quinze de Setembro.  Sabe aquela atmosfera sufocante e o calor exacerbado de “Não verás país nenhum”?  Tipo isso.  De modo que desci na estação Vergueiro e imediatamente sai à procura de um bar e uma dúzia de cervejas geladas. O local escolhido de modo aleatório foi o Kantinho do Pão de Queijo (com K mesmo), onde Nádia e eu aguardamos a chegada de alguns amigos e o começo do evento. Na porta, uma lixeira em formato de palhaço, do tipo que eu não via há anos. Eram quase oito horas quando fechamos a conta, pegamos umas long necks  e corremos pro CCSP. Enquanto a Elma abria o show com “[Instrumental]”, nós quatro virávamos em um ou dois goles a garrafa que não poderia nos acompanhar. Foi assim, meio grogues e quase mijando nas calças que adentramos o recinto.

 E o que eu pude ver me fez cair o queixo: uma performance redondinha, sem deslizar nem mesmo nas partes mais traiçoeiras, nas pontes mais intrincadas. O guitarrista Paulo Cyrino não parava de balançar a cabeça um segundo sequer, enquanto as baquetas firmes de Fernando Seixlack direcionavam a sonoridade polirrítmica da banda.  Destaque para “Fat Breath”, o poderoso riff de abertura de “Smagma”, a já clássica “A Parte Elétrica” e o forrózinho safado que brotava entre um silêncio e outro, arrancando boas risadas do público.

A apresentação da Elma não havia chegado ao fim quando Kevin Drumm juntou-se a banda numa jam, explorando camadas de noise  e incluindo sons. Em pouco tempo, sua música ganhou um formato ensurdecedor, contrariando a minha expectativa de um início mais voltado ao drone . Aproveitei a debandada de grande parte do público e cheguei mais perto. Diante de mim, uma das figuras mais respeitadas da cena experimental de Chicago, criador de uma série de registros incríveis, sozinho ou acompanhados de artistas do patamar de Aaron Dilloway e Dominick Fernow.  Kevin usou e abusou dos agudos, um tanto prejudicados pela estrutura do CCSP.  No total, foram aproximadamente vinte minutos de um catártico experimentalismo noise, em uma performance bem mais curta do que a realizada na Audio Rebel.  Entre expressões de transe e olhares de desaprovação, Kevin encerrou a performance enquanto as luzes do CCSP acendiam e nos convidavam a se retirar.

Thiago Miazzo





segunda-feira, 10 de setembro de 2012

domingo, 9 de setembro de 2012

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Black Pus – Pus Mortem (2012; s/g, EUA)


























Nas últimas linhas do pequeno texto que explica a avalanche sonora contida em Pus Mortem, o baterista americano Brian Chippendale adverte para a forma de se escutar o Black Pus: “I played this loud so you should too.” Sim, ouça alto e não espere entender tudo o que se passa, entregue-se à atmosfera apocalíptica, aceite o convite ao transe, mas também à dança — sim, à dança desenfreada, catarse dos movimentos e dos sentidos, o chacoalhar da roda. O texto ainda explica o significado de Black Pus (“estado afetivo de exagerado bem-estar ou euforia”), cita o infame Ren & Stimpy como referência e termina com uma piada: uma citação remete à nota, que por sua vez remete de volta ao texto: “This is the footnote”. O panorama não deixa dúvidas: nonsense, desorientação e euforia norteiam as ideias e a música do Black Pus.

Mas a matéria-prima do Black Pus não se esgota no conceito, muito pelo contrário. Chippendale dispõe de um enorme talento como baterista, apto não só a desenhar ritmos e viradas complexas, mas também explorar nuances de timbre e pequenos detalhes. Conjuga esse talento com um arsenal de apetrechos eletro-eletrônicos, desde microfones até peles de bateria trigadas com uma profusão de efeitos. Recobrindo a excelência da execução instrumental, uma resolução esteticamente situada na definição “no-fi”, difícil de acompanhar para os ouvidos mais sensíveis. Completando o esquema, Chippendale aciona sons pré-gravados com as baquetas, senta e levanta freneticamente da bateria e se veste com uma miscelânea multicolorida de penduricalhos, que configuram um dos atrativos de suas apresentações caóticas.

O ritmo marcado traz alguma referência mais consistente, enquanto, escondido sob a máscara, o microfone converte os gritos e solfejos do artista em um leque sonoro que varia do grito gutural à linhas de baixo. One-man band, Chippendale mantém alto o nível de articulação instrumental e conceitual, como percebe-se nas convenções e melodias entreouvidas em meio ao caos. O rumor grave e intenso que perpassa as oito composições não prejudica suas respectivas singularidades: o andamento dançante de “Play God”, por exemplo, ressalta o jogo rítmico das sílabas, enquanto o sampler deteriorado de uma gaita de fole azucrina o ambiente. Faixas como “Why Must It End?” e “Heebee Geebees” exibem melodias que rememoram à canção celta, ao passo que a frenética “Neuronic Knife” a voz intervém abruptamente sobre os ataques e viradas da bateria. “Supergenius” não surpreende somente pelo contraste, afinal trata-se de uma bela canção, mas porque aponta para outras direções compatíveis com a sonoridade extrema do Black Pus. O álbum se encerra com “Off With His Head” e “Meet Me In That Other Place”, duas composições que concentram o que o trabalho possui de mais autêntico: o programado e o espontâneo se chocam em conflito, mas também, paradoxalmente, são domesticados pela mão firme de Chippendale, o que confere unidade ao trabalho.

Tantos adjetivos tenebrosos podem afastar o ouvinte acostumado a frequências mais amistosas. Contudo, vale notar que não estamos diante de uma sonoridade essencialmente “barulhenta”, a exemplo do que se costuma chamar por noise. Pois arrisco-me a afirmar que trata-se em Pus Mortem de uma força quase contrária à irracionalidade do noise. E, por favor, não entendam aqui “irracionalidade” como incapacidade de engenho, mas como uma prática que investiga as fronteiras daquilo que possibilita o “engenho”, as condições de uma hermenêutica da própria matéria sonora. Esta é a profissão de fé do noise. Já o Black Pus produz basicamente o oposto deste vandalismo programado dos artistas ligados a este outro aspecto do som extremo. Sua questão, o seu “conceito”, diz respeito ao tal “estado afetivo de exagerado bem-estar ou euforia” que se define em seu próprio nome: o barulho, mas também o ritmo, a festa, a euforia… Ainda assim, após escutar o disco (disponível abaixo), o ouvinte provavelmente se perguntará: se isso não é o mais escancarado “barulho”, então o que há de ser então? Missão cumprida, Mr. Chippendale…

Bernardo Oliveira


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Elma - Elma LP (2012; Submarine Records, Brasil)




























Formada em 2002, a paulistana Elma faz música instrumental com referências sludge e noise-rock, em uma formação de duas guitarras, baixo e batera. Já foram três, tipo Maiden ou Skynyrd.  Hoje, novamente como um quarteto, a Elma conta com Fernando Seixlack, Ricardo Lopes, Paulo Cyrino e Bernardo Pacheco.

Lançado hoje em formato digital e com um lançamento em vinil previsto para o dia 15 de Setembro (data em que a banda se apresenta em São Paulo ao lado do estadunidense Kevin Drumm), Elma LP traz um som menos calcado no metal e, ao mesmo tempo, muito mais pesado. O modo quase esquizofrênico como a música se transforma proporciona ótimos momentos, partindo de um Flipper safado pra dissonância próxima do noise em questão de segundos.  É um disco mais técnico também, resultado de um longo processo de composição, iniciado em 2005 e concluído em 2009. Quatro caras tocando juntos por quatro anos, os primeiros discos do Swans, os últimos do Neurosis e um amor platônico por toda a obra do Steve Albini. O resultado dessa equação é um entrosamento monstruoso, que não se contenta em buscar apenas no metal as referências para a música. “Fat Breath” remete às bandas alternativas de Chicago, o lado mais blueseiro do novo Earth, lembrando em alguns momentos a aura primitiva  do Bone Awl. Destaque para a cozinha em “A Parte Elétrica”,  inclinada ao math e ao improviso. Mais calcada no metal, “Busca” se mantem mais firme, sem guinadas bruscas ou variações de tempo vertiginosas. “Smagma” encerra bem o lado A, com um comecinho calcado no doom metal tradicional, crescendo de forma livre e intuitiva. 

“Zoltan Ri” abre o lado B - uma regravação da música originalmente lançada em 2009 - seguida por “Agente”, faixa que mantem a guitarra base e a bateria focadas em uma tarefa mais rítmica, deixando o baixo e a segunda guitarra livres pra pirar. “Retrogosto” alterna entre riffs dopados e passagens de groove, e a épica “Vatarno" encerra a bolacha. O lançamento, apenas em vinil, é do selo Submarine Records (Hurtmold, São Paulo Underground, The Eternals, Bodes e Elefantes). Não custa lembrar: data de lançamento prevista para o dia 15, quando a Elma abre o show do Kevin Drumm, na Biblioteca do Centro Cultural São Paulo. E a entrada é grátis.

Thiago Miazzo

Ouça em primeira mão o debut do Elma, clicando aqui.